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Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie (Summer semester 1924), ed. M. Michalski, 2002, XIV, 418p.

O Ser-Aí dos Seres Humanos como psyche: Ser-Falante (logon echein) e Ser-Uns-com-os-Outros (koinonia) (Política A 2, Retórica A 6 e 11)

1. Impõe-se agora chegar a uma compreensão do legein, não se possuindo ainda clareza sobre o “falar” enquanto aquilo que constitui o ser genuíno dos seres humanos.

a) A Determinação do Ser Humano como zoon logon echon: A Tarefa de Separar logos de phone

2. Considera-se o Livro I, Capítulo 2 da Política, onde a determinação do ser humano como zoon logon echon aparece com um objetivo inteiramente determinado no contexto de demonstrar que a polis é uma possibilidade de ser da vida humana, possibilidade de ser que é physei, não devendo physis ser tomada no sentido moderno de “natureza” em oposição a “cultura”, polemizando-se então contra Aristóteles, o que constitui um modo superficial de ver a coisa.

3. Apenas o ser humano tem logos entre os viventes, sendo a phone um sinal do agradável e do penoso, cabendo por isso também aos demais viventes (pois a natureza destes alcançou apenas até esse ponto, o ter percepção do penoso e do agradável e o sinalizar isso uns aos outros), ao passo que o logos serve para manifestar o conveniente e o prejudicial, e assim também o justo e o injusto, sendo isto próprio dos seres humanos frente aos demais viventes, o terem unicamente eles percepção do bem e do mal, do justo e do injusto, e do mais que se segue, sendo a koinonia disso que constitui a casa e a polis.

4. Nessa determinação (logon echon) torna-se visível um caráter fundamental do Dasein do ser humano, o ser-uns-com-os-outros, não se tratando de ser-uns-com-os-outros no sentido de estar-situado-ao-lado-um-do-outro, mas antes no sentido de ser-enquanto-falar-uns-com-os-outros mediante comunicar, refutar, confrontar.

5. Tomando-se essa posição, quer-se separar o logos de outros modos de ser-no-mundo, da phone, o que Aristóteles fez conscientemente, perguntando-se o que genuinamente significa esse “anunciar”, esse semainein allelois, constituindo ele o ser-uns-com-os-outros desse ser vivo, considerando-se assim algo duplo, tanto com respeito à phone quanto com respeito ao logos.

6. Na phone, assim como no logos, aparece uma determinidade do ser-no-mundo, um modo determinado em que o mundo se encontra com a vida, dando-se isso, primeiro, no caráter do hedy e do lyperon, e, no segundo caso, no caráter do “conveniente e prejudicial” (sympheron, blaberon).

7. Testemunha-se como essas duas possibilidades em que o mundo é encontrado em seu Dasein inicial são, enquanto tais, os modos em que os viventes estão uns com os outros, em que a koinonia se constitui, sendo a próxima tarefa esclarecer que, de fato, o que se entende por essas determinações do hedy e do lyperon são aspectos do encontro com o mundo que se dirigem ao ser-no-mundo, ao viver, de tal modo que aquilo que está aí no caráter do hedy e do lyperon, enquanto tal e em sua efetividade, não é de modo algum explicitamente apreendido.

8. Esse contexto se torna claro, sem mais, ao se olhar para uma determinação que Aristóteles dá no Livro I, Capítulo 11 da Retórica, a determinação da hedone, um modo determinado de ser-no-mundo, do “bem-estar de alguém”.

9. A partir dessa determinação do caráter fundamental da hedone enquanto tal, pode-se ver que, se a hedone é algo como um movimento, uma reviravolta do ser do vivente, então o hedy é evidentemente o que ergue (em oposição ao lyperon, “o que oprime”), sendo o poietikon, aquilo que pode fazer ou produzir algo como a disposição (diathesis) mencionada, posição, modo de se-encontrar.

b) O logos do Ser Humano e a phone do Animal como Modos Peculiares de Ser-no-Mundo e de Ser-Uns-com-os-Outros

10. Busca-se o âmbito da conceitualidade (Begrifflichkeit), sendo-se conduzido de volta à determinação do ser do ser humano, caracterizado como o tipo de vida que fala, devendo-se averiguar a natureza do falar para ver quais determinações de ser do ser humano estão contidas no logos.

11. Aristóteles toca nisso num contexto em que quer estabelecer que o ser humano é um zoon politikon, recorrendo nesse contexto ao ser dos animais, e pondo o zoon logon echon em comparação com um zoon que tem apenas phone.

alfa. Orientação para os Fenômenos que Estão na Base da Separação do logos frente à phone

12. Para facilitar a compreensão dessa comparação e, ao mesmo tempo, para apreender a separação do logos frente à phone, quer-se orientar-se de modo geral e breve para os fenômenos que estão na base da comparação.

13. Postos em vista, em ambos os casos, estão viventes, vivendo como ser-no-mundo, estando o mundo aí para esse ser-em-si-mesmo não apenas ocasionalmente ou por algum tempo, mas constantemente, residindo a questão apenas em como esse Dasein do mundo é primariamente determinado.

14. O mundo, enquanto importa a um vivente, é encontrado ao longo das linhas do ser-no-mundo, isto é, é encontrado, sobrevém ao ser-no-mundo dos viventes.

15. O mundo importa ao ser-no-mundo vivente, dependendo o modo e a maneira em que o mundo está aí, a possibilidade do Dasein do mundo num ser vivo, da possibilidade básica da medida em que esse viver está fechado em si mesmo ou está desperto, da medida em que o ser-no-mundo está descoberto ou tem o caráter do descoberto aí, e assim da medida em que o próprio mundo e o ser-no-mundo são descobertos, havendo aqui diferentes gradações e níveis.

16. Com a consideração desses modos básicos, deve-se ver, primeiro, como os animais, cujo viver se caracteriza através da phone, encontram o mundo, quais são os caracteres de encontro, o que, para os animais, é o indicador do mundo tal como encontrado, qual é o modo básico do aí, do ser-no-mundo; e, segundo, o modo correspondente de considerar o ser do ser humano no mundo através do logos, em que sentido o mundo está aí para os seres humanos, como ele é trazido à autoexposição através do logos, como o mundo está aí no caráter de encontro do sympheron e do agathon.

17. O caráter de encontro do mundo para a vida dos animais é o hedy e o lyperon, sendo seu caráter de encontro para o ser do ser humano o caráter do benéfico e do prejudicial, tomados em conjunto, o que é conducente e o que é bom.

beta. Os Caracteres de Encontro do Mundo dos Animais: hedy e lyperon. phone como Indicar, Aliciar, Advertir

18. No Livro I, Capítulo 11 da Retórica, Aristóteles fornece uma definição de hedone, sendo importante chegar a uma melhor compreensão dela, sendo hedy e lyperon poietika hedones kai lypes.

19. Para compreender o contexto concreto, deve-se notar o seguinte: se o hedy é encontrado e cultiva disposição, então o hedy é encontrado por um animal que já está no modo de encontrar-se no mundo.

20. O viver enquanto ser-em-um-mundo se encontra caracterizado pela hedone na medida em que o hedy está aí, sendo, para os animais, encontrar o mundo no caráter do hedy, por exemplo, encontrar um lugar favorável de alimentação e não uma sinfonia, sendo sempre algo que se encontra no mundo circundante do animal.

gama. Os Caracteres de Encontro do Mundo dos Seres Humanos: sympheron, blaberon e agathon. O logos como Autoexpressão com Outros sobre o que é Conducente ao Fim de uma Ocupação

21. Deve-se perseguir, através do logos, o duplo caráter que surge do fato de que o indicar do mundo tal como encontrado na phone é também a sinalização do ser-no-mundo, devendo-se esclarecer como o falar, na medida em que é um fenômeno básico de ser, é ele mesmo derivado do modo básico de ser como ser-uns-com-os-outros, perguntando-se como o ser-no-mundo através do logos se distingue do ser-no-mundo através da phone.

22. Mostrar-se-á aqui como a phone é uma determinação de ser fundamental dos animais, assim como o logos o é para os seres humanos, tendo uma função dupla: primeiro, a indicação de algo, do mundo como hedy e lyperon; segundo, o que, enquanto sinal, constitui aquilo que é visto como característico do ser-uns-com-os-outros dos animais.

23. Para ver o que está em questão, deve-se afastar, desde o início, um preconceito que, agora mais do que nunca, tende-se a trazer à consideração, podendo-se apreender a coisa de tal modo que, na phone e no logos, a efetividade seja apreendida num determinado respeito, a saber, que o mundo esteja aí a partir de um determinado “ponto de vista”, relativo ao “sujeito”, isto é, que o mundo seja encontrado apenas a partir de um “ponto de vista subjetivo”, não genuinamente em si mesmo, como se se tratasse de um modo determinado de apreender o mundo.

24. Impõe-se agora a questão de como o logos é o característico do ser-no-mundo em que o mundo está aí para o ser humano, perguntando-se em que caráter o mundo é encontrado pelo ser humano, segundo Aristóteles, qual é a disclosidade alcançada pelo ser humano.

25. Os sympheronta, os “caracteres do conducente”, são, primeiro, ta pros to telos, “aquilo que, em si mesmo, se dirige ao fim”; segundo, kata tas praxeis, “no âmbito próprio da praxis”; terceiro, skopos prokeitai to symbouleuonti, “o fato de que aquilo para que se olha jaz diante daquele que delibera”.

26. Quanto ao primeiro, sympheron é “aquilo que é conducente a…”, em direção ao fim, sendo algo conducente, em si mesmo, um ente que tem uma referência a algo, não sendo esse referir-se a algo acidental àquilo que é conducente, mas constituindo antes sua própria condução, sendo aquilo a que o conducente enquanto tal se refere designado como to telos, encontrando-se o que se deve entender por telos na segunda determinação.

27. Quanto ao segundo, praxis é “ocupação”, e, enquanto tal, não significa outra coisa senão trazer-algo-a-seu-fim, residindo nisso o fato de que a ocupação tem em si mesma um fim, especificamente um fim como aquilo em direção a que a ocupação enquanto ocupação se move, sendo o sympheron o referir-se ao fim de uma ocupação, carregando consigo, e sendo conducente a, o trazer-a-um-fim de algo.

28. Quanto ao terceiro, o sympheron é skopos, caracterizando Aristóteles o symbouleuesthai no Livro VI, Capítulo 10 da Ética a Nicômaco como zetein ti kai logizesthai, um “buscar algo no modo (kai aqui é explicativo) de deliberar”, logizesthai.

29. Que significa dizer que o logos exprime o sympheron? O logos, ao contrário da phone, está epi to deloun, tendo a tarefa de “revelar” o mundo num caráter que se cumpre no logizesthai.

30. Esse falar sobre… é deliberar, symbouleuesthai, “trazer à linguagem consigo mesmo”, chegando-se, consigo mesmo, a tomar conselho sobre algo, sendo isso apenas uma possibilidade inteiramente determinada de algo muito mais originário — aconselhar-se com outros.

31. Poderia parecer haver uma lacuna nessa exposição se não se vir por que o falar é falar-com-outros, mas os gregos viram o logos de modo original, tendo hoje uma noção primitiva de linguagem ou nenhuma, sendo o documento concreto para a originalidade da visão grega toda a Retórica.

32. Até aqui foi suprimido um caráter ulterior do mundo tal como encontrado, o agathon, ainda que Aristóteles caracterize, em última instância, o sympheron como agathon, estando-se agora preparado para compreender o que significa o agathon, fornecendo Aristóteles uma descrição dele no lugar mencionado, no Livro I, Capítulo 6 da Retórica, precisamente em conexão com a definição do sympheron.

33. Agathon é, primeiro, auto heautou heneka hairetón, aquilo que é “apreensível em si mesmo e por sua própria causa” — daí a determinação de agathon como hou heneka, “por causa de que”, “por causa disso”.

34. Segundo, kai hou heneka allo, correndo a referência, em ordem inversa à anterior, do telos ao sympheron, devendo-se notar, para ver o contexto fundamental, que o agathon tem primariamente o caráter de um fim apenas porque pode ser um por-causa-de-que, um por-causa-de-um-outro.

35. Além disso, o agathon é determinado, terceiro, como hou ephietai panta, “aquilo em direção a que tudo se mantém, em direção a que tudo está a caminho”.

36. E, quarto, hou parontos, e isso “na medida em que está presente”, eu diakeitai, se o agathon está aí enquanto tal, se a ocupação é trazida a seu fim, então aquele de que se trata eu diakeitai está numa disposição caracterizada como eu, sendo eu um determinado como de encontrar-se-disposto, que é cultivado na medida em que se sedimenta para aquele de que se trata, dependendo o eu do modo e da maneira da ocupação pelo fim.

c) O Impessoal (das Man) como o Como da Cotidianidade do Ser-Uns-com-os-Outros: A Equiprimordialidade do Ser-Uns-com-os-Outros e do Ser-Falante

37. O ser-uns-com-os-outros foi exposto como um caráter novo do ser do ser humano, aparecendo na estrutura concreta do próprio logos — logos enquanto “falar”, tal como ele é vivo na cotidianidade, sendo aquele falar que é o modo de cumprimento da deliberação, do tomar-conselho-consigo-mesmo no momento, da ocupação.

38. Pode-se apreender essa determinação, que agora veio à tona tendo em vista o ser do ser humano, ainda mais precisamente, devendo-se notar que, com essa determinação, não se estabelece uma afirmação factual de que os seres humanos nunca estejam sozinhos, mas antes com vários outros.

39. Chegar-se-á à compreensão de que a determinação do ser-uns-com-os-outros é equiprimordial com a determinação do ser-falante, sendo inteiramente errado deduzir uma da outra, possuindo antes o fenômeno do Dasein do ser humano enquanto tal, equiprimordialmente, ser-falante e ser-uns-com-os-outros, devendo esses caracteres da equiprimordialidade do ser do ser humano ser mantidos uniformemente se se quiser efetivamente atingir o fenômeno.