** § 2. Orientação sobre O Sofista de Platão a partir de Aristóteles **
** a) O tema: o ser do ente **
1. O ente (Seiendes) é inicialmente tomado na indeterminação mais ampla como ente do mundo e como ente do próprio ser-aí (Dasein), sendo descoberto de início no horizonte circundante em que o ser-aí vive e se mantém aberto dentro de determinados limites, enquanto a ciência surge somente a partir dessa orientação natural mediante uma elaboração perspectivada do mundo existente e do próprio ser-aí, sem que aquilo que assim se apresenta já seja conhecido propriamente no sentido do saber.
2. A reconstrução adequada do trabalho platônico requer que se conquiste previamente, a partir de Aristóteles, uma orientação acerca do modo como o ente (Seiendes) era compreendido por Platão e pelos gregos e acerca dos modos de acesso pelos quais ele podia ser alcançado, pois somente a partir dessa posição e dessa maneira correta de ver se torna possível interrogar adequadamente o ente em seu ser (Sein) e acompanhar, passo a passo, o movimento originário de um diálogo platônico.
** b) O modo de acesso: conhecimento e verdade. Verdade — desvelamento **
3. O conhecimento constitui um modo de acesso ao ente (Seiendes) pelo qual aquilo que se encontra aberto ou descerrado (erschlossen) é apreendido como sendo de determinado modo, de maneira que o conhecer, ao abrir o ente, torna-se verdadeiro e pode sedimentar aquilo que apreendeu em uma proposição ou enunciado, cuja determinação passa então a receber o nome de verdade.
4. A investigação da verdade deve esclarecer conjuntamente o próprio fenômeno da verdade e aquilo que o conhecimento significava para os gregos em sua relação com o ente (Seiendes), evitando-se partir da concepção posterior segundo a qual a verdade seria simplesmente uma propriedade do conhecimento, pois interessa alcançar a orientação em que a determinação da verdade atinge, no interior da lógica grega, sua formulação culminante em Aristóteles.
5. A tradição lógica estabeleceu como definição corrente, apoiando-se em Aristóteles, que verdadeiro e falso pertencem primariamente ao juízo, de modo que a verdade passou a ser compreendida fundamentalmente como verdade judicativa, isto é, como determinação atribuída ao enunciado ou à proposição.
6. A definição da verdade como verdade judicativa possui uma legitimidade limitada, mas permanece superficial, porque o fenômeno originário da verdade deverá ser discutido e fundamentado precisamente a partir daquilo que, na tradição, foi reduzido à determinação do juízo, exigindo-se alcançar a verdade em seu sentido mais originário de desvelamento (Unverborgenheit).