§1

** Consideração prévia **

** § 1. A necessidade de uma preparação dupla da interpretação dos diálogos platônicos **

1. A interpretação de dois diálogos tardios de Platão, O Sofista e Filebo, exige uma penetração renovada naquilo que neles se torna temático, pois conceitos aparentemente evidentes como ser (Sein) e não ser (Nichtsein), valor e não valor precisam ser novamente apropriados em sua força problemática, o que requer uma preparação dupla capaz de determinar tanto o modo adequado de acesso a esses conceitos quanto o lugar a partir do qual tal acesso deve ocorrer.

2. A dupla preparação requerida articula, de um lado, uma orientação acerca do modo de ser (Seinsart) dos objetos que devem tornar-se acessíveis e, de outro, uma determinação do solo histórico a partir do qual o passado pode ser encontrado e apropriado.

3. A preparação relativa ao primeiro aspecto deve inicialmente esclarecer, apenas de modo indicativo, o método e a intenção da fenomenologia, cuja compreensão efetiva somente pode ser conquistada progressivamente no próprio exercício da investigação filosófica dirigida às coisas mesmas.

** a) Preparação filosófico-fenomenológica. Método e intenção da fenomenologia **

4. A fenomenologia caracteriza-se por deixar aquilo que se mostra tornar-se acessível e inteligível a partir de si mesmo, distinguindo-se de qualquer ciência particular não pelo simples fato de descrever fenômenos, mas pelo modo determinado segundo o qual se posiciona diante daquilo que se mostra e o persegue em seu próprio ser (Sein), de maneira que fenômeno designa o ente (Seiendes) tal como se mostra nas diferentes possibilidades de seu desvelamento.

5. A segunda dimensão da preparação deve voltar-se à apreensão correta do passado histórico que se apresenta em Platão, de maneira que esse passado possa ser encontrado a partir de seu próprio solo e não mediante a projeção retrospectiva de categorias alheias.

** b) Preparação historiológico-hermenêutica. O princípio da hermenêutica: do claro para o obscuro. De Aristóteles para Platão **

6. O passado grego não constitui algo remoto e simplesmente destacado do presente, porque a filosofia e a ciência contemporâneas permanecem assentadas sobre fundamentos provenientes da filosofia grega, precisamente de modo tão profundo que tais fundamentos se tornaram cotidianos e óbvios, exigindo-se da interpretação dos diálogos platônicos que torne novamente transparente aquilo que, por sua familiaridade histórica, deixou de ser percebido.

7. Como nenhum outro grande pensador posterior prosseguiu diretamente o trabalho filosófico de Aristóteles em sua integralidade, torna-se necessário penetrar esquematicamente em seu pensamento e restringir essa aproximação às questões fundamentais indispensáveis para orientar a interpretação de Platão, concentrada em O Sofista e Filebo e recorrendo apenas complementarmente ao Parmênides, para a ontologia, e ao Teeteto, para a fenomenologia do conhecimento.

** c) Primeira indicação do tema de O Sofista. O sofista. O filósofo. O ser do ente **

8. Em O Sofista, Platão conduz a investigação do ser-aí (Dasein) humano em uma de suas possibilidades mais extremas, a existência (Existenz) filosófica, esclarecendo indiretamente o que seja o filósofo mediante a explicitação daquilo que constitui o sofista e fazendo com que a distinção entre ambos somente se torne concretamente inteligível quando o modo de vida filosófico é efetivamente assumido.