1.2 QUESTÃO-GUIA DA FILOSOFIA

PRIMEIRA PARTE: DETERMINAÇÃO POSITIVA DA FILOSOFIA A PARTIR DO CONTEÚDO DA QUESTÃO DA LIBERDADE. O PROBLEMA DA LIBERDADE HUMANA E A QUESTÃO FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA

SEGUNDO CAPÍTULO: A QUESTÃO-GUIA DA FILOSOFIA E SUA PROBLEMATICIDADE. CONSIDERAÇÃO DA QUESTÃO-GUIA A PARTIR DE SUAS PRÓPRIAS POSSIBILIDADES E PRESSUPOSTOS

6. A QUESTÃO-GUIA DA FILOSOFIA (TI TO ON) COMO PERGUNTA PELO SER DO ENTE

6. A pergunta efetiva pela questão-guia “o que é o ente?” exige que se coloque em questão tudo o que nela é digno de questionamento, incluindo aquilo que pertence à sua própria possibilidade e que, normalmente, permanece como pressuposto não interrogado. O verdadeiramente questionável na questão-guia é o ser do ente, pois a pergunta pelo ente enquanto tal visa, em última instância, o que o constitui como ente, ou seja, seu ser. Uma pergunta autêntica não se contenta com a resposta imediata, mas busca a própria possibilidade da resposta, o que requer clareza sobre o modo como se pergunta e sobre aquilo que se busca, qual seja, o que determina a essência do ser.

7. A COMPREENSÃO PRÉ-CONCEITUAL DO SER E A PALAVRA FUNDAMENTAL DA FILOSOFIA ANTIGA PARA O SER: OUSIA

a) Os caracteres da compreensão pré-conceitual do ser e o esquecimento do ser

7a. A compreensão do ser não é algo ocasional ou restrito à reflexão filosófica, mas permeia todo comportamento humano em relação ao ente, desde a fala cotidiana até o silêncio contemplativo, manifestando-se em cada “é”, “era” ou “será”. Esse compreender prévio e pré-conceitual do ser (Seinsverständnis) é tão fundamental e onipresente que permanece, em geral, não dito e esquecido, sendo necessário um esforço para recordá-lo explicitamente, pois ele já se encontra articulado em diferentes significações do “é”, como existência, ser-assim, ser-o-que e ser-verdadeiro.

b) A polissemia de ousia como sinal da riqueza e da necessidade não superada dos problemas no despertar da compreensão do ser

7b. A filosofia nasce do despertar da compreensão do ser, que se expressa linguisticamente, e na Grécia antiga essa expressão se dá pela palavra fundamental “ousia”. Essa palavra, no entanto, apresenta uma polissemia fundamental, pois designa tanto o ente em sua totalidade (o ente enquanto tal) quanto o ser do ente, a entidade (Seiendheit). Essa duplicidade de sentido não é acidental, mas revela a riqueza e a profundidade do problema do ser, pois a mesma palavra pode indicar tanto o ente concreto quanto aquilo que o faz ser ente, sua essência, indicando a dificuldade em distinguir e apreender o ser em sua diferença em relação ao ente.

c) O uso cotidiano da linguagem e o significado fundamental de ousia: presença

7c. Para compreender o significado fundamental de “ousia”, é necessário remontar ao seu uso cotidiano na língua grega, no qual a palavra designa, em primeiro lugar, bens, propriedade, casa e fazenda, ou seja, o que está disponível e permanentemente à mão, caracterizando-se pela constância e acessibilidade. A razão de esse ente específico receber o nome que designa o ente em geral é que ele exemplifica de modo eminente o que, no fundo, se compreende sob o ser do ente: a permanência, o estar disponível e presente. Assim, o sentido fundamental de “ousia” é a presença constante (ständige Anwesenheit), ou seja, o caráter de estar presente de modo duradouro, que é o que, em última instância, se entende por ser.

d) A compreensão de si mesmo oculta do ser (ousia) como presença constante. ousia como o buscado e pré-compreendido na questão-guia da filosofia

7d. A interpretação de “ousia” como presença constante não se baseia em uma análise etimológica superficial, mas na compreensão da linguagem como revelação originária do ente, na qual o homem, em sua existência, já sempre compreende o ser, ainda que de modo pré-conceitual e não temático. A filosofia, ao tomar “ousia” como termo para o ser, eleva essa compreensão prévia à explicitação, mas o próprio significado de “presença constante” permanece, em grande medida, oculto e não questionado, pois a filosofia antiga, ao perguntar pelo ser, já parte desse horizonte sem, contudo, interrogá-lo como tal. A pergunta fundamental, portanto, não é apenas “o que é o ente?”, mas “o que significa ser?”, e a resposta a esta última remete à compreensão do ser como presença constante.

8. DEMONSTRAÇÃO DO SIGNIFICADO FUNDAMENTAL OCULTO DE OUSIA (PRESENÇA CONSTANTE) A PARTIR DA INTERPRETAÇÃO GREGA DO MOVIMENTO, DO SER-O-QUE E DO SER-REAL (EXISTÊNCIA)

a) Ser e movimento. ousia como parousia do hypokeimenon

8a. A pergunta pelo ser do ente, ao se voltar para o ente presente, como uma coisa, encontra a dificuldade de determinar o que constitui sua entidade (Seiendheit), ou seja, seu ser. Essa dificuldade, ignorada pela tradição, exige que se considere o caráter de movimento do ente, pois o ser de algo que “está” ou “rui” só pode ser compreendido a partir de sua relação com a mobilidade e o repouso. A análise aristotélica do movimento mostra que a mudança (metabolé) é compreendida em termos de presença e ausência (parousia e apousia), e que o substrato que permanece (hypokeimenon) na mudança é o que garante a continuidade e a presença constante, revelando que o ser, mesmo no movimento, é compreendido como permanência e constância.

b) Ser e ser-o-que. ousia como parousia do eidos

8b. A pergunta pelo ser do ente também se dirige ao “ser-o-que” (Wassein), à essência ou ao aspecto (eidos) que faz com que algo seja o que é. O diálogo platônico “Eutidemo” ilustra essa questão ao perguntar se as coisas belas são diferentes do belo em si, e como o belo pode estar presente (parousia) nas coisas belas, tornando-as belas. A solução platônica, que introduz a “presença” (parousia) do aspecto (eidos) nas coisas, revela que o ser de algo, seu ser-assim, é compreendido como a presença constante de seu aspecto, de sua essência, que se manifesta no ente. Essa “presença” do aspecto, no entanto, é problemática e exige uma reflexão mais aprofundada, pois a mera presença de uma essência não é suficiente para explicar o ser do ente, como mostra a objeção de que a presença de um boi não faz de alguém um boi.

c) Ser e substância. O desenvolvimento do problema do ser na figura do problema da substância. Substancialidade e presença constante

8c. A tradição filosófica posterior interpretou “ousia” como substância (substantia), entendida como aquilo que subjaz (id quod substat) e permanece, o que confirma a conexão essencial entre a ideia de substância e a de permanência e presença constante. A própria palavra “substância” remete ao “subjacente” (hypokeimenon), que na análise aristotélica do movimento era o que permanece (hypomenon) durante a mudança. Assim, o problema do ser se transformou, na tradição, no problema da substância, e a substancialidade, como o que permanece e subjaz, é o que melhor expressa a compreensão do ser como presença constante e duradoura.

d) Ser e realidade (existência). A conexão estrutural interna de ousia como parousia com energeia e actualitas

8d. O ser, na acepção de realidade (Wirklichkeit) ou existência (Vorhandensein), também remete à compreensão do ser como presença constante, pois a realidade é entendida como “actualitas”, que por sua vez traduz o grego “energeia”. A “energeia”, no entanto, não significa força, mas o estar-em-obra, o estar-pronto e acabado (Fertigkeit), ou seja, o estar presente em sua obra. Assim, a realidade (existência) é compreendida como o estar presente, o estar pronto e acabado, o que confirma que mesmo essa acepção do ser é interpretada a partir do horizonte da presença constante, como o modo de ser daquilo que atingiu sua plenitude e se mantém presente.

9. SER, VERDADE, PRESENÇA. A INTERPRETAÇÃO GREGA DO SER NA SIGNIFICAÇÃO DO SER-VERDADEIRO NO HORIZONTE DO SER COMO PRESENÇA CONSTANTE. O ON HOS ALETHES COS KYRIOTATON ON (ARISTÓTELES, METAFÍSICA 10)

a) O estado da investigação. As significações do ser já discutidas e a significação eminente do ser-verdadeiro

9a. A investigação sobre o sentido do ser, ao longo da tradição, estabeleceu que o ser é compreendido fundamentalmente como presença constante. Para confirmar essa tese, é necessário estendê-la também à significação do ser-verdadeiro (Wahrsein), que é uma das acepções fundamentais do ser, presente em toda proposição verdadeira. A compreensão do ser-verdadeiro, no entanto, é a mais difícil de interpretar a partir do horizonte da presença constante, pois a tradição a reduziu a um problema lógico ou epistemológico. Para superar essa redução, é preciso retomar a interpretação grega da verdade (aletheia) como desvelamento (Unverborgenheit), mostrando que o ser-verdadeiro, como o ente que é verdadeiro, é o que está mais propriamente presente e, portanto, é o ente em sentido eminente (kyriotaton on).

b) Quatro significações do ser em Aristóteles. A exclusão do on hos alethes em Metafísica E 4

9b. Aristóteles distingue quatro modos de se dizer o ente (on legetai pollachos), quais sejam: o ente segundo as categorias (o ser-o-que e o ser-assim), o ente por acidente (o ser determinado acidentalmente), o ente segundo a potência e o ato (a possibilidade e a realidade) e o ente como verdadeiro e falso (o ser-verdadeiro). Na “Metafísica” (livro E 4), Aristóteles exclui o ente por acidente e o ente como verdadeiro do campo da filosofia primeira, pois ambos não dizem respeito ao ente enquanto tal, mas a aspectos derivados: o primeiro porque não tem uma essência estável, e o segundo porque é uma propriedade do juízo (lógos) sobre o ente, e não do ente mesmo. Essa exclusão, no entanto, não elimina o problema do ser-verdadeiro, mas apenas o remete a uma investigação mais profunda, que mostrará sua conexão essencial com o ser do ente.

c) A consideração temática do on hos alethes como kyriotaton on em Metafísica Θ 10 e a questão da pertença do capítulo ao livro Θ. A conexão entre a questão textual e a questão factual como questão da pertença do ser enquanto verdadeiro ao ser enquanto real (energeia on)

9c. Surpreendentemente, no capítulo final do livro Θ da “Metafísica”, Aristóteles retoma o ente como verdadeiro e o apresenta como o ente em sentido mais próprio (kyriotaton on), o que parece contradizer a exclusão anterior. Esse capítulo, tradicionalmente considerado um apêndice ou um acréscimo espúrio, é, na verdade, a chave para compreender a conexão essencial entre ser e verdade. A questão da autenticidade do capítulo (se pertence ou não ao livro Θ) revela, assim, uma questão filosófica fundamental: a relação entre o ser como verdadeiro e o ser como realidade (energeia). A tese a ser defendida é que o capítulo Θ 10 não é um acréscimo, mas o ponto culminante da investigação aristotélica sobre o ser, pois mostra que o ser-verdadeiro, ao ser a mais alta forma de presença, é o próprio ser em seu sentido mais eminente.

d) A rejeição da pertença de Θ 10 a Θ e a interpretação tradicional do ser-verdadeiro como problema da lógica e da teoria do conhecimento (Schwegler, Jaeger, Ross). A interpretação equivocada de kyriotaton como consequência dessa interpretação

9d. A recusa da pertença do capítulo Θ 10 ao livro Θ, por parte de comentadores como Schwegler, Jaeger e Ross, baseia-se em uma interpretação tradicional do ser-verdadeiro como um problema lógico ou epistemológico, alheio à metafísica. Para sustentar essa recusa, esses comentadores são levados a reinterpretar o termo kyriotaton, que qualifica o ente verdadeiro como “o mais próprio”, distorcendo seu sentido para “o mais habitual” ou “o mais comum no uso linguístico”. Essa interpretação, que não encontra respaldo nos textos de Aristóteles, visa eliminar a dificuldade que o capítulo coloca para a visão tradicional da filosofia, mostrando que o problema da verdade, em sua radicalidade, não pode ser reduzido à lógica e exige uma compreensão ontológica fundamental.

e) Demonstração da pertença do capítulo 10 ao livro Θ. A ambiguidade no conceito grego de verdade: verdade da coisa e verdade da proposição (verdade do juízo). A consideração temática do ser-verdadeiro do ente (próprio) (epi ton pragmaton), e não do conhecimento, no capítulo Θ 10.

9e. A demonstração da pertença do capítulo Θ 10 ao livro Θ exige que se reconheça a dupla acepção do termo “verdade” (aletheia) na filosofia grega: a verdade como desvelamento do ente mesmo (verdade ôntica) e a verdade como correção do juízo sobre o ente (verdade lógica ou proposicional). O capítulo Θ 10 trata da verdade no primeiro sentido, ou seja, do caráter de verdade (desvelamento) do próprio ente (επὶ τῶν πραγμάτων), e não do juízo (ἐν διανοίᾳ). Ao afirmar que o ente verdadeiro é o ente mais próprio, Aristóteles está dizendo que o ser propriamente dito é o desvelamento, a presença pura e constante, que não admite ocultação. Essa é a questão central da metafísica, e o capítulo Θ 10, longe de ser um apêndice, é a consumação da investigação sobre o ser, mostrando que a verdade, como desvelamento, é o próprio ser.

f) O entendimento grego da verdade (aletheia) como desvelamento. O ente verdadeiro (alethes on) como o ente mais próprio (kyriotaton on). O ente mais próprio como o simples e constantemente presente

9f. A verdade, na perspectiva grega, é fundamentalmente desvelamento (aletheia), ou seja, o caráter do ente de se mostrar, de estar não oculto. O ente verdadeiro, portanto, é o ente que se mostra em sua essência, que está presente em sua não-ocultação. O ente mais próprio (kyriotaton on) é aquele que, por sua própria natureza, é pura presença, que não pode ser ocultado, o que se dá no caso do “simples” (haploun), que é pura unidade e não comporta qualquer composição que possa ser dissimulada. A verdade do simples, como pura presença, é o próprio ser em seu grau mais alto, pois é a presença que exclui toda possibilidade de ausência ou ocultação.

g) A correspondência entre ser e ser-verdadeiro (desvelamento). Duas espécies fundamentais de ser e os modos correspondentes de ser-verdadeiro

9g. A verdade (desvelamento) corresponde à espécie de ser do ente, de modo que a cada modo de ser corresponde um modo específico de desvelamento. Para o ente acidental (que é e não é, que está presente e ausente), a verdade é também instável, podendo se converter em falsidade (ocultação) com a mudança do ente. Para o ente composto (que tem uma essência permanente), a verdade é estável e constante, pois sua essência permanece presente, embora ainda possa haver ocultação em relação a certos aspectos não essenciais. Para o ente simples, no entanto, a verdade é pura e absoluta, pois não há composição que possa ser dissimulada ou separada, e a presença do simples é a própria verdade.

h) Verdade, simplicidade (unidade) e presença constante. O simples (haploun) como o ente mais próprio e seu desvelamento como o modo mais elevado de ser-verdadeiro

9h. O ente simples (haploun), por sua própria natureza, é a forma mais elevada de ser, pois é pura presença constante, não admitindo composição, mudança ou ocultação. Sua verdade (desvelamento) é a mais elevada, pois é a pura presença de si mesmo, que não pode ser dissimulada ou corrompida. O desvelamento do simples é a própria presença em sua imediatez, e essa presença, por ser anterior a qualquer outra determinação, é o ser em seu sentido mais próprio, a condição de possibilidade de todo outro ente. Assim, a verdade (desvelamento) do simples é o ser mais próprio (kyriotaton on), o que confirma a tese de que o ser, em sua essência, é presença constante.

i) A questão do ser-verdadeiro do ente mais próprio como a questão mais alta e profunda da interpretação aristotélica do ser. O capítulo 10 como pedra angular do livro Θ e da Metafísica aristotélica como um todo

9i. O capítulo 10 do livro Θ, ao mostrar que o ser-verdadeiro do ente simples é o ente mais próprio (kyriotaton on), não é um apêndice, mas a conclusão necessária e o ponto culminante da investigação aristotélica sobre o ser. Ele explicita a conexão fundamental entre ser, verdade e presença, mostrando que a própria essência do ser é a presença constante, que se manifesta de modo mais pleno no simples, que é pura unidade e não admite ocultação. A filosofia, portanto, é a “ciência da verdade”, não no sentido de uma teoria do conhecimento, mas no sentido de uma investigação sobre o desvelamento do ente enquanto tal, ou seja, sobre o ser do ente como presença. Essa compreensão, no entanto, permaneceu, em grande medida, implícita e não desenvolvida em sua radicalidade, pois a filosofia antiga não perguntou pela fonte dessa compreensão do ser como presença, ou seja, pelo tempo.

10. A REALIDADE DO ESPÍRITO EM HEGEL COMO PRESENÇA ABSOLUTA

10. A compreensão do ser como presença constante não se limita à filosofia antiga, mas perdura e atinge seu ápice na metafísica de Hegel, para quem a verdadeira realidade (Wirklichkeit) é o espírito (Geist), cuja essência é a eternidade, definida como “presença absoluta”. O espírito, como puro autoconceito e mediação absoluta, é a forma mais plena de substancialidade, pois é o que permanece junto de si (bei-sich-selbst-sein) e, portanto, a mais alta e constante presença. Assim, a metafísica hegeliana, ao conceber a realidade como espírito, confirma e radicaliza a tese de que o ser, desde a Grécia até a modernidade, é compreendido como presença constante e duradoura, que atinge sua perfeição na absoluta presença do espírito a si mesmo.