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Grundbegriffe der aristotelischen Philosophie (Summer semester 1924), ed. M. Michalski, 2002, XIV, 418p.

Ousia como Conceito Fundamental da Filosofia Aristotélica

1. A função básica do logos é o trazer-a-se-mostrar-por-si-mesmo dos entes em seu ser, da ousia enquanto “ser” dos entes ou enquanto “sendidade” (Seinsheit,beingness, entidade), significando isso que o ser de um ente possui aspectos determinantes, de modo que ainda algo pode ser descoberto sobre o ente no como de seu ser, sendo contudo a ousia, enquanto “ser no como de seu ser”, ela mesma ambígua em Aristóteles, possuindo vários significados, ao mesmo tempo em que a ousia é o título do contexto concreto que constitui o tema da pesquisa fundamental de Aristóteles, sendo a expressão para o conceito fundamental da filosofia aristotélica, a partir da qual se chegará a conhecer não apenas o que é o horismos, mas também se adquirirá um solo sobre o qual situar os demais conceitos fundamentais.

a) Os Diversos Tipos de Ambiguidade Conceitual e o Vir a Ser dos Termos

2. A ousia é ambígua para Aristóteles, o que poderia de imediato interromper o emprego da expressão, já que uma ambiguidade no conceito fundamental de uma pesquisa constitui um perigo, não sendo, contudo, toda ambiguidade do mesmo tipo, havendo os seguintes tipos.

3. O primeiro tipo é a ambiguidade de confusão, que surge quando uma palavra é usada de certo modo mas ainda possui vários significados já esclarecidos, sendo esses significados confundidos por falta de conhecimento da coisa em questão, instalando-se essa ambiguidade posteriormente e obscurecendo aquilo que veio à luz numa pesquisa explícita.

4. O segundo tipo pode surgir de uma incapacidade de ver determinados contextos concretos quanto a suas possíveis diferenças, de uma insensibilidade à diferença na apreensão e determinação conceitual.

5. O terceiro tipo pode ser o índice de que o alcance de uma palavra em sua ambiguidade surge de uma relação legítima com a coisa, de uma familiaridade legítima com ela, sendo a multiplicidade de sentido exigida pela própria coisa, uma multiplicidade articulada de significados distintos, de tal modo que a coisa é tal que exige, a partir de si mesma, a mesma expressão mas com sentidos diversos.

6. A ousia pertence a esses conceitos fundamentais ambíguos, examinando-se por isso aquilo de que partem seus vários significados, já tendo sido dito que a ousia é o conceito fundamental da pesquisa aristotélica, sendo tais expressões, que têm o caráter de expressões enfatizadas, também designadas como “termos”, constituindo o significado que expressamente lhes cabe no interior de um contexto científico de perguntar o significado “terminológico” da expressão, havendo diferentes possibilidades quanto ao vir a ser dos termos.

7. Na primeira possibilidade, um contexto concreto determinado é descoberto, visto de novo pela primeira vez, faltando a palavra, sendo a palavra cunhada junto com a coisa, podendo uma expressão que não estava à disposição tornar-se de imediato um termo, o qual mais tarde se dissipa ao ingressar na circulação e na ordinariedade geral do falar.

8. Na segunda possibilidade, a formação pode proceder de tal modo que o termo se fixa a uma palavra já disponível, de tal maneira que um aspecto de significado que era co-intencionado com o significado ordinário, ainda que não explicitamente, torna-se agora temático no significado terminológico.

b) O Significado Corrente de Ousia

9. A expressão ousia, enquanto termo fundamental da pesquisa aristotélica, provém de uma expressão que possui um significado corrente na linguagem natural, sendo o significado corrente aquele que uma palavra tem no falar natural, entendendo-se por falar natural o falar tal como sempre ocorre inicial e majoritariamente, e onde está à disposição um outro modo de falar com o mundo, a saber, o modo científico.

10. Não é, contudo, o caso, com a ousia, de que o significado terminológico tenha surgido a partir do significado corrente enquanto este desapareceu, existindo antes, para Aristóteles, o significado corrente constante e simultaneamente ao lado do significado terminológico.

11. O significado corrente de ousia designa um ente determinado, e não, digamos, montanhas ou outros seres humanos, sendo a ousia, terminologicamente, “um ente no como de seu ser” (usualmente traduzida como “substância”, permanecendo em aberto se mais se pode representar por “substância” do que por “um ente no como de seu ser”).

12. Pode-se ver agora como o significado terminológico de ousia se deriva do corrente, sendo a ousia correntemente um ente determinado no como de seu ser, sendo o como apenas co-intencionado, ao passo que o significado terminológico, por outro lado, apresenta tematicamente o como de ser que antes era apenas intencionado implicitamente.

13. Não é acidental que a designação grega para as coisas que primeiro se encontram seja pragmata, “entes com que constantemente se tem a ver”, e chremata, “aquilo que é tomado em uso”, remetendo ambas ao significado básico de ousia.

14. Aristóteles diz na Metafísica que a antiga pergunta, ti to on, “o que é o ente?”, é na verdade a pergunta pelo ser dos entes, tis he ousia, trazendo Aristóteles, pela primeira vez, a pesquisa científica a esse solo, solo que nem mesmo Platão jamais notou.

c) O Significado Terminológico de Ousia

15. A ousia é o título do objeto da pesquisa fundamental genuína para Aristóteles e para a filosofia grega em geral, estando aquele que se propõe a tarefa de esclarecer o significado de tal termo obrigado a manter em vista o contexto concreto a que ele se refere, surgindo o termo ousia de várias maneiras.

16. É característico do significado corrente que ele não expresse apenas um ente, mas um ente no como de seu ser, entendendo-se por patrimônio um ente que está aí em sentido explícito, aquele ente que inicial e majoritariamente está aí na vida, no interior do qual a vida faticamente opera na maior parte das vezes, a partir do qual a vida por assim dizer extrai sua existência (Dasein).

17. Obteve-se, de todo modo, uma orientação para os múltiplos significados dessa expressão na medida em que ela significa, primeiro, entes no como de seu ser, e, segundo, o como de ser dos entes, situando-se em cada caso a ênfase numa direção diferente, interessando agora apenas o significado terminológico, devendo a multiplicidade do significado terminológico ser determinada mais precisamente, tratando-se aqui a ousia com o objetivo de ver o que é genuinamente abordado pelo logos, pelo horismos, o que é original e genuinamente dito ao defini-los.

18. A ousia, no significado terminológico, é ela mesma tratada tendo em vista a multiplicidade de seus significados, significando a ousia, no significado terminológico, primeiro entes ou vários entes, de tal modo que o como de seu ser não é diretamente enfatizado, e, segundo, precisamente o ser dos entes.

α. Ousia como Entes

19. Das direções básicas de significado do termo ousia, escolhe-se inicialmente aquela que visa os próprios entes, aparecendo nesse uso a expressão ousiai, dita de vários “entes” na medida em que possuem vários caracteres de ser, sendo os entes mesmos sempre primariamente descobertos antes do ser.

20. Para Aristóteles, e para toda pesquisa que investiga o ser e que, com isso, quer ter um solo sobre o qual se apoiar, é evidente por si mesma que ela parte da consideração do ser (e da estrutura de ser) que inicialmente aí está desse modo, que parte de um sentido de ser que a naturalidade compreende sem mais, movendo-se a vida numa inteligibilidade natural daquilo que é imediatamente significado por “ser” e “entes” em seu falar.

β. Ousia como Ser: Caracteres de Ser (Metafísica, Delta 8)

21. Não se pode, neste ponto, perseguir em detalhe o que tal pesquisa do ser dos entes em seus caracteres de ser mostra, querendo-se, para efeito de orientação, extrair alguns caracteres de ser, e então a multiplicidade dos significados de ousia, onde ousia significa o ser de um ente, tomando-se o Capítulo 8 do Livro V da Metafísica como base de orientação quanto aos caracteres de ser que a pesquisa aristotélica do ser exibe.

22. Aristóteles introduz o Capítulo 8 com a enumeração dos somata, querendo com isso mostrar o solo a partir do qual se inicia toda a investigação do ser dos entes.

23. Ele designa, primeiro, o hypokeimenon como o primeiro caráter de ser, sendo entes como animais, plantas, seres humanos, montanhas e o sol tais que já “jazem aí”, “de antemão”, hypo.

24. O segundo caráter é aition enyparchon, “aquilo que também está à disposição nele” nesse modo de ser, na função do aition tou einai, sendo a psyche um tal caráter de ser.

25. O terceiro caráter, morion enyparchon, é representado, por exemplo, pela superfície de um corpo, pois, se se remove a superfície de um corpo do aí, o corpo é, com isso, retirado, já não estando mais aí.

26. O quarto caráter, to ti en einai, não foi inventado por Aristóteles, tendo antes sido transmitido a ele pela tradição, sendo um caráter de ser, especificamente aquele caráter com base no qual o logos enquanto horismos aborda os entes, sendo o to ti en einai em particular o tema do horismos.

27. Aristóteles distingue, então, dois tropoi, “modos básicos”, em que a ousia é empregada: primeiro, o hypokeimenon eschaton, aquilo que já está aí para todo trato com ele, e, segundo, os entes no caráter de tode ti on, a respeito dos quais digo “isto aí”, choriston, estando “em seu próprio lugar”, estando à disposição “independentemente”.

28. Essa independência é expressa pelo eidos, “aquilo que é visto, avistado”, o “aspecto”, o “aparecer” de um ente, sendo aquilo que aqui vejo, e identifico como estando aí à disposição independentemente, aparece como uma cadeira, e é, por isso, para os gregos, uma cadeira.

γ. Ousia como Ser-Aí: Caracteres de Ser como Caracteres do Aí

29. Estando-se no processo de uma enumeração de caracteres de ser, convém agora ver como uma concepção determinada do aí se exprime nesses vários caracteres de ser, e assim como esses vários caracteres de ser são caracteres plenamente determinados do sentido do aí tal como os gregos o compreendiam, já se tendo um fio condutor para isso no significado corrente de ousia no sentido do “disponível”, do “presente”, daquilo que está à disposição no sentido de “patrimônio” ou “posse”.

30. Tenta-se alcançar uma orientação básica para os caracteres de ser examinando em que medida todos esses caracteres aparentemente diferentes de ser estão ligados enquanto caracteres do aí, significando ousia “ser-aí”, não possuindo um sentido indiferente de ser, já que, em última instância, tal coisa não existe, sendo a ousia a abreviação de parousia, “ser-presente”.

31. O primeiro caráter é o hypokeimenon, “estar-à-disposição”, a “disponibilidade” de algo, estando esse caráter de ser conectado ao ser no sentido do significado corrente.

32. O segundo caráter é aition (tou einai) enyparchon, por exemplo a psyche, sendo a “alma” ousia no sentido de que ela constitui o Dasein dos entes que têm o caráter de vivos.

33. O terceiro caráter é morion enyparchon, aquilo que constitui o possível ser de algo, por exemplo o ponto, a linha, o número, enquanto caráter de ser genuíno, já que número é limitação, sendo número, ponto etc. caracteres de ser apenas na medida em que se pode demonstrar que, para os gregos, limite e ser-limitado são caracteres de ser genuínos.

34. O quarto caráter, to ti en einai, essa combinação já aponta para o fato de que aqui se trata de todo um complexo de determinações de ser, que serão mais tarde ordenadas, sendo o ser no caráter de to ti en einai o tema genuíno daquele logos que agora se discute como horismos, sendo esse caráter de ser o de hekaston, determinando-se todo ente que está aí em sua particularidade através do to ti en einai.

35. Na recapitulação dos caracteres de ser há ainda um quinto: eidos, já tendo, para Aristóteles, eidos o sentido de “espécie”, não se compreendendo por que significa “espécie”, e por que genos significa “gênero”, se não se sabe que eidos é um caráter de ser inteiramente determinado.

36. O to ti en einai tem em si a determinação do en: o Dasein de um ente, e de fato tendo em vista o que ele era, sua proveniência.

37. Estar-aí significa, portanto, resumidamente: primeiro, presença, presente; segundo, ser-completo, completude, os dois caracteres do aí para os gregos, devendo-se interpretar todos os entes, quanto a seu ser, a partir desses dois caracteres.