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O ente é dito e interpelado de modo duplo, uma vez segundo as categorias e outra vez segundo potência e efetividade, mas
Aristóteles não esclarece nem fundamenta a origem dessa distinção, deixando em aberto se essa dupla articulação provém do próprio ente, do modo humano de dizê-lo ou de alguma instância mais originária.
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A entrada no âmbito da pergunta pelo ente conduz imediatamente à obscuridade, pois a alternativa simples entre categorias e potência-efetividade torna-se insuficiente quando o próprio
Aristóteles, no início do capítulo conclusivo da investigação, acrescenta o ente verdadeiro ou não verdadeiro como uma terceira articulação.
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A questão torna-se ainda mais complexa porque
Aristóteles, ao caracterizar a articulação do ente em uma visão mais completa, não apresenta apenas três modos, mas quatro: o ente acidental, o ente como verdadeiro ou falso, o ente segundo as categorias e o ente segundo potência e efetividade.
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O ente acidental é nomeado em primeiro lugar na enumeração quadripartida, embora a tradução por acidental ou casual não coincida perfeitamente com o sentido aristotélico, pois todo acidental pode ser concomitante, mas nem todo concomitante é simplesmente casual.
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A enumeração aristotélica das quatro articulações do ente aparece como uma justaposição simples, sem explicitar ordem, conexão interna ou fundamento, afirmando apenas que o ente se diz de múltiplas maneiras e, nesse caso, de quatro maneiras.
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A fórmula segundo a qual o ente se diz de múltiplas maneiras não é uma expressão vazia, mas concentra a posição fundamentalmente nova conquistada por
Aristóteles diante de toda a filosofia anterior, inclusive
Platão, não como sistema acabado, mas como tarefa filosófica.
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A interpretação da investigação sobre potência e efetividade exige uma preparação inevitável, não por razões didáticas, mas para delimitar o âmbito da questão, no qual as categorias se fundam no dizer e são o próprio ente, enquanto o ente também se diz segundo potência e efetividade.
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O âmbito da investigação é o ente, inicialmente distinguido de modo duplo, depois triplo e enfim quádruplo, mas
Aristóteles mantém essas distinções em justaposição, sem desenvolver a conexão que as unifica.
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A articulação quadripartida é decisiva porque explicita que o ente visado é o ente simplesmente tomado em si mesmo, isto é, o ente enquanto ente.
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Quando o ente é considerado enquanto ente, aquilo que deve ser dito dele é que ele é, de modo que o que torna o ente ente é o ser, e a multiplicidade da articulação do ente significa propriamente a multiplicidade da articulação do ser do ente.
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A intenção aristotélica de visar o ser do ente torna-se clara no livro V da Metafísica, onde as significações do ente são enumeradas e o ente é compreendido como ente enquanto ente, isto é, como ser.
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O ser, segundo as categorias, possui tantos significados quantas são as figuras categoriais, pois a categoria é a fala do ser no enunciado sobre o ente.
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O ser também significa o é no sentido de é verdadeiro, como quando se afirma que algo é assim e se quer dizer que é verdadeiramente assim, tratando-se então do ser do ente verdadeiro.
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O ser ainda significa o ente segundo potência e efetividade, pois ser não significa outra coisa senão o ente enquanto tal e não algo diverso dele.
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O âmbito da investigação é o ente enquanto ente, isto é, o ser, e a pergunta dirige-se a uma das maneiras do ser, que se articula em quatro dobras simplesmente alinhadas: categorias, potência e efetividade, verdadeiro e falso, e acidental.
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A expressão segundo a qual o ente se diz de múltiplas maneiras significa, na maioria dos casos, que o ser do ente se diz de quatro maneiras, mesmo quando
Aristóteles enumera apenas duas ou três.
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A multiplicidade do dizer do ente possui também um sentido mais restrito, no qual não se referem as quatro maneiras do ser, mas uma delas, a saber, o ser segundo as categorias, que por sua vez se diz de múltiplas maneiras conforme a pluralidade das categorias.
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O ser segundo as categorias possui um privilégio próprio porque nele o dizer assume a forma destacada da categoria, já vigente em todo enunciado sobre o ente.
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A investigação da primeira categoria, a substância, começa pela afirmação de que o ente se diz de múltiplas maneiras, mas aí a multiplicidade tem sentido restrito, referindo-se à diversidade interna das categorias e à ordenação das demais categorias à primeira.
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A multiplicidade interna das categorias não é uma pluralidade confusa, pois nela o primeiro ente é o que algo é, isto é, a substância, à qual se ordenam as demais determinações categoriais.
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A multiplicidade do ser deve ser pensada em dois níveis, pois há a multiplicidade ampla das quatro maneiras do ser e, dentro dela, a multiplicidade mais restrita das categorias.
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A conexão entre a multiplicidade ampla do ser e a multiplicidade restrita das categorias precisa ser vista com clareza, não apenas para conhecer o uso linguístico de
Aristóteles, mas para compreender filosoficamente sua pergunta pelo ente.