-
A compreensão corrente da vontade de poder como anseio por domínio ou como impulso à violência empurra essa palavra fundamental da metafísica de
Nietzsche para o ouvido comum, que pensa algo inteiramente diferente do que
Nietzsche pensa ao dizer vontade de poder.
-
Nietzsche concebe a vontade psicologicamente, mas redefine a essência e a tarefa da psicologia a partir da vontade de poder, exigindo dela uma morfologia e uma doutrina do desenvolvimento da vontade de poder.
-
A vontade de poder é o caráter fundamental do ente enquanto tal, o que significa que sua essência só pode ser interrogada e pensada no olhar para o ente como tal, isto é, metafisicamente, e a verdade desse projeto tem caráter metafísico.
-
Em “Assim Falou Zaratustra”, no trecho “Da Superação de Si Mesmo”,
Nietzsche declara que onde quer que encontrou seres vivos encontrou vontade de poder, e mesmo na vontade do servidor encontrou o querer ser senhor.
-
Para
Nietzsche, vida é apenas outro nome para ser, e querer é querer ser senhor: mesmo o servo, ao tornar-se indispensável e assim forçar o senhor a depender dele, ainda exerce uma forma de vontade de poder.
-
Comandar significa ser senhor do dispor sobre as possibilidades, caminhos e meios do agir eficaz; no comando, quem comanda obedece a esse dispor e assim se obedece a si mesmo, o que torna o comando autodomínio, por vezes mais difícil do que obedecer.
-
O poder não é o alvo externo ao qual a vontade aspira, mas a vontade já vigora dentro do âmbito essencial do poder; a essência do poder é vontade de poder, e a essência da vontade é vontade de poder, formando a simplicidade indivisível de uma única essência.
-
O poder só impera ao tornar-se senhor do grau de poder alcançado, pois já a simples paralisação no crescimento de poder inaugura o início da impotência; pertence à essência do poder a superação de si mesmo, que se origina do próprio poder enquanto comando que se autoriza a superar o grau vigente.
-
O oposto da vontade de poder não é a posse da poder, mas a impotência para o poder; vontade de poder equivale a poder para o poder no sentido de autorização para a superação, e o não-querer é para a vontade mais assustador do que querer mesmo o nada.
-
Todo ser vivo é vontade de poder, e a mera conservação da vida já é decadência; o crescimento de poder exige simultaneamente a conservação do grau alcançado para que a superação seja possível, de modo que incremento e conservação pertencem ao único e mesmo querer.
-
As condições que a vontade de poder estabelece para autorizar seu próprio ser são pontos de vista perspectivos voltados para as condições de conservação e de incremento em relação a formações complexas de duração relativa da vida no interior do devir.
-
O devir em
Nietzsche não é o fluxo indeterminado de uma alternância sem caráter nem um desenvolvimento rumo a um alvo, mas o excesso de poder que brota do próprio caráter fundamental do ente como vontade de poder.
-
Os pontos de vista perspectivos têm a forma de números e medidas, ou seja, de valores; os valores não valem em si para depois tornarem-se perspectivas, mas o valor é essencialmente o ponto de vista do ver que calcula e que impera, próprio da vontade de poder.
-
As formações do poder como ciência, arte, política e religião são chamadas por
Nietzsche de estruturas de domínio, e tanto elas quanto suas condições são denominadas valores, pois criam os caminhos sob os quais o mundo, que é essencialmente caos, se ordena como vontade de poder.
-
Todo ente, por viger como vontade de poder, é perspectivista: cada centro de força constroi a partir de si todo o restante do mundo, medindo-o, tocando-o e configurando-o segundo sua força, e sair do mundo das perspectivas seria a ruina.
-
A vontade de poder é em seu ser mais íntimo um calcular perspectivo com as condições de sua possibilidade, que ela mesma estabelece como tais; a questão dos valores é mais fundamental do que a questão da certeza.
-
Em todo querer há avaliação, e a vontade de poder é a única vontade que quer valores; ela precisa tornar-se e permanecer o princípio de toda posição de valores, de modo que o pensar da verdade do ente como vontade de poder é inevitavelmente um pensar segundo valores.
-
A metafísica da vontade de poder é com razão e necessidade um pensamento de valores; no calcular com valores, a vontade de poder conta consigo mesma, e o pensamento de valores pertence essencialmente ao ser-si-mesmo da vontade de poder enquanto subjectum.
-
A metafísica da vontade de poder interpreta todas as posições metafísicas precedentes à luz do pensamento do valor, e todo confronto metafísico é uma decisão sobre hierarquias de valores.