TEMPO E SER

Resumo em tópicos

1. A contemplação demorada diante de duas obras tardias de Paul Klee, a aquarela Santa através de um Vitral e a têmpera Morte e Fogo, exige o abandono de qualquer vontade de compreensão imediata.

2. A recitação do poema Canto Setendrio da Morte, de Georg Trakl, mereceria ser ouvida muitas vezes, com igual abandono da vontade de compreensão imediata.

3. Uma exposição de Heisenberg sobre física teórica, a caminho da fórmula absoluta do mundo, seria acompanhada apenas por poucos ouvintes, restando aos demais abandonar sem objeção a compreensão imediata.

4. Da Filosofia espera-se a sabedoria universal ou uma diretiva para a vida eterna, mas o pensamento pode ter chegado a uma encruzilhada que exige considerações distantes de uma pragmática sabedoria da vida, o que também impõe o abandono da compreensão imediata e, não obstante, um escutar atento a algo incontornável, ainda que provisório.

5. O escândalo da maioria dos ouvintes diante desta conferência não constitui surpresa nem espanto.

6. Permanece indecidido se esta conferência será capaz de levar, agora ou mais tarde, um que outro a uma reflexão mais duradoura.

7. Trata-se de pensar o ser sem levar em consideração a questão de uma fundamentação do ser a partir do ente, pois somente assim se abrem propriamente os olhos para o ser daquilo que está ao redor do globo terrestre, e para a relação do homem com o que até hoje se denominou ser.

8. Não importa ouvir uma série de frases que enunciam algo; importa acompanhar a marcha de um mostrar.

9. Tempo e ser são nomeados juntos porque ser significa, desde a aurora do pensamento ocidental-europeu, o mesmo que presentar (Anwesen); de dentro do presentar e da presença fala o presente, que constitui, segundo a representação corrente, a característica do tempo junto com o passado e o futuro, determinando o ser enquanto presença pelo tempo — situação que já basta para levar contínua inquietação ao interior do pensamento.

10. O tempo se nomeia quando se diz que cada coisa tem seu tempo: cada ente vem e vai em tempo oportuno e permanece durante o tempo que lhe é concedido.

11. O ser não é uma coisa nem se encontra no tempo como cada ente singular.

12. O temporal (das Zeitliche) é o que passa com o tempo, ainda que o tempo mesmo, ao passar constantemente, permaneça — permanecer que significa não desaparecer, portanto, presentar-se.

13. Ser não é coisa, por conseguinte nada de temporal, mas é determinado como presença através do tempo.

14. Tempo não é coisa, por conseguinte nada de entitativo, mas permanece constante em seu passar, sem ser nada de temporal como o é o ente no tempo.

15. Ser e tempo determinam-se mutuamente sem que aquele possa ser abordado como temporal, nem este como entitativo, circunvagando-se em enunciações contraditórias.

16. O exame conveniente do estado de coisas nomeado por Ser e Tempo, Tempo e Ser, exige meditar cautelosamente as coisas aqui mencionadas, refletindo cuidadosamente sobre elas sem atacá-las precipitadamente com representações não examinadas.

17. Ser e tempo não são coisas no sentido de algo entitativo; a palavra coisa designa aqui aquilo que está em questão em sentido eminente, na medida em que nela se esconde algo inelutável — ser e tempo, uma questão, provavelmente a questão do pensamento.

18. Do ente diz-se que ele é; quanto às questões ser e tempo, permanece-se cauteloso: não se diz ser é, tempo é, mas dá-se ser e dá-se tempo, modificando-se primeiro apenas um uso de linguagem.

19. Para progredir da expressão verbal em direção à questão, é preciso demonstrar como se experimenta e vê este dá-se, investigando o Se que dá — ser e tempo — e grafando-o com maiúscula.

20. Medita-se primeiro sobre o ser, depois sobre o tempo, para pená-los a eles mesmos no que lhes é próprio, mostrando-se então como se dá ser e como se dá tempo, e como se determina o dar que os mantém reunidos.

21. Ser, pelo qual é assinalado todo ente singular, significa presentar; pensado do ponto de vista do que se presenta, o presentar mostra-se como presentificar, o qual leva para o desvelamento, isto é, desvelar, levar ao aberto — no desvelar está em jogo um dar que dá o presentar, isto é, ser.

22. A meditação sobre a questão ser exige obedecer à orientação que se mostra no presentificar, o qual faz aparecer o desocultar; do interior deste fala um dar, um dá-Se.

23. O dar a que se refere permanece ainda tão obscuro quanto o Se, citado, que dá.

24. Pensar o ser propriamente exige afastar os olhos do ser enquanto explorado e explicitado a partir do ente, como seu fundamento, tal como faz toda a metafísica, abandonando-se o ser como fundamento do ente em favor do dar que joga velado no desvelar, isto é, em favor do dá-Se; ser, como dom deste dá-Se, faz parte do dar-se, não é expulso do dar, permanece incluído no dar como seu dom — ser não é, ser dá-Se como o desocultar do presentar.

25. O dá-Se ser mostra-se com mais precisão ao meditar-se sobre a profusão de transformações daquilo que muito indeterminadamente se designa ser, desconhecido em seu mais próprio quando tomado como o mais vazio dos conceitos — representação não abandonada, mas apenas confirmada, mesmo quando o ser é sobressumido, como o abstrato enquanto tal, no concreto enquanto tal da realidade do espírito absoluto, tal como realizado na dialética especulativa de Hegel e exposto em sua Ciência da Lógica.

26. A tentativa de meditar sobre a profusão de transformações do ser conquista seu primeiro apoio orientador ao pensar-se ser no sentido de presentar.

27. Pensar, e não apenas repetir, é o que importa, como se a interpretação de ser como presentar se compreendesse por si mesma.

28. A justificativa para caracterizar o ser como presentar já decidiu-se há muito, sem intervenção ou mérito próprios, recebendo sua legitimação dos inícios do desvelamento do ser como algo dizível e pensável, mantendo-se toda a dicção de ser e é, desde os gregos, na lembrança dessa determinação — validade que se estende, em certo sentido, ao pensamento que conduz a técnica moderna e a indústria.

29. O presentar percebe-se em cada reflexão suficientemente livre de preconceitos sobre a pura subsistência e disponibilidade do ente, modos ambos de presentar, cuja amplitude se mostra de modo mais premente quando se considera que também o au-sentar é determinado pelo presentar, por vezes atingindo as raias do estranho.

30. A profusão de transformações verifica-se historiograficamente no presentar manifestando-se, nos primórdios, como o hen, o logos, a idéa, ousia, energeia, actualitas, perceptio, mônada, objetividade, formalidade do impor-se da vontade, da razão, do amor, do espírito, do poder, vontade de vontade, eterno retorno do mesmo; o ser, porém, não possui história como uma cidade ou um povo, e seu caráter historial determina-se a partir da maneira como o ser se dá.

31. No começo do desvelamento do ser pensa-se realmente ser, einai, eon, mas não o dá-Se, como no dito de Parmênides: esti gar einai, é, a saber, ser.

32. O esti gar einai de Parmênides, já observado na Carta sobre o Humanismo (1947), continua ainda hoje impensado.

33. O esti acentuado no dito de Parmênides não pode representar o ser como algo entitativo; por trás dele oculta-se o poder (ser capaz) do ser, tão impensado quanto o Se que pode (o) ser — poder (o) ser significa produzir e dar ser, e no esti está oculto o Se dá.

34. O dar que somente dá seu dom e a si mesmo, retendo-se e subtraindo-se nisto mesmo, chama-se destinar (Geschick); o ser que Se dá é, assim, o que foi destinado, e cada ato de suas transformações permanece destinado.

35. História do ser significa destino do ser, retendo-se tanto o destinar quanto o Se que destina na manifestação de si mesmos — reter-se, em grego epoché, dá o nome de época ao traço fundamental do destinar, constante retenção de si em favor da possibilidade de perceber o dom; a sucessão das épocas não é casual nem calculável como necessária, encobrindo-se estas em sua sucessão de modo que a destinação inicial de ser como presença é cada vez mais encoberta.

36. Somente o desfazer destes encobrimentos, denominado destruição, garante ao pensamento um lance de olhos provisório àquilo que se desvela como destino do ser; o único caminho possível é pensar previamente, a partir do que Ser e Tempo expõe sobre a destruição da doutrina ontológica do ser do ente, o pensamento posterior que trata do destino do ser.

37. As determinações do ser como idéa e koinonía das ideias em Platão, energeia em Aristóteles, posição em Kant, Conceito absoluto em Hegel, Vontade de Poder em Nietzsche não são doutrinas produzidas ao acaso, mas palavras do ser que respondem a um apelo do destinar que a si mesmo oculta, falando no Se dá ser.

38. O Se que dá ser, marcado por um caráter temporal ainda não determinado, cresce em conjectura a partir da palavra tempo que aparece no título Tempo e Ser.

39. Segue-se esta conjectura meditando-se sobre o tempo, conhecido, tal como o ser, através de representações correntes, e igualmente desconhecido tão logo se empreenda a discussão do que lhe é próprio.

40. A comunicação “com a presença de muitos convivas celebrou-se a festa” ilustra o presente no sentido de presença dos convivas, distinto do presente pensado a partir do agora, pois jamais se diz “no agora de numerosos convivas celebrou-se a festa”.

41. Ao nomear-se isoladamente o presente, pensa-se já em passado e futuro, o antes e o depois, à diferença do agora.

42. A caracterização do tempo a partir do presente compreende-o comumente como o agora, à diferença do não-mais-agora do passado e do ainda-não-agora do futuro; Aristóteles diz que aquilo que do tempo é, é cada agora, sendo passado e futuro um me òn ti — Kant afirma que o tempo tem apenas uma dimensão, e o tempo calculado parece imediatamente à mão quando se toma o relógio na mão.

43. Em parte alguma do relógio, nem no mostrador nem no mecanismo, encontra-se o tempo, nem nos cronômetros da técnica moderna; quanto maior a perfeição técnica de medição, menor a oportunidade para meditar sobre o que é próprio do tempo.

44. O tempo, sem dúvida, não é nada, razão pela qual se diz cautelosamente dá-se tempo, distinguindo-se o presente como presença do presente como agora, que de maneira alguma pode ser determinado a partir deste.

45. Presentar significa demorar, exigindo-se que se perceba, no demorar como aproximar-se pelo durar, o permanecer e o durar permanecendo — presente quer dizer demorar-se ao encontro dos homens.

46. Determinar o que caracteriza o homem enquanto homem depende daquilo que se presença, ele mesmo, à sua maneira, a tudo que se presença e ausenta, a partir da abordagem pela presença.

47. O homem está postado no interior da abordagem pela presença de tal modo que recebe como dom o presentar que dá-Se, percebendo o que aparece no presentificar; não fosse ele o constante destinatário deste dom, o homem não seria homem.

48. A referência ao homem, ainda que pareça desviar do caminho de meditar sobre o próprio do tempo, aproxima-se mais da questão que se chama tempo, a qual deve mostrar-se propriamente a partir do presente como presença.

49. Presença significa o constante permanecer que se endereça ao homem, que o alcança e é alcançado, interrogando-se de onde vem este alcançar ao qual pertence o presente como presença.

50. O presentar de tudo que se presenta sempre aborda o homem, tanto quanto o ausentar, e aquilo que já não se presenta se presenta à sua própria maneira no que foi, alcançando-se presentar no que foi.

51. O ausentar endereça-se também no sentido do ainda-não-presente, ao modo do vir-ao-nosso-encontro; dizer que o futuro já começou não corresponde à situação, pois o futuro jamais começa primeiro, já sempre abordando de algum modo, alcançando-se presentar no futuro.

52. No ausentar, seja o que foi, seja o futuro, encontra-se uma maneira de presentar que não coincide com o presentar no sentido do presente imediato: nem todo presentar é necessariamente presente, coisa estranha, encontrando-se também tal presentar no próprio presente.

53. O jogo de alcançar-nos o presentar, no presente, no passado e no futuro, repousa no fato de que advir alcança e traz, ao mesmo tempo, presente, atribuindo-se ao recíproco alcançar-se de futuro, passado e presente, sua própria unidade, um caráter temporal.

54. Não corresponde à realidade objetiva dizer que futuro, passado e presente subsistem simultaneamente, pois o tempo mesmo não é nada de temporal nem entitativo; fazem, porém, parte de uma unidade em seu recíproco alcançar-se, no qual se alcançam a si mesmos, isto é, o presentar neles alcançado — ilumina-se assim o espaço-de-tempo (Zeit-Raum), já não no sentido da distância entre dois pontos de agoras do tempo calculado, mas como o aberto que se ilumina no recíproco alcançar-se de futuro, passado e presente, aberto pré-espacial que delimita o espaço vulgarmente conhecido.

55. O espaço de tempo vulgarmente entendido como distância entre dois pontos é resultado do cálculo do tempo, através do qual o tempo, representado como linha unidimensional, é medido por números tomados de empréstimo da representação do espaço tridimensional.

56. Antes de qualquer cálculo, no iluminado alcançar-se recíproco de futuro, passado e presente repousa o elemento próprio do espaço-de-tempo do tempo autêntico, ao qual pertence, com risco de mal-entendido, uma dimensão, um diâmetro, que repousa no alcançar iluminador em que o futuro traz o passado, o passado o futuro, e sua relação mútua a clareira do aberto.

57. Pensado a partir deste tríplice alcançar, o tempo autêntico mostra-se como tridimensional, não no sentido da circunscrição da possível medição, mas como o alcançar iluminador que permite delimitar e representar tal circunscrição.

58. A unidade das três dimensões do tempo autêntico, de seus três modos de alcançar o presentar próprio a cada uma, repousa no proporcionar-se cada uma à outra, o que se mostra como o autêntico no alcançar, portanto, como uma quarta dimensão efetivamente real.

59. O tempo é quadridimensional.

60. Aquilo que, na enumeração, se chama quarta dimensão é, de acordo com a realidade, a primeira: o alcançar que a tudo determina, produzindo no porvir, no passado e no presente o presentar próprio a cada um, mantendo-os separados pelo iluminar e reciprocamente unidos na proximidade — a este alcançar originário chama-se proximidade que aproxima (Nahheit), a qual aproxima futuro, passado e presente enquanto os afasta, mantendo o que foi aberto ao recusar seu porvir como presente, e o advento retido no presente, tendo assim caráter de recusa e retenção.

61. O tempo não é, dá-Se o tempo; o dar que dá tempo determina-se a partir da proximidade que recusa e retém, garantindo o aberto do espaço-de-tempo — denomina-se este dar alcançar que ilumina e oculta, ocultando-se nele o dar de um dar.

62. Já não se pode perguntar por um onde, por um lugar do tempo, pois o próprio tempo autêntico, âmbito de seu tríplice alcançar, é o lugar pré-espacial que condiciona todo possível onde.

63. A Filosofia sempre perguntou pela localização do tempo calculado como fluir da sucessão de agoras, associando-o à psyché, ao anima, à alma, à consciência, ao espírito; interroga-se o sentido deste “não-sem” e se o homem é doador ou destinatário do tempo, e como o recebe.

64. O tempo autêntico, proximidade unificante do tríplice alcançar iluminador de presença a partir do presente, do passado e do futuro, já alcançou o homem enquanto tal, de modo que ele só pode ser homem estando colocado nesse tríplice alcançar; o tempo não é obra do homem, nem o homem obra do tempo — não há aqui um obrar, há apenas o dar.

65. O risco de tomar o Se enigmático como uma força indeterminada é evitado atendo-se às determinações do dar já mostradas a partir da visão do ser como presença e do tempo como âmbito do alcançar da clareira: o dar no dá-Se ser revelou-se como destinar e destino de presença em suas transformações epocais, e o dar no dá-Se tempo mostrou-se como o alcançar iluminador do âmbito quadridimensional.

66. No ser como presença anuncia-se algo semelhante ao tempo, reforçando-se a conjectura de que o tempo autêntico, quádruplo alcançar do aberto, seria o Se que dá ser, presentar — conjectura confirmada pelo fato de o ausentar também se manifestar como modo de presentar, tanto no que foi quanto no vir-ao-nosso-encontro.

67. O tempo autêntico aparece, com isto, como o Se nomeado em dá-Se ser, repousando o destino em que Se dá ser no alcançar do tempo; contudo, o tempo mesmo não é o Se que dá ser, permanecendo o dom de um dá-se cujo dar protege o âmbito em que é alcançada presença, e é aconselhável determinar o Se a partir do dar já caracterizado como destinar e alcançar.

68. A perplexidade talvez decorra apenas de induzimento em erro pela interpretação gramatical da língua, que fixa hipoteticamente um Se que teria função de dar sem enquanto tal existir.

69. Ao dizer-se dá-Se ser, dá-Se tempo, não se trata de enunciados sobre o ente, ainda que a estrutura proposicional transmitida pelos gramáticos greco-romanos verse exclusivamente sobre o ente; considera-se, contudo, a possibilidade de que tal dizer, contra toda aparência, não se fixe na relação sujeito-predicado, penetrando-se no que nele se expressa como Se ao pensá-lo a partir da espécie de dar que dele faz parte: o dar como destino, o dar como alcançar iluminador, ambos parte de uma unidade em que aquele repousa neste.

70. No destinar do destino do ser, no alcançar do tempo, mostra-se um apropriar-se, trans-propriar-se, do ser como presença e do tempo como âmbito do aberto, no interior daquilo que lhes é próprio; aquilo que determina a ambos, tempo e ser, o lugar que lhes é próprio, denomina-se das Ereignis, o acontecimento-apropriação.

71. Aquilo que vincula as duas questões mutuamente, que as conduz ao interior daquilo que lhes é próprio e as conserva em sua comum-unidade, a relação de ambas, o estado de coisas, é o Ereignis; este estado de coisas faz com que ser e tempo primeiramente aconteçam a partir de sua relação, através do acontecer apropriador que se oculta no destino e no alcançar iluminador — assim se manifesta o Se que dá, no dá-Se ser, dá-Se tempo, como o Ereignis, ainda que a afirmação, certa, seja inveridica, ao representar-se o estado de coisas como algo que se presença.

72. Responder significa o dizer que corresponde ao estado de coisas a ser pensado, isto é, ao Ereignis; proibindo-se de falar dele ao modo de uma enunciação, resta ou confessar a impotência de pensar adequadamente o que aqui deve sê-lo, ou renunciar não apenas à resposta mas à própria pergunta.

73. Com a questão que é o Ereignis exige-se uma informação sobre o ser do Ereignis; mas, pertencendo o ser mesmo ao Ereignis e recebendo dele sua determinação de presença, regride-se, com a questão, até aquilo que primeiramente exige sua determinação — o ser a partir do tempo, mostrado como destinar que repousa no alcançar iluminador, o qual, por sua vez, repousa no acontecer apropriador.

74. Do já dito decorre, de certo modo, como o Ereignis não deve ser pensado: não guiado pela semântica ordinária, que o compreende no sentido de acontecimento e fato, e não a partir do apropriar como o alcançar e destinar iluminador e protetor.

75. A proclamação recente da pretendida unificação da Comunidade Econômica Europeia como acontecimento europeu de significação histórica universal exemplifica esse uso ordinário, aplicável ao ser mesmo, dado que sem ele ente algum é capaz de ser, podendo assim o ser ser apresentado como o mais alto e significativo acontecimento.

76. A única intenção desta conferência visa ao exame do próprio ser enquanto o Ereignis; nesta mesma direção deve ser pensado também o insignificante e sempre capcioso, porque plurivoco, enquanto (als).

77. Abandonar a significação ordinária de Ereignis em favor do sentido anunciado no destinar da presença e no alcançar iluminador do espaço-de-tempo ainda deixa indeterminado o falar do ser enquanto Ereignis: pensado a partir do ente, tal como idéa, energeia, actualitas, vontade, o ser enquanto Ereignis significaria uma explicação derivada, continuação da metafísica, na qual o Ereignis seria uma espécie de ser subordinado a este.

78. Pensando-se ser no sentido de presentar e presentificar, dados no destino que repousa no alcançar iluminador-velador do tempo autêntico, o ser faz parte do acontecer apropriador, dele recebendo o dar e seu dom sua determinação; o ser é, assim, uma espécie de Ereignis, e não o Ereignis uma espécie de ser — refúgio numa inversão que falsearia o verdadeiro estado de coisas — de modo que ser desaparece no Ereignis.

79. Ao acontecer apropriador pertence a retração (Entzug), mostrada já no destinar como suspensão e na recusa e retenção do alcançar do tempo; residindo destinar e alcançar no acontecer apropriador, a retração deve fazer parte do que lhe é específico, análise que não cabe a esta conferência.

80. Aponta-se, com brevidade insuficiente para uma conferência, o elemento específico do Ereignis.

81. O destinar no destino do ser caracteriza-se como um dar em que aquilo que destina retém-se a si mesmo e, nesta suspensão, subtrai-se à desocultação.

82. No tempo autêntico e seu espaço-de-tempo, mostra-se, no alcançar do que foi, a recusa deste, e, no alcançar do futuro, a retenção deste; recusa e retenção revelam o mesmo traço de subtração que a suspensão no destinar.

83. Residindo o destino do ser no alcançar do tempo, e ambos no Ereignis, manifesta-se no acontecimento-apropriador o elemento específico de subtrair o que lhe é mais próprio ao desvelamento sem limites, isto é, de des-apropriar-se — do Ereignis enquanto tal faz parte a Enteignis, o não-acontecer desapropriador, através do qual o Ereignis não se abandona, mas guarda sua propriedade.

84. O outro elemento específico do Ereignis vislumbra-se na abordagem que aborda os homens no ser como presentar, de tal modo que, no perceber e assumir esta abordagem, alcança-se o que é específico do ser homem, assumir que reside no in-sistir no âmbito do alcançar do tempo autêntico quadridimensional.

85. Residindo ser e tempo apenas no acontecer apropriador, este leva o homem, como aquele que percebe ser, in-sistindo no tempo autêntico, ao interior do que lhe é próprio; assim apropriado, o homem pertence ao Ereignis.

86. Este pertencer reside na reapropriação (Übereignung) que caracteriza o Ereignis, pela qual o homem está entregue ao seu âmbito, sendo por isso impossível colocar o Ereignis diante de si, nem como oposição, nem como totalidade abarcadora — razão pela qual o pensamento representativo e fundamentador corresponde tão pouco ao Ereignis quanto o dizer simples de enunciados.

87. Sendo tempo e ser, enquanto dons do acontecer apropriador, pensáveis apenas a partir deste, também a relação do espaço com o Ereignis deve ser pensada de maneira correspondente, o que exige antes ter visto claramente a origem do espaço a partir do lugar suficientemente pensado, remetendo-se a Construir, Morar, Pensar.

88. A tentativa do §70 de Ser e Tempo, de reduzir a espacialidade do ser-aí à temporalidade, não pode mais ser sustentada.

89. Chegou-se, por esta via, a algo mais que puros pensamentos fantasiosos, afastando-se a suspeita de que o Ereignis devesse ser algo entitativo: o Ereignis nem é, nem se dá, e dizer um ou outro distorceria o estado de coisas, como fazer a fonte derivar do rio.

90. Resta apenas dizer que o Ereignis acontece-apropria, dizendo-se com isto, a partir do mesmo, para o mesmo, o mesmo — dito que nada diz enquanto ouvido como simples proposição entregue ao interrogatório da lógica, mas que, assumido incansavelmente como fulcro para a reflexão, revela-se o mais antigo da Antiguidade do pensamento ocidental, oculto no nome de aletheia, através do qual fala um laço que liga todo pensamento submetido ao apelo do que deve ser pensado.

91. Tratou-se de pensar o ser, passando pela análise do tempo autêntico naquilo que lhe é mais próprio, a partir do Ereignis, sem levar em consideração a relação do ser com o ente, isto é, sem a metafísica, cuja consideração impera ainda mesmo na intenção de superá-la — razão pela qual convém abandonar a ideia de superação da metafísica e deixá-la a si mesma.

92. Se alguma superação permanece necessária, interessa apenas o pensamento que propriamente se insere no Ereignis, para dizê-lo a partir dele e em direção a ele.

93. Trata-se de superar incansavelmente os empecilhos que tão facilmente tornam insuficiente um tal dizer.

94. Permanece um empecilho de tal natureza também o dizer algo do Ereignis ao modo de uma conferência, a qual apenas falou por proposições enunciativas.