Vamos tentar mostrar que a intencionalidade é uma estrutura das vivências em si mesmas e não algo que se acrescenta às vivências — ou estados psíquicos — para relacioná-las com outras realidades. É preciso ressaltar, antes de tudo, que ao tentarmos esclarecer, ou seja, tornar visível e — ao ver — compreender o que é a intencionalidade, não se pode esperar que isso aconteça de uma só vez. Precisamos nos livrar do preconceito de que, como a fenomenologia exige que se captem as coisas em si, elas deveriam poder ser apreendidas de uma só vez, sem que seja necessário fazer nada. Pelo contrário, o caminho que penetra nas coisas em si é longo e difícil e, acima de tudo, pressupõe desmontar os preconceitos que impedem o acesso a elas.
“Intentio” significa literalmente “dirigir-se a”. Toda vivência, toda ação psíquica se refere a algo. Representar é representar algo, lembrar é lembrar algo, julgar é julgar algo, supor, esperar, confiar, amar, odiar — algo. Dir-se-á que isso é uma trivialidade e que ressaltá-lo expressamente não é nenhuma conquista especial que mereça ser qualificada como descoberta. Vamos, no entanto, aprofundar um pouco mais essa trivialidade e tentar descobrir o que ela significa para a fenomenologia.
As considerações a seguir não exigem especial perspicácia; basta deixar de lado certos preconceitos, aprender a ver de forma direta e simples e a lembrar o que foi visto, sem se entregar à curiosidade de se perguntar a que tudo isso se deve. Diante do que mais se dá como certo, o que pode nos parecer mais difícil de alcançar é prestar atenção às coisas, uma vez que o elemento da existência (Existenz) do homem é constituído pelo artificial, pelo falso, pelo que os outros sempre nos levaram a acreditar. É um erro pensar que os fenomenólogos seriam crianças exemplares cuja única característica seria a determinação de lutar contra isso e a vontade efetiva de investigar, e nada mais.
Imaginemos uma “ação psíquica”, um caso exemplar e fácil de acompanhar: uma percepção natural concreta — a percepção de uma cadeira que encontramos ao entrar em um cômodo e que, como nos incomoda, retiramos do caminho. Insisto neste último ponto para deixar claro que se trata de uma percepção das mais cotidianas, e não de percepção no sentido enfático de ficarmos olhando para algo contemplativamente. A percepção natural, tal como a vivo enquanto me movo em meu mundo, na maioria das vezes não consiste em ficar contemplando e estudando as coisas, mas se dilui no trato prático e concreto com elas. Não é algo autônomo; não percebo pelo simples fato de perceber, mas para me orientar, para abrir caminho, para fazer algo. Trata-se de uma contemplação totalmente natural na qual vivo continuamente. Uma interpretação um tanto simplista descreveria a percepção da cadeira da seguinte maneira: em meu interior ocorre um determinado acontecimento psíquico; esse acontecimento psíquico “interior”, “na consciência”, corresponde “lá fora” a uma coisa física real. Surge, portanto, uma correspondência entre a realidade da consciência (o sujeito) e certa realidade fora da consciência (o objeto). O acontecimento psíquico entra em relação com outra coisa que está fora dele. Em si, não é necessário que tal relação seja efetivamente estabelecida, uma vez que a percepção pode ser enganosa ou ser uma alucinação. É um fato psicológico comprovado que, às vezes, ocorrem processos psíquicos nos quais se percebe — supostamente — algo que nem mesmo existe. Pode acontecer que meu processo psíquico seja afetado por uma alucinação, de tal forma que eu perceba, por exemplo, como um carro passa agora por cima de suas cabeças, atravessando a sala de aula. Nesse caso, o processo psíquico do sujeito não corresponde a nenhum objeto real. Temos aí uma percepção na qual não se estabelece qualquer relação com nada que esteja fora dela. É o caso também das percepções enganosas: estou caminhando pela floresta no escuro e vejo um homem se aproximando de mim; olhando mais de perto, é uma árvore. Também aqui, nessa percepção enganosa, falta o objeto que supostamente havia sido percebido. Se levarmos em conta esse fato indiscutível de que o objeto real pode, de fato, estar ausente nas percepções, não poderemos continuar afirmando que a percepção é sempre a percepção de algo; ou seja, a intencionalidade, o dirigir-se a algo, não é uma característica necessária de toda percepção. E mesmo que todo acontecimento psíquico que eu chamasse de percepção correspondesse a um objeto físico, isso não deixaria de ser uma afirmação dogmática, uma vez que não está de forma alguma estabelecido que eu alcance uma realidade que esteja além da minha consciência.
Sabe-se desde Descartes — e toda filosofia crítica se apega a isso — que o que eu verdadeiramente aprecio são sempre apenas “conteúdos da consciência”. No uso do conceito de intencionalidade subjaz, portanto — no caso, por exemplo, da percepção —, um duplo pressuposto: por um lado, o pressuposto metafísico de que o psíquico sai de si mesmo para alcançar o físico, o que, desde Descartes, sabe-se ser impossível. Em segundo lugar, subjaz à intencionalidade a premissa de que a todo processo psíquico corresponde sempre um objeto real; os fatos comprovados da percepção enganosa e da alucinação falam contra isso. É isso que pensam Rickert e muitos outros quando afirmam que no conceito de intencionalidade se escondem dogmas metafísicos subjacentes. Mas, com essa interpretação da percepção como alucinação ou percepção enganosa, será que realmente colocamos a intencionalidade à luz? Será que falamos do que a fenomenologia quer dizer com esse rótulo? De forma alguma! E a tal ponto que, se tomássemos a interpretação recém-citada como ponto de partida para elucidar o que é a intencionalidade, nos seria impossível chegar a compreender o que ela significa fenomenologicamente. Para esclarecer como isso pode ser, vamos repetir a interpretação, observando-a com maior atenção. Pois essa suposta trivialidade não é, de forma alguma, algo que se compreenda sem mais; antes, é preciso deixar de lado a trivialidade perversa das questões ilegítimas, embora habituais, da teoria do conhecimento.
Imaginemos a alucinação: diríamos que o carro, na realidade, não existe de forma alguma, que não há, portanto, qualquer correspondência entre o físico e o psíquico, mas apenas algo psíquico. E, no entanto, a alucinação, em seu sentido, não é uma alucinação, ou seja, uma suposta percepção de um carro? Além disso, essa suposta percepção, que ocorre sem qualquer relação real com algum objeto real, não é, justamente por si só, um dirigir-se a um suposto objeto de percepção? O engano, a ilusão em si, não é um dirigir-se a, mesmo que o objeto real não esteja de fato ali?
Não se trata de que a percepção só se torne intencional quando algo físico entra em relação com algo psíquico, e que deixaria de ser intencional se esse real não existisse, mas sim de que a percepção é, em si mesma, intencional, seja ela autêntica ou enganosa. A intencionalidade não é uma propriedade atribuída à percepção e que, em alguns casos, lhe cabe por acaso, mas sim que a percepção é, por si só, intencional, com absoluta independência de o percebido existir ou não de fato. Precisamente por isso, apenas por isso — porque a percepção, enquanto tal, é um dirigir-se a algo, porque a intencionalidade constitui a estrutura da própria ação —, é que podem ocorrer fenômenos como a percepção enganosa ou a alucinação.
Assim, quando se deixam de lado todos os preconceitos da teoria do conhecimento, fica claro que a própria ação — deixando de lado a questão de sua validade ou não validade —, no que diz respeito à sua estrutura, é um “dirigir-se a”. Não se trata de que primeiro ocorra um processo meramente psíquico, ou seja, um estado não intencional (um complexo de sensações, relações da memória, uma imagem representativa e processos de pensamento por meio dos quais se formaria uma imagem, sobre a qual depois se questiona se ela corresponde a algo ou não), que posteriormente, em alguns casos, venha a ser intencional, mas sim de que a essência da própria ação é um dirigir-se-a. A intencionalidade não é uma relação com o não-experiencial que se atribui às experiências, uma relação que, por vezes, as afeta, mas sim que as próprias experiências, enquanto tais, são intencionais. Essa é a primeira característica, talvez ainda um pouco vaga, mas suficientemente importante para servir de base na hora de evitar preconceitos metafísicos.