Primeira Parte: O Despertar de uma Disposição Fundamental do Nosso Filosofar
Primeiro Capítulo: A Tarefa do Despertar de uma Disposição Fundamental e a Indicação de uma Disposição Fundamental Oculta do Nosso Ser-aí Atual
16. Preparação para a compreensão do sentido do despertar de uma disposição fundamental
a) Despertar: não um constatar de algo dado, mas um fazer despertar o que dorme
A tarefa fundamental agora consiste no despertar (Weckung) de uma disposição fundamental (Grundstimmung) do nosso filosofar. Não se trata do despertar de uma disposição qualquer, mas daquela que deve sustentar o nosso filosofar. A palavra “despertar” indica que a disposição não precisa ser criada ou inventada, mas sim trazida à vigília a partir de um estado de sono. A mera constatação (Feststellung) de uma disposição, como se fosse um fato dado, é um empreendimento duvidoso, pois a disposição não é algo que se possa verificar objetivamente como uma propriedade. A disposição não pode ser forçada artificialmente; ela já deve estar aí, ainda que adormecida. Além disso, a pergunta direta sobre a disposição em uma suposta pesquisa não teria sucesso, pois o inquirido talvez não seja capaz de dar informações sobre algo que, por sua própria natureza, escapa à observação e à objetivação. O despertar, portanto, não é um procedimento de constatação, mas um fazer despertar (Wachwerdenlassen) daquilo que dorme.
b) O ser-aí e o não-ser-aí da disposição não são apreensíveis pela distinção entre ter-consciência e inconsciência
O despertar de uma disposição indica que ela, de algum modo, já está aí, mas também que não está. A disposição dorme, está presente e ausente ao mesmo tempo. Essa peculiaridade, que poderia parecer uma contradição lógica, leva a questão para além da distinção tradicional entre consciente e inconsciente. O despertar não pode significar simplesmente tornar consciente algo que era inconsciente, pois a tentativa de tornar a disposição consciente geralmente a destrói, enfraquece ou altera. Além disso, o sono não é meramente ausência de consciência, como se vê no sonho, e o estar desperto não se identifica com a consciência. A distinção entre consciente e inconsciente é inadequada para compreender o fenômeno da disposição. O que está em jogo é o próprio ser do homem, que não pode ser compreendido a partir do modelo de um ser vivo que possui uma consciência ou um inconsciente.
c) O ser-aí e o não-ser-aí da disposição com base no ser do homem como ser-aí (Dasein) e estar-ausente (Wegsein)
O “não-ser-aí” da disposição não é uma falta de consciência, mas um modo de ser do homem que se manifesta como estar-ausente (Wegsein) ou estar “fora de si”. Esse estar-ausente pode ocorrer em plena vigília, em uma conversa na qual se está “ausente”. Ele não é o oposto do ser-aí, mas uma maneira do ser-aí. Para poder estar ausente, o homem precisa, antes, ser-aí (da-sein). O estar-ausente e o ser-aí são modos de ser que pertencem à estrutura fundamental do homem, que não pode ser compreendida como mera presença. A disposição, enquanto algo que está aí e não está, pertence a essa estrutura do ser do homem. A visão vulgar da psicologia, que trata as disposições como sentimentos ou estados de espírito (uma terceira classe de vivências, ao lado do pensar e do querer), é correta apenas em certos limites, mas não é uma caracterização essencial. As disposições não são entes que ocorrem na alma, nem são o mais inconstante e fugaz. A tarefa é mostrar positivamente o que elas são, superando a concepção psicológica e tradicional.
17. Caracterização preliminar do fenômeno da disposição: disposição como modo fundamental do ser-aí, como aquilo que dá ao ser-aí consistência e possibilidade. Despertar da disposição como apreensão do ser-aí como ser-aí
A disposição não é uma vivência interna que ocorre na alma de um sujeito. Quando alguém está triste, a tristeza não é apenas um estado subjetivo, mas modifica o próprio modo do ser-com (Miteinandersein) entre as pessoas. A pessoa se torna inacessível, e o “como” do convívio se altera, sem que as ações ou os objetos mudem. A tristeza não é uma consequência, mas algo que constitui o próprio modo de ser. A disposição é como uma atmosfera na qual se está, um clima que não está dentro nem fora, mas que determina a relação com os outros e com o mundo. As disposições não são fenômenos secundários ou acompanhamentos; elas são o que, de antemão, determina o ser-com e o ser-aí. Elas são a melodia fundamental que dá o tom para o ser.
18. A certificação de nossa situação atual e da disposição fundamental que a atravessa como pressuposição para o despertar dessa disposição
Para despertar uma disposição fundamental em nós, é preciso primeiramente nos certificarmos (versichern) de nossa situação (Lage) atual. A pergunta é: qual disposição deve ser despertada? A resposta exige que se compreenda a situação em sua maior amplitude, pois se trata de algo essencial e último. A tarefa de caracterizar nossa situação não é nova; existem várias interpretações notáveis. A escolha de algumas delas é, em certa medida, arbitrária, mas pode ser útil para revelar o traço fundamental comum.
a) Quatro interpretações de nossa situação atual: o contraste entre vida (alma) e espírito em Oswald Spengler, Ludwig Klages, Max Scheler, Leopold Ziegler
Quatro interpretações influentes da situação atual se destacam, todas centradas na oposição entre “vida” (alma) e “espírito”:
O traço fundamental comum a todas essas interpretações é a oposição entre vida (alma) e espírito. Todas remontam, em última instância, a Nietzsche e seu antagonismo fundamental entre o Dionisíaco e o Apolíneo, que é a fonte e o campo de batalha propriamente dito.
b) O antagonismo fundamental de Nietzsche entre o Dionisíaco e o Apolíneo como fonte das quatro interpretações de nossa situação atual
O antagonismo entre Dioniso e Apolo é o fio condutor e o núcleo do filosofar de Nietzsche. Esse antagonismo, que ele tomou da Antiguidade, transformou-se ao longo de seu pensamento.
c) O profundo tédio como a disposição fundamental oculta das interpretações da filosofia da cultura de nossa situação
As interpretações da filosofia da cultura (diagnósticos e prognósticos), que se baseiam na oposição vida-espírito, não nos atingem nem nos comovem de fato. Ao contrário, atribuem-nos um papel na história mundial, nos isentam (entbinden) de nós mesmos e nos distraem. Elas são uma forma de sensação, uma pseudo-tranquilização e uma fuga da própria situação. O filósofo da cultura não chega a nos tocar, mas nos representa de fora, como objetos de um diagnóstico. Essa atitude é típica da filosofia da cultura, que permanece na superfície da representação e não alcança o ser-aí (Dasein).