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A concepção vulgar entende a filosofia como algo que trata de questões gerais, acessíveis a qualquer um, dispensando método especializado e sendo compreensível pelo simples bom senso.
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Essa visão leva à expectativa de que qualquer estudante, independentemente de sua área, possa seguir uma preleção filosófica sem dificuldade, ao contrário do que ocorre com matemática ou filologia, em que a incompreensão é aceita naturalmente.
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Tal concepção difundida é alarmante, pois rebaixa a ciência mais radical e difícil à condição de entretenimento espiritual e complemento de formação geral ajustado às necessidades dos estudantes.
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A reação contrária, que trata a filosofia como ciência especializada reservada a poucos, comete o mesmo equívoco de base, pois ambas as posições compartilham a obscuridade fundamental sobre a essência e a tarefa da filosofia.
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A filosofia trata do universal, mas não é por isso imediatamente acessível a todos; é ciência de um domínio próprio e, ao mesmo tempo, não é uma disciplina entre outras, pois investiga aquilo que torna possível a divisão em disciplinas.
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A filosofia é uma investigação que fundamenta todas as ciências e está viva em todas elas, o que significa que, longe de ser menos científica, ela precisa satisfazer a ideia de ciência em sentido mais alto e radical.
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Escolher o estudo da filosofia significa decidir pela transparência do próprio fazer científico, em oposição à preparação cega para exames; a liberdade acadêmica não é indiferença arbitrária, mas o deixar-se conduzir pelas possibilidades genuínas do existir humano.
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A alegação de que a filosofia é difícil demais revela não modéstia, mas fuga ante os esforços de um estudo científico autêntico, pois nenhuma ciência movida por questões reais é fácil.
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A filosofia se determina pela contraposição às ciências não filosóficas: enquanto matemática, física, história e filologia partem diretamente de seus objetos sem perguntar o que são, a filosofia não pode fazer o mesmo.
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Nenhuma ciência positiva pode definir a si mesma com seus próprios métodos, pois não há conceito matemático da matemática nem conceito filológico da filologia; ao tentarem responder a essa pergunta, elas já começam a filosofar.
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As ciências positivas são assim chamadas porque seu objeto já está dado de antemão como ente: os números existem, a natureza está presente, a linguagem é um dado; o positum é o que já se encontra disponível.
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A filosofia, chamada ciência crítica, não tem seu objeto pré-dado da mesma forma; o que ela tematiza não é o ente, mas algo que, embora sempre já compreendido, permanece oculto e inacessível à experiência natural.
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Crítico deriva do grego krinein, separar, distinguir; toda ciência distingue constantemente entre entes, mas a filosofia realiza uma distinção eminente: a distinção entre o ente e o ser.
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O ser não é mais um ente entre outros; o entendimento comum e a experiência cotidiana visam apenas entes, ao passo que ver e apreender o ser no ente e distingui-lo do ente é a tarefa própria da filosofia.
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As ciências positivas fazem exclusivamente afirmações sobre o ente e nunca sobre o ser; por isso a matemática não pode ser definida matematicamente nem a filologia filologicamente.
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O ser não é dado na experiência, mas é sempre já compreendido: entende-se o que significa “o tempo está nublado” ou “as árvores estão em flor”, mas não se sabe responder o que significa “é” e “estar”.
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O ser transcende todo ente singular, e esse transcender, o transcendere, é a transcendência no sentido ontológico, não o sobrenatural ou o metafísico entendido como um ente superior.
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A verdade filosófica é veritas transcendentalis, verdade sobre o ser que transcende, e não verdade sobre o ente; a filosofia é ciência crítica nesse sentido preciso, não teoria do conhecimento ou crítica dos limites da razão.
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A sofia, o desvelamento do ser do ente, é filosofia enquanto busca incessante daquilo que o entendimento comum não alcança, submetendo-se à crítica mais radical.
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O objetivo é fazer ver a distinção entre ser e ente como início da filosofia científica, não pela acumulação extensiva de conteúdo, mas pela intensidade conceitual e segurança da distinção.
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O caminho escolhido é reviver e repetir o primeiro começo decisivo da filosofia científica tal como ocorreu entre os gregos, pois desde então houve apenas uma corrida atrás que encobriu e desfigurou as intenções originárias.
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A modernidade tornou-se incapaz de distinguir radicalmente o que se compreende e o que não se compreende no questionamento científico genuíno, perdendo a força viva presente nas descobertas de
Platão e
Aristóteles.
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O método da introdução privilegia a compreensão do conteúdo em si, dispensando anedotas sobre a vida dos pensadores, listas de títulos ou descrições do contexto cultural grego, que nada acrescentam à compreensão do problema.
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A preleção orienta-se por quatro focos: iluminar o conjunto da problemática da filosofia antiga com seus problemas centrais ainda não resolvidos; traçar as linhas principais do desenvolvimento a partir do qual os problemas emergem uns dos outros; aprofundar a compreensão por meio de conceitos fundamentais concretos como ser, verdade, princípio, causa, possibilidade e necessidade; e lançar perspectivas sobre a problemática atual e a influência sobre a Idade Média e a Modernidade.
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A intenção geral é dupla: compreensão do conteúdo em si, sem anedotas, e contato direto com as próprias fontes, não com a literatura secundária e as opiniões sobre elas.