Em-si

DE BRASI, Diego; FUCHS, Marko J. (ORGS.). Sophistes: Plato’s dialogue and Heidegger’s lectures in Marburg (1924-25). Newcastle upon Tyne, UK: Cambridge Scholars Publishing, 2016.

** O “em-si” é relacional? Heidegger e a pesquisa contemporânea sobre Sofista 255c–e, de Platão **

** I. Introdução **

1. A demonstração apresentada pelo Estrangeiro de Eleia em Sofista 255c9–e2, destinada a provar que alteridade e ser não são dois nomes de um único gênero, ocupa posição decisiva no diálogo por conter uma formulação diretamente relacionada à maneira pela qual o próprio ser e a Forma do ser são ditos, embora permaneça profundamente controvertido o sentido exato dessa passagem e os critérios pelos quais as interpretações concorrentes poderiam ser comparadas e avaliadas.

2. O percurso interpretativo parte da apresentação da passagem problemática e de observações preliminares acerca da proximidade e da distância entre Heidegger e a pesquisa contemporânea, examina duas versões da interpretação tradicional, esclarece a afirmação heideggeriana de que o “em-si” possui estrutura relacional a partir da compreensão (Verstehen) e da temporalidade de Ser e tempo (Sein und Zeit), relaciona essa tese à objeção de Michael Frede e finalmente contrapõe duas respostas contemporâneas, uma defensora da leitura tradicional e outra que admite um “em-si” relacional.

** II. A demonstração **

3. Em Sofista 255c9–e2, a distinção entre ser e alteridade é estabelecida mediante a afirmação de que alguns entes são ditos em si mesmos, autá kath’hautá, enquanto outros são sempre ditos relativamente a outros, prós álla, ao passo que a alteridade somente pode ser dita em relação a algo diferente.

** III. Dificuldades preliminares **

4. A distinção entre alteridade e ser não pode ser demonstrada simplesmente por sua extensão, porque ambos se aplicam exatamente aos mesmos entes — a tudo aquilo que é — e permanecem extensionalmente equivalentes inclusive sob uma perspectiva modal, razão pela qual Heidegger procura diferenciá-los por seu conteúdo categorial e não pelo domínio dos objetos aos quais se aplicam.

5. Uma segunda dificuldade reside na possível circularidade da demonstração, porque provar que a alteridade é diferente do ser já parece pressupor um significado operante da própria alteridade cuja autonomia se pretende demonstrar.

** IV. Interpretações tradicionais **

6. A interpretação categorial inaugurada por Francis Macdonald Cornford compreende autá kath’hautá e prós álla como designações, respectivamente, de predicados ou propriedades não relacionais e relacionais, distinguindo aquilo que possui significado completo por si mesmo, como “homem”, daquilo que exige um complemento relacional, como “maior que”.

7. Uma segunda interpretação tradicional mantém a oposição entre o não relacional e o relacional, mas transfere a distinção do domínio dos predicados para dois usos do verbo “ser”, um completo e outro incompleto.

** V. A crítica heideggeriana à concepção platônica do kath’hautó **

8. Heidegger parece compartilhar com as interpretações tradicionais a pressuposição inicial de que aquilo que é dito autó kath’hautó não é relacional, enquanto aquilo que é dito prós állo o é, traduzindo essa oposição fenomenologicamente como duas direções nas quais o lógos pode desvelar os entes: na presença simples em que são aquilo que são e na modalidade do ser-em-relação-a.

9. A contribuição mais radical de Heidegger consiste, porém, em recusar que o kath’hautó possa ser genuinamente independente do prós ti, pois a relação constitui também um momento estrutural a priori do “em-si” e, neste caso, o relacionar-se volta-se reflexivamente para a própria coisa.

10. O paradoxo diminui quando se enfatiza o légesthai de 255c14, pois o Estrangeiro não afirma simplesmente que algumas coisas são em si mesmas, mas que algumas coisas são ditas em si mesmas, permanecendo assim no horizonte linguístico do légein que Heidegger considera incapaz de alcançar puramente as coisas enquanto tais.

11. A afirmação de que o prós ti constitui um momento estrutural a priori do kath’hautó torna-se inteligível à luz da análise de Ser e tempo (Sein und Zeit), na qual o ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) cotidiano não encontra inicialmente objetos isolados dotados de pura presença, mas utensílios inseridos em redes de remissão e definidos por sua serventia.

12. A dificuldade reaparece porque o próprio Heidegger reconhece que Platão apreendeu a estrutura relacional do lógos ao analisar como o discurso destaca algo dentro de um ente previamente dado e o toma sempre como alguma coisa.

13. A limitação platônica residiria em compreender a estrutura do “como” predominantemente no plano lógico e apofântico, sem alcançar seu fundamento existencial mais originário no modo de ser do ser-aí (Dasein).

14. A relacionalidade existencial do “como” encontra fundamento ainda mais profundo na temporalidade (Zeitlichkeit) da compreensão, especialmente em sua orientação para o futuro, porque compreender significa projetar possibilidades e o futuro constitui o fundamento ontológico desse poder-ser.

15. A questão decisiva torna-se então saber se Platão realmente deixou de compreender a estrutura relacional do autó kath’hautó, problema que reaparece de maneira particularmente aguda na objeção formulada por Michael Frede contra as interpretações tradicionais da demonstração.

** VI. Objeção às interpretações tradicionais: e quanto à identidade? **

16. A objeção de Michael Frede sustenta que prós álla parece exigir referência a algo diferente, mas existem predicados relacionais e usos incompletos do verbo “ser”, especialmente aqueles vinculados à identidade, que estabelecem relações reflexivas e não remetem necessariamente a algo diferente do próprio sujeito.

17. A proximidade com Heidegger é significativa porque tanto Frede quanto Heidegger identificam o problema das relações que algo mantém consigo mesmo, mas divergem sobre aquilo que esse problema demonstra.

18. A tensão entre essas posições permite organizar as interpretações contemporâneas em duas grandes estratégias destinadas a fornecer uma explicação consistente da relação de algo consigo mesmo: preservar as interpretações tradicionais mediante ajustes ou abandonar o caráter não relacional do kath’hautó e compreendê-lo como uma modalidade especial de relação reflexiva.

** VII. Primeira reação: defesa das interpretações tradicionais **

19. As defesas contemporâneas da interpretação categorial procuram responder à objeção de Frede sobretudo esclarecendo o estatuto de predicados reflexivos como “ser o mesmo que”, embora os argumentos formulados possam também ser adaptados, com algumas limitações, à leitura que distingue usos completos e incompletos do verbo “ser”.

20. Uma primeira defesa procura mostrar que prós álla não exige necessariamente diferença extensional entre o sujeito e aquilo que completa o predicado relacional, admitindo como “outro” algo apenas intencionalmente distinto.

21. Essa solução, contudo, não basta para preservar a interpretação categorial, porque a oposição tá mén/tá dé parece exigir duas classes exaustivas e mutuamente exclusivas, de maneira que prós álla precisaria incluir todos os predicados relacionais e não apenas alguns deles.

22. Uma resposta possível consiste em abandonar o caráter exaustivo da oposição tá mén/tá dé e admitir uma terceira classe implícita de predicados relacionais relativos a si mesmos, prós heautó, situada entre os predicados não relacionais e aqueles relativos a algo diferente.

23. Outra estratégia identifica prós álla a prós ti e entende “relativamente a outros” como maneira não rigorosa de designar a relação em geral, que também poderia incluir relações reflexivas como “ser o mesmo que”.

24. A assimilação de prós álla a prós ti também favorece a segunda versão da interpretação tradicional, porque todos os usos incompletos de “ser”, inclusive os usos identitários, poderiam então pertencer ao lado prós álla, enquanto autó kath’hautó continuaria designando apenas os usos completos de “ser”.

25. Essa estratégia permanece discutível por depender sobretudo de testemunhos exteriores ao corpus platônico, especialmente Aristóteles, ainda que sua proximidade lexical e conceitual com o Platão tardio possa conferir alguma plausibilidade à aproximação.

26. Uma defesa mais radical propõe alterar a leitura textual de prós álla para prós allēla, apoiando-se em determinados manuscritos e fazendo da passagem uma oposição entre termos completos e pares de termos reciprocamente relacionados.

** VIII. Segunda reação: um kath’hautó relacional **

27. Uma alternativa mais profunda consiste em abandonar a identificação do kath’hautó com o não relacional e admitir que relações reflexivas pertencem precisamente ao lado autó kath’hautó, diferenciando-as das relações que algo mantém com outra coisa.

28. Numa primeira versão relacional, o Estrangeiro distinguiria propriedades que relacionam algo consigo mesmo de propriedades que relacionam algo a outra coisa.

29. Uma segunda versão interpreta a diferença entre kath’hautó e prós állo em termos de dois usos relacionais e incompletos do verbo “ser”, um correspondente à identidade e outro à predicação.

30. Nessa leitura, quando “x é” recebe como complemento algo diferente de x, produz-se predicação, enquanto, quando recebe o próprio x como complemento, produz-se uma afirmação de identidade, de modo que a alteridade, sempre completada por algo diferente, não pode coincidir com o ser, que admite ambas as formas.

31. A interpretação encontra, contudo, uma dificuldade na estrutura tá mén… tá dé…, que parece introduzir duas classes mutuamente exclusivas de entes, enquanto tanto o “é” de identidade quanto o “é” de predicação podem aplicar-se aos mesmos entes.

32. Uma terceira possibilidade associa os dois lados da distinção a duas maneiras diferentes de participar do ser e, correlativamente, a duas classes diferentes de entes: gêneros e particulares sensíveis.

33. Essa interpretação atribui ao Estrangeiro precisamente uma concepção próxima daquela que Heidegger julgava inacessível a Platão: a distinção entre entes ditos relativamente a si mesmos e entes ditos relativamente a algo diferente.

34. Todas as interpretações relacionais enfrentam ainda uma objeção textual simples: se Platão pretendesse distinguir explicitamente a relação consigo mesmo da relação com algo diferente, seria mais natural escrever prós heautá em vez de autá kath’hautá, razão pela qual o texto não resolve de modo inequívoco a controvérsia.

** IX. Conclusão **

35. A observação heideggeriana acerca do caráter intrinsecamente relacional do “em-si” fornece um princípio fecundo para reconstruir sinteticamente as interpretações contemporâneas de Sofista 255c9–e2 e para tornar visíveis as dificuldades específicas que cada leitura enfrenta, especialmente no tratamento das relações reflexivas.

36. Mesmo que a interpretação segundo a qual Platão contrapõe relações consigo mesmo e relações com algo diferente não seja aceita e a leitura tradicional permaneça correta, o Sofista contém passagens estratégicas em que as Formas são explicitamente ditas relativamente a elas mesmas.

37. A Forma ou gênero “sofista” fornece outro exemplo de relação consigo mesmo, pois sua definição não se limita à tautologia “sofista é sofista”, mas explicita aquilo que o sofista essencialmente é através da longa determinação dialética que o situa como pertencente à produção humana de imagens, à imitação aparente, à contradição discursiva e ao uso insincero e ignorante da palavra.

38. As duas maneiras de dizer a Forma do sofista relativamente a si mesma diferem porque a segunda depende do processo dialético temporal mediante o qual sua essência foi gradualmente determinada ao longo do diálogo.