§50

** § 50. Retomada das características do cuidado do conhecer que foram percorridas, com indicação da própria existência em termos de algumas determinações fundamentais **

1. Pretende-se tentar resumir o que se obteve no curso do exame com respeito ao ser do cuidado e recapitular o que se revela nos diversos caracteres do cuidado como modo de ser do existir enquanto tal, querendo-se igualmente recapitular o que se viu nesses caracteres do cuidado, em particular no cuidado do conhecimento, quanto ao caráter de ser da existência.

2. No apelo da fenomenologia “às próprias coisas”, “coisa” significa um ente na medida em que é encontrado como característico de uma região possível para uma ciência, sendo cada ente visto através da ciência, o estético, por exemplo, através da história da arte, tal como é capaz de estar aí sob a forma de um objeto.

3. Um trecho de investigação bem mais importante refere-se ao agathon, devendo ser submetida a um exame crítico a medida em que essas conexões são obtidas a partir do olhar para a existência.

** a) Três grupos de caracteres do cuidado a respeito do saber já conhecido e sua determinação como unidade **

4. Para esse propósito, limitemo-nos a um caráter do ser do cuidado, caráter obtido no curso da demonstração do caráter fundamental do cuidar: o ser do cuidado com a certeza como um ser-desvelador.

5. Viu-se anteriormente como o cuidado com a certeza pode ser caracterizado como descuido e enredamento, e que o cuidado com a certeza se mantém em um movimento peculiar, movimento no qual o existir sai do caminho, tendo-se deixado a interpretação nesse nível.

6. Os caracteres do cuidado que emergiram da interpretação do cuidado com a certeza, na medida em que é desvelador, podem ser assim relacionados: três deles já foram desdobrados, mas, no curso posterior do exame, adiou-se a elaboração dos caracteres restantes.

7. O primeiro grupo é: o modo como o cuidado com a certeza, em seu regimento, ultrapassa a si mesmo (seus limites), um autoexceder-se que se equivoca a respeito de si mesmo, sendo dada, junto com essas determinações, uma tranquilização (Beruhigung) na medida em que o certum esse, como possibilidade de ser, é desviado para o esse creatum como bonum, e, com isso, assegurado por meio de seu ser-criado.

8. O segundo grupo abrange as características do deslocamento (Verlegen), do surgimento da falta de necessidade da indagação quanto ao caráter do ser, e do decair (Verfallen).

9. O terceiro grupo abrange as características do obstruir e do desviar.

** α) O autoexceder-se, o equivocar-se a respeito de si mesmo, o tranquilizar-se e o mascaramento como afastamento do ser **

10. Quanto ao primeiro, no primeiro grupo, o crescente cuidado com a certeza mostra-se de tal modo que faz um desvio para uma estação intermediária bastante específica, que se pode especificar como seu afastamento do ser (Seinsferne).

** β) O deslocamento, o surgimento da falta de necessidade e o decair como ausência da temporalidade da existência **

11. Quanto ao segundo, o deslocamento e o surgimento da falta de necessidade, que o fator do descuido contém em si mesmo, retratam um novo fator do ser do cuidado.

** γ) O obstruir e o desviar como nivelamento do ser **

12. Quanto ao terceiro, ao lado do afastamento do ser e da ausência de temporalidade, o último grupo nomeado, o obstruir e o desviar, fornece uma terceira determinação do ser do cuidado com a certeza: o nivelamento do ser.

** b) A fuga da existência diante de si mesma e o desvelamento de seu ser-em-um-mundo, o soterramento de qualquer possibilidade de encontrá-la, a distorção como movimento básico da existência **

13. Esses três caracteres — o afastamento do ser, a ausência de temporalidade e o nivelamento — devem ser vistos em conjunto, como uma determinação básica da própria existência, colocando-se a questão de como a existência se torna evidente enquanto tal nessa determinação.

14. Quer-se agora tornar mais claro o que significa que a estrutura de ser da existência reside na estrutura do distorcer, pretendendo-se fazer isso concebendo de modo mais incisivo o que se pode extrair do movimento específico de ser como um estar-em-fuga diante de si mesma.

15. Deve-se mostrar como, com base nos caracteres estabelecidos do cuidar, fatores específicos no modo como a própria existência é movida podem ser determinados, e, de fato, determinados em relação a si mesma.

16. Na medida em que o conhecer, nos respeitos mencionados, está afastado dos entes como tais e, em particular, do ser da existência (portanto, de si mesmo), esse modo de ser-movido caracteriza o movimento da fuga da existência diante de si mesma.

17. Com a caracterização desse fator de “fuga” da existência, revela-se um fenômeno básico da existência, que se designa “a distorção”, sendo inerente a esse fenômeno o fato de que o ser no sentido da existência não é caracterizado por uma estrutura como “algo se relaciona com algo”, [ou] “eu me comporto para com” um objeto.

18. Esse fenômeno básico da distorção, um fenômeno básico há muito determinado como reflexão, é aqui visto concretamente, e, de fato, em termos de uma antecipação da estrutura do ser da existência como tal.

** c) Facticidade, ameaça, estranheza, cotidianidade **

19. No que diz respeito à situação básica concreta, importa manter em vista o fundamento para o desenvolvimento e a caracterização ulteriores do movimento do cuidado com a certeza como fuga da existência diante de si mesma por meio do ocultar.

20. Ao se olhar mais de perto o fenômeno da fuga da existência diante de si mesma ao modo do ocultar, tal como o sentido da existência é interpretado nessa fuga do ser diante de si mesmo, torna-se evidente que a existência é do tipo que resiste a si mesma.

21. Se agora se coloca a questão do que é aquilo contra que a existência se defende e do que seja de fato a ameaça diante da qual a existência foge, toma-se o índice para a consideração a partir da direção da fuga e do modo de ser do fugir.