-
A pobreza, compreendida como privação, parece inicialmente fazer da tese “o animal é pobre de mundo” a afirmação de que o animal não possui mundo, aproximando-o da pedra e opondo-o ao ser humano como formador de mundo (
weltbildend).
-
A identidade aparente entre a pedra sem mundo e o animal pobre de mundo desfaz-se quando se distingue a impossibilidade absoluta de acesso própria da pedra da acessibilidade limitada e privável própria do animal.
-
A privação pressupõe uma relação possível com aquilo de que se está privado; por isso, somente um ente que já possua alguma forma de acesso pode experimentar a pobreza como privação.
-
A ausência de mundo da pedra não constitui uma pobreza mais extrema, pois a pedra não pode ser privada de mundo justamente porque seu modo de ser exclui originariamente qualquer acesso aos entes enquanto entes.
-
O mundo recebe provisoriamente a determinação de conjunto dos entes acessíveis e correntes, com os quais alguma forma de lida é possível ou necessária segundo o modo de ser daquele que se relaciona com eles.
-
A pressão exercida pela pedra sobre o solo não constitui propriamente um tocar, porque a terra não lhe é acessível como apoio, como aquilo que a sustenta nem, menos ainda, enquanto terra.
-
O contato entre pedra e solo distingue-se tanto do repousar do lagarto sobre a pedra aquecida quanto do toque humano pelo qual uma mão repousa sobre a cabeça de outra pessoa.
-
A pedra pode encontrar-se num caminho, permanecer num campo depois de lançada ou repousar no fundo de um buraco cheio de água, mas aquilo em meio ao qual está simplesmente dada não lhe é acessível enquanto tal.
-
A ausência de mundo significa, portanto, a ausência de acesso ao ente enquanto ente pertencente ao próprio modo de ser da pedra.
-
A inacessibilidade da pedra não deve ser avaliada como deficiência, pois é justamente ela que possibilita seu modo específico de ser e a integração da natureza física material na ordem de suas leis.
-
O lagarto não está simplesmente dado ao lado da pedra, pois procura a pedra aquecida, costuma retornar a ela e mantém uma ligação própria com a rocha, o solo, o sol e o calor.
-
A diferença entre o animal e a coisa material permanece reconhecível sem que se projetem psicologicamente sobre o animal sentimentos e experiências humanas.
-
A rocha não se encontra aberta ao lagarto enquanto rocha mineralogicamente determinável, assim como o sol não lhe é acessível enquanto sol passível de investigação astrofísica.
-
O ente com o qual o animal se relaciona é-lhe dado de algum modo, mas permanece inacessível enquanto ente, de maneira que a “rocha” do lagarto não pode ser identificada sem reservas com a rocha compreendida pelo ser humano.
-
A vergôntea percorrida pelo escaravelho não lhe aparece enquanto vergôntea nem como parte de um futuro feixe de feno, mas integra seu caminho e sua ligação vital com a alimentação.
-
O animal mantém relações determinadas com alimento, presas, inimigos e parceiros sexuais, cujo caráter fundamental exige cautela metodológica e não pode ser apreendido mediante categorias tomadas do comportamento humano.
-
A vida animal realiza-se continuamente em um meio próprio — água, ar ou ambos — que permanece habitualmente imperceptível, embora a passagem para um meio estranho provoque imediatamente movimentos de esquiva e retorno.
-
O acesso animal não se dirige a quaisquer coisas nem se estende por limites indefinidos, mas permanece circunscrito ao círculo de relações próprio de cada forma de vida.
-
A atribuição de um mundo ambiente (
Umwelt) ao animal significa que alguma coisa lhe é acessível e que ele se movimenta dentro de um círculo vital delimitado, no qual permanece encerrado durante toda a vida como num tubo incapaz de ampliar-se ou estreitar-se.
-
A determinação provisória do mundo como acessibilidade do ente cria uma dificuldade para a tese da pobreza de mundo, porque o acesso animal parece conceder-lhe justamente aquilo cuja privação deveria caracterizá-lo.
-
A diferença quantitativa ou a maior estreiteza do acesso animal ainda não basta para fundamentar a pobreza de mundo, pois um acesso limitado continua sendo acesso e parece implicar alguma posse de mundo.
-
A tese da pobreza de mundo permanece, por isso, provisoriamente problemática: a privação não pode ser atribuída pura e simplesmente ao animal enquanto não for esclarecido como seu acesso aos entes difere essencialmente da abertura do ente enquanto ente.