2 Panta

A Relação entre o Raio e τὰ πάντα e a Rejeição da Tradução de Diels

1. A dificuldade em explicar a locução τὰ πάντα, evitando propositalmente o termo “conceito” para não sugerir uma terminologia heraclítica, mostrou que o raio, como luz que irrompe e fogo na fase da momentaneidade, traz τὰ πάντα à manifestação, delineia cada coisa em sua figura e dirige a movimentação e a mudança de tudo o que pertence a τὰ πάντα, sendo o raio o que governa e não uma autorregulação imanente, distinguindo-se, portanto, como o Uno da totalidade múltipla.

A Dimensão do Pensamento de Heráclito e a Abordagem dos Fragmentos

2. Os fragmentos de Heráclito, embora vinculados à linguagem popular, ressoam em múltiplas dimensões, e o esforço da interpretação deve visar alcançar a dimensão exigida por ele, questionando até que ponto se pode tornar visível essa dimensão a partir do próprio pensamento, sendo a filosofia compelida a mostrar justamente através do dizer (Sagen), em oposição ao velho provérbio chinês de que “uma vez mostrado é melhor que cem vezes dito”.

Relações com o Conhecimento Humano e a Distinção entre os Fragmentos

3. Enquanto no fragmento 1 os πάντα são vistos em sua relação com o λόγος, que não é humano, no fragmento 7 eles são abordados em sua relação com o conhecimento humano (γνῶσις), e o διαγνῶναι é um indício de que os πάντα são caracterizados como distinguíveis, embora ainda não como já distinguidos; a pergunta sobre se o ser-ente (ὄντα) dos πάντα é uma qualidade necessária para o conhecimento que distingue é respondida afirmativamente, mas com a ressalva de que ὄντα não é uma qualidade.

A Unidade como Unificante e a Relação com o Fragmento 29

4. A tradução impensada de “de tudo um e de um tudo” é criticada porque o ἕν não é um “um” separado que nada teria a ver com os πάντα, mas é o que unifica, podendo ser ilustrado pela unidade de um elemento, desde que se retorne ao Uno do raio, que em seu esplendor reúne e unifica a totalidade dos múltiplos em sua diferença; essa noção de ἕν perpassa toda a filosofia até a apercepção transcendental de Kant.

A Visão Cósmica, o Fragmento 30 e a Problemática da Transmissão

5. O fragmento 30, “κόσμον τόνδε, τὸν αὐτὸν ἁπάντων” (“este mundo, o mesmo para todos”), direciona o olhar para a relação entre πάντα e κόσμος, onde ἁπάντων é traduzido como “para a totalidade dos πάντα”, e a discussão sobre a autenticidade da expressão τὸν αὐτὸν ἁπάντων leva à menção do trabalho de Karl Reinhardt, que descobriu que a expressão πῦρ ἀείζωον no contexto do fragmento 64 é autenticamente heraclítica; a citação de Reinhardt destaca a dificuldade de identificar palavras desconhecidas de Heráclito entre os padres da igreja e de reconhecer a fama de uma palavra célebre.

O Papel do Polemos e a Consideração dos Fragmentos 100 e 102

6. O fragmento 53, “Πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστι, πάντων δὲ βασιλεύς” (“Guerra é de todas as coisas pai, de todas rei”), estabelece que os πάντα são colocados em relação ao πόλεμος, que é pai e rei de todas as coisas, revelando a uns como deuses e a outros como homens, uns como escravos e outros como livres; o fragmento 80 já havia antecipado essa relação ao falar de ἔρις (discórdia), mas aqui a guerra é o que instaura as diferenças e posições no ente.

O σοφόν como Separado e a Conclusão sobre a Fragwürdigkeit

7. O fragmento 108, “σοφόν ἐστι πάντων κεχωρισμένον” (“o sábio é separado de todas as coisas”), apresenta o σοφόν não apenas como uma determinação do ἕν, mas como o próprio ἕν que se mantém separado dos πάντα e, no entanto, os abrange, sendo a interpretação de Karl Jaspers de que esse “separado” indica a transcendência como o “completamente outro” considerada totalmente equivocada por Heidegger.