A consideração da coisa a partir de sua própria constituição conduz à determinação tradicional segundo a qual toda coisa é algo que possui propriedades, isto é, um suporte relativamente permanente sobre o qual repousam determinações múltiplas e mutáveis, estrutura que parece corresponder tanto à experiência cotidiana quanto à concepção natural do mundo, à ciência e à tradição metafísica desde Platão e Aristóteles até Kant.
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A pergunta «O que é uma coisa?» deve agora permanecer tão próxima quanto possível das coisas singulares e limitar-se inicialmente àquilo que elas próprias mostram.
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Uma pedra apresenta-se como dura, cinzenta, rugosa, irregular, pesada e constituída de determinada matéria; uma planta possui raiz, caule e folhas, que podem ser verdes, serrilhadas e ligadas a pecíolos curtos.
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Um animal possui olhos, orelhas e capacidade de deslocamento, além de órgãos sensoriais, aparelho digestivo e órgãos reprodutores, utilizando, exercitando e de algum modo renovando esses órgãos.
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O animal, assim como a planta, é denominado organismo precisamente em razão dessa constituição orgânica.
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Um relógio, por sua vez, possui engrenagens, mola, mostrador e outras partes constitutivas.
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A enumeração de propriedades poderia prosseguir indefinidamente, e todas essas determinações permanecem corretas porque são retiradas daquilo que as próprias coisas mostram.
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Quando se abstrai da diferença entre pedra, rosa, cão, relógio e outras coisas particulares, torna-se visível uma estrutura comum: cada coisa é sempre algo que possui determinadas propriedades e é constituído de determinada maneira.
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Esse «algo» aparece como suporte das propriedades, aquilo que, por assim dizer, jaz sob os diversos modos de ser e permanece como o mesmo enquanto as propriedades são fixadas ou modificadas.
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A coisa manifesta-se, assim, como um núcleo em torno do qual se dispõem propriedades múltiplas e variáveis, ou como um suporte sobre o qual essas propriedades repousam.
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Esse suporte é aquilo que possui as propriedades, que as tem sobre si, enquanto espaço e tempo permanecem inicialmente como o quadro dentro do qual a coisa assim constituída se encontra.
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Tal estrutura parece tão evidente e familiar que todas as dificuldades anteriormente levantadas acerca do «isto», dos princípios metafísicos, dos diversos graus de verdade e da relação com espaço e tempo podem parecer complicações desnecessárias diante da simplicidade da experiência cotidiana.
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Permanecer no âmbito da experiência cotidiana pareceria exigir apenas que as coisas fossem tomadas como elas são e descritas mediante aquilo que nelas se apresenta.
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À estrutura constituída por suporte e propriedades acrescentam-se ainda as relações entre as próprias coisas, pois a alteração das propriedades de uma coisa pode exercer efeitos sobre outra.
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As coisas agem umas sobre as outras, impedem-se reciprocamente e, dessas relações, resultam novas propriedades que passam igualmente a ser consideradas como algo que as coisas «têm».