-
A pergunta pelo modo como o sistema da ciência exige a Fenomenologia do espírito como primeira parte requer esclarecer que o subtítulo usual da obra é abreviado, pois o título completo inicialmente foi Sistema da ciência. Primeira parte. Ciência da experiência da consciência, posteriormente reformulado como Ciência da fenomenologia do espírito e enfim reduzido ao título corrente.
-
A forma mais completa do título mostra que a primeira parte do sistema da ciência é ela mesma ciência e constitui o primeiro momento da ciência, cujo caráter próprio só se esclarece por contraste com uma segunda parte que, contudo, não apareceu sob o título de segunda parte do sistema.
-
A Ciência da lógica, publicada por
Hegel em 1812, 1813 e 1816, relaciona-se materialmente com a segunda parte esperada do sistema, pois seu título remete ao mesmo esquema da Ciência da fenomenologia do espírito, mas ela não aparece expressamente como segundo tomo do Sistema da ciência.
-
O sistema da ciência aparece necessariamente em duas figuras, como ciência da fenomenologia do espírito e como ciência da lógica, de modo que a Fenomenologia remete à Lógica e a Lógica remete à Fenomenologia, embora
Hegel esclareça que o segundo momento inicialmente previsto deveria conter não apenas a lógica, mas também a filosofia da natureza e a filosofia do espírito.
-
O plano original do sistema de 1807 previa duas partes, sendo a segunda composta pela lógica e pelas ciências reais da filosofia, conjunto que corresponde à forma transformada da metafísica tradicional, compreendendo a ontologia, a psicologia especulativa, a cosmologia especulativa e a teologia especulativa.
-
A metafísica hegeliana transforma a divisão tradicional ao organizar-se em lógica e filosofia real, esta última composta por filosofia da natureza e filosofia do espírito, enquanto a teologia especulativa deixa de aparecer como terceira ciência real e passa a estar unida originariamente à ontologia no conceito próprio da lógica hegeliana.
-
A teologia especulativa não se identifica com filosofia da religião nem com doutrina da fé, mas designa a ontologia da realidade suprema enquanto tal, que em
Hegel se une à pergunta pelo ser do ente em geral.
-
A Fenomenologia do espírito, se a segunda parte projetada deveria expor a metafísica, é a fundamentação da metafísica, não como teoria do conhecimento nem como reflexão metodológica vazia, mas como preparação do solo e prova da verdade do ponto de vista assumido pela metafísica.
-
A Lógica não apareceu explicitamente como segunda parte do Sistema da ciência porque
Hegel alegou que sua extensão exigia uma publicação autônoma, fazendo dela a primeira continuação da Fenomenologia dentro de um plano ampliado, ao qual deveriam seguir-se as ciências reais da filosofia.
-
A omissão do título Sistema da ciência na publicação da Lógica não se explica pela simples ampliação da obra, mas pelo início de uma transformação da ideia do sistema entre 1807 e 1812, na qual a função e o lugar da Fenomenologia começaram a mudar, fazendo com que a Lógica deixasse de ser simplesmente a segunda parte do plano originário.
-
A transformação ocorrida entre a publicação da Fenomenologia e a publicação da Lógica pode ser vislumbrada pela Filosófica propedêutica de
Hegel, que permite acompanhar de modo aproximado a passagem entre os planos do sistema.
-
A trajetória de
Hegel entre Jena, Bamberg, Nuremberg e Heidelberg mostra que a elaboração da Lógica ocorreu durante sua atividade como redator e reitor de ginásio, culminando em sua entrada em Heidelberg em 1816, quando sua concepção de filosofia afirmava a confiança na ciência, na verdade e na potência do espírito.
-
A aceitação posterior do chamado para Berlim não se deveu apenas ao desejo de atividade universitária, mas à expectativa de uma função cultural mais ampla, e indica que, na época de Heidelberg,
Hegel já havia alcançado uma configuração firme de seu sistema filosófico.
-
Na fase berlinense,
Hegel publicou apenas a Filosofia do direito e algumas recensões de importância menor para o princípio de sua filosofia, enquanto suas aulas desenvolveram o sistema que já recebera forma decisiva na Enciclopédia de Heidelberg de 1817.
-
A Filosófica propedêutica, ministrada por
Hegel nas classes superiores do ginásio e publicada postumamente por Karl Rosenkranz em 1840, fornece uma via de acesso ao trabalho filosófico do período intermediário.
-
O ensino filosófico no ginásio mostra a dupla posição da lógica, pois no segundo curso ela sucede à Fenomenologia conforme o plano originário, enquanto no terceiro curso ela se torna fundamento da enciclopédia filosófica, precedendo a ciência da natureza e a ciência do espírito.
-
A Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio, publicada em Heidelberg em 1817, constitui a forma nova e definitiva do sistema, composta por ciência da lógica, filosofia da natureza e filosofia do espírito, isto é, pelo conjunto da metafísica hegeliana.
-
No sistema enciclopédico, a Fenomenologia perde sua função fundamental inicial e torna-se apenas uma parte de uma parte do terceiro momento do sistema, situada no interior da filosofia do espírito como seção do espírito subjetivo.
-
Nas notas preparatórias às novas edições da Fenomenologia e da Lógica,
Hegel afirma que o antigo título Sistema da ciência não deveria mais acompanhar a Fenomenologia e que a Enciclopédia havia substituído o projeto de um segundo tomo contendo as demais ciências filosóficas.
-
A afirmação de que a Enciclopédia substitui o segundo tomo do sistema originário é correta apenas em parte, pois ela não funciona mais como segunda parte do antigo sistema, mas como o todo de um novo sistema no qual a Fenomenologia já não ocupa lugar autônomo e fundador.
-
O sistema determinado pela Fenomenologia deve ser distinguido do sistema enciclopédico, pois no primeiro a Fenomenologia é a primeira parte e a Lógica pertence ao segundo conjunto com a filosofia da natureza e a filosofia do espírito, ao passo que no segundo a Lógica é o primeiro fundamento do sistema inteiro.
-
A mudança da posição da Lógica expressa a transformação da própria ideia de sistema, não como abandono de um ponto de vista insustentável, mas como transformação exigida pela execução inicial do sistema da Fenomenologia, que confere à própria Fenomenologia sua significação ao torná-la supérflua como parte inicial.
-
A distinção entre sistema da Fenomenologia e sistema da Enciclopédia não corresponde simplesmente a primeiro e segundo sistema, pois antes deles já se encontra o chamado sistema de Jena, designação apenas aproximativa para os diversos esboços em que a ideia especificamente hegeliana de sistema estava em formação.
-
A possibilidade de um sistema de Frankfurt deve ser admitida porque a intensa confrontação de
Hegel com o mundo grego, especialmente com
Platão e
Aristóteles e sob a proximidade de
Hölderlin, dificilmente teria começado apenas em Jena, revelando uma clarificação filosófica anterior.
-
A sequência dos projetos hegelianos pode ser pensada como sistema de Frankfurt, sistema de Jena, sistema da Fenomenologia e sistema da Enciclopédia, sendo este último mais próximo dos esboços iniciais do que do sistema da Fenomenologia, embora este permaneça isolado e necessário na forma interna da filosofia hegeliana.
-
A Fenomenologia do espírito continua sendo o caminho que prepara a dimensão, o espaço e o âmbito de extensão do sistema enciclopédico, de modo que sua ausência como parte fundamental não representa uma falha, mas indica que o sistema do saber absoluto deve começar absolutamente pela Lógica.
-
A Fenomenologia possui no sistema enciclopédico uma dupla posição, pois é, de certo modo, parte preparadora do sistema e, ao mesmo tempo, componente interno subordinado do próprio sistema.
-
A dupla posição da Fenomenologia não decorre de indecisão de
Hegel quanto à sua função, mas nasce da própria estrutura do sistema e impõe as questões sobre sua fundamentação sistemática, sobre os limites dessa fundamentação no próprio solo hegeliano e sobre o problema filosófico fundamental que nela se manifesta.
-
A resposta a essas questões exige antes apreender com clareza o caráter primário da Fenomenologia do espírito e compreender suas dimensões essenciais.