O conhecimento finito define-se negativamente como uma intuição não criadora, na medida em que depende da existência prévia do intuído e não produz seu objeto, mas o recebe passivamente.
A essência da intuição finita consiste na receptividade, o que implica afecção: o objeto deve afetar o espírito para que haja intuição.
A intuição como tal não é receptiva; apenas a finita o é. Seu caráter finito reside no fato de necessitar ser afetada pelo ente.
A sensibilidade manifesta-se como o modo ontológico dessa receptividade, não como mera faculdade empírica, mas como estrutura fundamental da finitude do conhecer.
Os sentidos funcionam como instrumentos da afecção, permitindo que o ente, já existente, se anuncie e se dê à intuição.
A sensibilidade não se define pelos órgãos corporais, mas pela própria finitude do ser humano, que precisa receber aquilo que já é ente.
A partir dessa compreensão, Kant estabelece um conceito ontológico de sensibilidade não sensualista, abrindo a possibilidade de uma sensibilidade não empírica.
O conhecimento, em sua essência, é intuição, ou seja, um representar no qual o ente se mostra diretamente.
A intuição finita, contudo, necessita do pensamento para determinar o intuído e torná-lo inteligível.
A determinação conceitual permite que o intuído se torne comunicável e comum a todos os seres finitos.
A representação que determina o intuído orienta-se para o geral, para aquilo que “vale para muitos”.
Esse representar geral, denominado conceito, é uma “representação de uma representação”, uma forma de mediação que torna o ente compreensível.
O juízo constitui o conhecimento mediato de um objeto, isto é, a representação de uma representação.
O juízo é uma síntese na qual várias representações se unificam sob a unidade da consciência.
Na união entre pensar e intuir realiza-se uma síntese veritativa, que torna patente o ente como objeto.
No juízo distinguem-se dois modos de síntese: a predicativa, que une os conceitos, e a apofântica, que liga sujeito e predicado.
A síntese veritativa reúne ambas em uma unidade estrutural que constitui a essência do conhecimento finito.
Dizer que o conhecimento é “síntese” sem distinguir esses modos equivale a formular uma tese vazia.
O entendimento, sendo a faculdade de julgar, também é finito.
Sua finitude consiste em seu caráter discursivo: não pode conhecer diretamente, mas apenas por mediações conceituais.
O entendimento não cria o ente, mas produz a forma do conceito que permite organizar e comunicar o intuído.
Essa produção formal não é criação, mas um modo de pôr, uma espontaneidade limitada que faz parte da estrutura do conhecer.
Por essa via, o entendimento colabora em tornar disponível o conteúdo do objeto, sem gerar seu ser.
A finitude do conhecimento determina seu âmbito: só pode conhecer aquilo que se mostra, o fenômeno.
O fenômeno não é mera aparência, mas o próprio ente enquanto aparece ao conhecimento finito.
O conhecimento infinito, ao contrário, é uma intuição criadora que produz o ente no mesmo ato de conhecê-lo.
Somente para o conhecimento finito existem “objetos”; o conhecimento absoluto não tem objetos, mas criação.
O fenômeno, em sentido amplo, designa o ente enquanto se torna patente ao conhecimento finito; em sentido estrito, o conteúdo da intuição empírica.
A coisa em si não é um ente diferente do fenômeno, mas o mesmo ente considerado segundo sua relação com o conhecimento infinito.
A diferença entre fenômeno e coisa em si não é objetiva, mas subjetiva, determinada pelo modo de relação do conhecer.
O “além do fenômeno” não designa um objeto oculto, mas a impossibilidade essencial do conhecimento finito de acessar o ente como criação.
No fenômeno puro, o termo “puro” nega a possibilidade de uma intuição infinita, e não a realidade do ente.
O conhecimento humano alcança apenas os fenômenos, porque seu modo de intuição é receptivo e não criador.
A expressão “fora de nós” possui um duplo sentido.
Enquanto coisa em si, o ente está fora de nós porque não participamos da intuição infinita que lhe corresponde.
Enquanto fenômeno, o ente está fora de nós porque, sem ser idêntico a nós, nos é dado na experiência e é acessível à nossa intuição.
Em ambos os casos, o mesmo ente se mostra sob diferentes relações com o conhecimento finito ou infinito.
A diferença entre conhecimento finito e infinito determina a própria possibilidade da metafísica.
A finitude humana indica a dimensão dentro da qual a metafísica pode fundar-se.
Compreender a finitude do conhecimento é condição prévia para esclarecer os conceitos de fenômeno e coisa em si.
Kant não postula duas ordens de objetos, mas dois modos de relação do conhecimento com o ente.
A fundamentação da ontologia exige o retorno à estrutura da finitude do conhecer, onde se origina o próprio horizonte do ser.