-
A caracterização ontológica fundamental do animal como pobre de mundo (
weltarm) em face do homem como configurador de mundo (
weltbildend) exige a desconstrução crítica de qualquer hierarquia axiológica ou escala quantitativa de perfeição[cite: 1], explicitando que a pobreza (
Armut) constitui originariamente uma privação (
Entbehren) do ente que pertence ao horizonte da existência e não um mero déficit empírico de objetos acessíveis.
-
A confrontação da tese da pobreza de mundo do animal com as pesquisas da biologia contemporânea, mormente as investigações de Jakob von Uexküll acerca do meio ambiente circundante (
Umwelt), demonstra que a proposição filosófica não contraria a investigação científica positiva, mas a compele a uma meditação de base ontológica sobre o vivente, ainda que o foco central não recaia sobre uma metafísica temática da vida vegetal e animal.
-
A relação entre a segunda e a terceira tese aparenta, à primeira vista, uma distinção imediata entre a escassez e a abundância, em que a pobreza seria o menos diante do mais relativo ao âmbito de entes acessíveis, tratáveis e com os quais o ente vivente pode entrar em relação em sua lida cotidiana[cite: 1].
-
O domínio circundante de animais específicos, a exemplo da abelha, do sapo ou do tentilhão, exibe uma restrição estrita não apenas em extensão territorial e material, mas sobretudo na modalidade de penetração nas coisas acessíveis, visto que a abelha trabalhadora conhece a flor, seu perfume e sua cor, porém não apreende os estames enquanto estames, não acessa as raízes nem a determinação numérica dos órgãos vegetais.
-
O mundo humano revela-se inversamente como riqueza inesgotável, ampliado de modo constante não somente pela mera adição quantitativa de novos entes, mas pela capacidade contínua de penetração mais profunda naquilo a que o Dasein se relaciona, o que legitima formalmente a designação do homem como ente configurador de mundo (weltbildend).
-
O desdobramento inicial dessa antítese induz ao equívoco ordinário de conceber o mundo (
Welt) como simples somatório empírico dos entes disponíveis e a pobreza de mundo como degrau inferior de perfeição em uma escala de graus axiológicos, conferindo uma clareza suspeita e autoevidente a conceitos que apenas disfarçariam fatos triviais mediante termos técnicos como mundo (Welt) e meio circundante (Umwelt).
-
A suposição de uma gradação de perfeição na acessibilidade ao ente desmorona empiricamente ao se confrontar capacidades orgânicas específicas, tais como a acuidade visual do olho do falcão ou a potência olfativa do cão frente às faculdades humanas, além do fato de que a corrupção e a queda moral só são ontologicamente possíveis ao homem, jamais ao animal.
-
A hierarquização revela-se igualmente ilegítima no interior do próprio reino animal, sendo errôneo considerar protozoários como amebas e infusórios seres menos perfeitos do que elefantes ou símios, posto que cada animal e espécie atinge plenitude própria e acabada dentro de sua conformação essencial determinada.
-
A determinação rigorosa de pobreza (Armut) afasta a redução ao quantum e ao ter menos quantitativo, delimitando a essência do empobrecimento como privação (Entbehren), isto é, a falta, o não comparecimento ou a carência daquilo que de direito poderia e deveria estar presente no horizonte originário do ente.
-
O conceito de pobreza desdobra-se entre uma acepção desgastada, que indica insuficiência e escassez material factual (como no leito de um rio pobre de águas), e a acepção existencial originária de ânimo empobrecido (armmütig), na qual a privação se transmuta em postura ontológica de transparência e liberdade interior para o Dasein.
-
A pobreza de mundo (Weltarmut) do animal não pode ser esclarecida mediante meras distinções linguísticas, requerendo a interrogação direta sobre a animalidade da besta e confirmando em definitivo que o fenômeno do mundo (Welt) não equivale à soma, totalidade quantitativa ou grau de acessibilidade dos entes existentes.