1. A APARENTE CONTRADIÇÃO ENTRE A PERGUNTA SINGULAR PELA ESSÊNCIA DA LIBERDADE HUMANA E A TAREFA GERAL DE UMA INTRODUÇÃO À FILOSOFIA
1. O tema da introdução à filosofia é a essência da liberdade humana, restringindo-se o tratamento a uma propriedade do ente humano no conjunto dos entes. Tal enfoque parece contradizer a expectativa de que uma introdução ofereça uma orientação sobre o todo geral da filosofia, evitando perder-se em questões particulares. Aparentemente, pretende-se compreender o geral da filosofia partindo de uma questão especial, o que configura um empreendimento impossível, pois a intenção e o caminho se contrariam mutuamente.
-
A singularidade do tema e a generalidade de uma introdução à filosofia não se excluem mutuamente, pois o particular é sempre o particular de um geral que lhe é imanente, e o geral é sempre o geral do particular por ele determinado.
-
Do mesmo modo que nas ciências se inicia pelo particular e concreto para atingir o essencial e geral, o tratamento da questão especial da liberdade humana pode conduzir ao geral do conhecimento filosófico, constituindo o caminho científico e frutífero para uma introdução.
-
A suposição de que a filosofia é uma ciência e, portanto, vinculada aos princípios do procedimento científico, é, contudo, duvidosa, pois a filosofia não possui um domínio específico entre os entes, diferentemente das ciências que se determinam por domínios.
-
Se a limitação a um domínio pertence à essência da ciência, a filosofia não pode ser considerada uma ciência, o que coloca em questão se o procedimento científico é adequado para a filosofia e se a questão da liberdade é realmente uma questão especial.
-
A suposição de que a questão pela essência da liberdade humana é uma questão especial se revela questionável, pois a liberdade, como propriedade do ente humano, pode não se enquadrar no âmbito de uma questão particular, anulando a necessidade de partir de um problema especial para alcançar o geral.
2. A DESRESTRIÇÃO DA PERGUNTA PELA ESSÊNCIA DA LIBERDADE HUMANA EM DIREÇÃO AO TODO DO ENTE (MUNDO E DEUS) NA CONSIDERAÇÃO PROVISÓRIA DA LIBERDADE “NEGATIVA”. A PECULIARIDADE DO QUESTIONAR FILOSÓFICO EM CONTRASTE COM O QUESTIONAR CIENTÍFICO
2. A questão da liberdade, longe de ser uma questão especial, desde o início não se deixa enquadrar nos limites de uma questão particular, pois a determinação da liberdade como independência (liberdade negativa) implica necessariamente a referência àquilo de que se é independente: o mundo e Deus. Essa referência, contida no próprio conceito de liberdade, faz com que mundo e Deus, enquanto aquilo de que se é independente, pertençam essencialmente ao tema, conduzindo o questionar para a direção do todo do ente, não o restringindo, mas desrestriando-o.
-
A liberdade negativa é compreendida como independência da natureza e da história (mundo) e independência de Deus, de modo que o conceito pleno de liberdade negativa abrange a independência do homem em relação a mundo e Deus.
-
Pensar a liberdade negativa implica pensar a independência em relação a mundo e Deus, de modo que estes não são meramente acrescentados, mas co-pensados na essência da liberdade, constituindo o todo do ente.
-
A desrestrição operada pela questão da liberdade não conduz do particular ao seu geral, pois o homem não é um caso particular de mundo ou Deus, mas encontra-se em meio ao todo do ente, em relação com mundo e Deus.
-
A questão pela essência da liberdade humana revela-se, portanto, de tipo inteiramente diverso de qualquer questão científica, pois não pergunta nos limites de um domínio determinado, mas remete desde o início para o todo do ente, anunciando-se como questão especificamente filosófica.
-
Nenhuma ciência, por sua natureza, possui o alcance para abarcar o todo unitário que é visado na questão da liberdade, de modo que o ponto de partida dessa questão situa-se em um lugar que nenhuma ciência jamais pode ocupar.
3. INTERPRETAÇÃO APROFUNDADA DA LIBERDADE NEGATIVA COMO LIBERDADE DE… A PARTIR DA ESSÊNCIA DE SEU CARÁTER DE RELAÇÃO. O ENTE NO TODO NECESSARIAMENTE CO-TEMÁTICO NA PERGUNTA PELA LIBERDADE HUMANA
3. A consideração da liberdade negativa como independência de mundo e Deus, ainda que pensando o “de quê”, não o tornava temático, mas concentrava-se na independência como tal. No entanto, a independência é uma relação, um ser-independente-de de um ente em relação a outro, e para aclarar a essência de uma relação, seja ela negativa ou positiva, não basta considerar a relação em si, mas é necessário atentar para os membros da relação, pois a relação só se dá no e sobre o ente. Portanto, a consideração da essência da independência não pode prescindir da consideração daquilo de que se é independente, sendo antes exigida.
-
Independência é uma relação de ser-independente-de, sendo uma “relação negativa”, análoga à desigualdade, que exige a consideração dos membros relacionados para ser compreendida.
-
Para aclarar a essência da liberdade, não se busca constatar a independência fática entre este ou aquele homem e este ou aquele mundo ou Deus, mas compreender a essência da relação de independência do homem enquanto tal em relação a mundo e Deus enquanto tais.
-
A essência de uma relação, como a independência, requer, para sua elucidação, a pergunta pela essência dos membros da relação, no caso, a essência do homem, a essência do mundo e a essência de Deus, não sendo possível determinar a essência da relação sem a determinação daquilo que ela relaciona.
-
Apesar de a independência ser caracterizada por um “afastar-se de”, a consideração da essência dessa relação não pode se libertar da consideração daquilo de que se é independente, pois a relação enquanto tal já inclui a referência a mundo e Deus.
-
Consequentemente, a pergunta pela essência da liberdade humana tem como tema constante e necessário o todo do ente (mundo e Deus), não sendo, portanto, uma questão especial, pois já em seu conceito negativo ela implica e exige a co-tematização do todo.
4. A FILOSOFIA COMO REVELAÇÃO DO TODO ATRAVÉS DA PASSAGEM POR PROBLEMAS SINGULARES EFETIVAMENTE APREENDIDOS
4. A questão pela essência da liberdade humana, ao tomar o todo do ente como tema, mostra-se uma questão que interroga o todo, assim como, provavelmente, a questão pela essência da verdade. Isso implica que toda questão filosófica interroga o todo, autorizando uma introdução à filosofia orientada pela questão da liberdade, desde que se reconheça que essa perspectiva é particular, mas não insuficiente para revelar o todo da filosofia.
-
A introdução à filosofia pelo problema da liberdade mostrará o todo da filosofia em uma perspectiva específica, a da liberdade, e não, por exemplo, a da verdade, de modo que o todo se apresenta sob um determinado enfoque.
-
O verdadeiro todo da filosofia só seria apreendido se fosse possível tratar do conjunto possível de todas as questões e suas perspectivas, o que é inalcançável, mas não constitui um defeito a ser lamentado.
-
A força e a eficácia do filosofar residem, talvez, justamente em revelar o todo apenas na passagem por um problema singular efetivamente apreendido, e não na pretensão de abarcá-lo de uma só vez.
-
A suposta limitação da introdução pela via do problema da liberdade não é um defeito que demande desculpas pela finitude humana, pois a essência do filosofar não consiste em uma apreensão total e imediata, mas na abertura do todo através do aprofundamento em questões concretas.
-
A peculiaridade do questionar filosófico, que se distingue do questionar científico por sua desrestrição e sua referência ao todo, é confirmada pela impossibilidade de a filosofia ser uma ciência e pela necessidade de sua introdução se dar por problemas singulares, sem que isso a reduza a um domínio particular.