Esclarecimento mútuo

Aus der Erfahrung Denkens (1910-1976) [1983]

CAMINHOS PARA O ESCLARECIMENTO MÚTUO (WEGE ZUR AUSSPRACHE)

1. O espanto recorrente sobre a dificuldade de “entendimento” (Verständigung) entre franceses e alemães, bem como a convicção frequente de sua impossibilidade, podem persistir justamente porque não há clareza sobre o que “entendimento” pode e deve significar nesse contexto.

2. O autêntico compreender-se (Sichverstehen) entre povos começa e se consuma na reflexão (Besinnung) sobre o que lhes é histórica e conjuntamente dado e atribuído, reflexão na qual cada povo retorna ao que lhe é próprio (Eigene) e nele se estabiliza com maior clareza e decisão, sendo que o mais próprio de um povo é o criar que lhe foi destinado, pelo qual ele cresce para além de si mesmo em direção à sua missão histórica (Sendung) e assim chega a si mesmo.

3. O entendimento em sentido próprio é a coragem superior de reconhecer o que é próprio do outro a partir de uma necessidade abrangente; nunca é o embaraço de uma fraqueza, mas pressupõe o orgulho verdadeiro (wahrhafter Stolz) dos povos, distinto da vaidade, como a decisão consolidada de manter-se no próprio rango essencial, que provém da tarefa assumida.

4. Na maioria das vezes, conhece-se apenas o entendimento impróprio (uneigentliche Verständigung), que chega apenas a um acordo temporário e a uma conciliação ocasional de reivindicações e prestações vigentes, permanecendo sempre superficial e cheio de reservas ocultas e abertas; embora em certas situações seja inevitável e tenha sua utilidade condicionada, falta-lhe a força histórico-criadora do verdadeiro compreender-se, que transforma reciprocamente os que se compreendem e os aproxima do que lhes é mais próprio, ao mesmo tempo o mais certo e o mais oculto.

5. O verdadeiro compreender-se é o oposto da renúncia à própria maneira de ser e da bajulação sem firmeza, caracterizando-se também por nunca se deixar calcular de imediato em termos de sucesso e resultados fixos, pois não produz a tranquilização que degenera em indiferença mútua, mas é, em si mesmo, a inquietude do recíproco colocar-se em questão (Sich-in-die-Frage-Stellen) a partir da preocupação (Sorge) com as tarefas históricas comuns.

6. Esse entendimento deve ocorrer em todas as áreas da criação dos povos, por múltiplos caminhos e com diferentes ritmos, abrangendo tanto o conhecimento e a estima do cotidiano mais simples quanto o pressentimento e a compreensão das disposições e sentimentos fundamentais (Grundhaltungen und Grundstimmungen) abissais e, na maioria das vezes, imediatamente indizíveis, que ganham sua forma determinante e sua força arrebatadora na grande poesia, nas artes plásticas e no pensamento essencial (filosofia) de um povo.

7. O autêntico compreender-se, especialmente nessas áreas, parece sujeito a uma objeção que paralisaria todo esforço: o compreender-se nessas áreas é “praticamente” inútil, sendo a reflexão recíproca sobre as posições filosóficas próprias algo restrito a poucos – julgamento que se baseia não apenas numa representação insuficiente da essência do entendimento, mas também numa representação errônea e corrente da essência da filosofia (Philosophie).

8. A peculiaridade do opinar comum e do pensar “prático” leva necessariamente a uma dupla avaliação equivocada da filosofia: superestimação (Überschätzung), quando se espera de seu pensar um efeito imediatamente proveitoso, e subestimação (Unterschätzung), quando se acredita reencontrar em seus conceitos apenas “abstrações” do que já foi assegurado pela experiência prática.

9. A filosofia é o saber imediatamente inútil, mas senhorial (herrschaftliche Wissen), acerca da essência das coisas, permanecendo a essência do ente sempre o mais digno de ser questionado (das Fragwürdigste); por lutar incessantemente apenas pela dignificação desse mais digno de questionamento e por nunca produzir “resultados”, ela permanece estranha ao pensar orientado para o cálculo, a utilização e a aprendizagem, enquanto as ciências, na aparência pública, detêm e representam o “saber”, consumando-se precisamente nelas e por meio delas o mais agudo estranhamento em relação à filosofia e a pretensa comprovação de sua dispensabilidade.

10. Se um verdadeiro compreender-se nas posições filosóficas fundamentais tem êxito, e se a força e a vontade para isso são reciprocamente despertadas, eleva-se o saber senhorial a uma nova altura e clareza, preparando-se uma transformação invisível dos povos; para indicar que ainda há possibilidades inapreendidas, os dois reinos que se sobressaem e se subjazem mutuamente são a natureza (Natur) e a história (Geschichte), sendo o homem o lugar, o guardião, a testemunha e o conformador da contracorrente desses reinos.

11. A reflexão atribuída aos povos num verdadeiro compreender-se filosofante seria completamente mal compreendida se alguém se contentasse com constatações externas e delimitações de propriedades existentes do pensamento francês em contraste com o alemão, ou se iniciasse uma “compreensão” com isso – tal procedimento seria sempre uma evasão das questões essenciais sobre as próprias coisas a serem decididas e, sobretudo, uma fuga diante da tarefa mais difícil: a de preparar um âmbito de decidibilidade e indecidibilidade das questões.

12. Tampouco se pode esperar que, à maneira da troca de resultados nas ciências, as questões e conceitos fundamentais filosóficos sejam reciprocamente assumidos e complementados – o compreender-se é também aqui, e aqui primeiramente, um combate (Kampf) do recíproco colocar-se em questão, e somente o confronto (Auseinandersetzung) coloca cada um no que lhe é mais próprio, se for travado diante do desenraizamento (Entwurzelung) do Ocidente, cuja superação exige o empenho de todo povo com força criadora.

13. A forma fundamental do confronto é o diálogo recíproco efetivo (wirkliche Wechselgespräch) dos próprios criadores num encontro de vizinhança, e apenas uma literatura que tenha suas raízes nesse esclarecimento mútuo (Aussprache) pode estar segura de desenvolver ainda mais o compreender-se e conferir-lhe um cunho duradouro.

14. Ao refletir sobre a possível grandeza e as medidas da “cultura” ocidental, lembra-se imediatamente o mundo histórico da Grécia antiga, esquecendo-se facilmente de que os gregos não se tornaram o que são através de um isolamento em seu “espaço”, mas que, pela força do mais agudo e criador confronto (Auseinandersetzung) com o que lhes era mais estranho e difícil – o asiático –, esse povo cresceu para a breve trajetória de sua singularidade e grandeza históricas.

15. Ao situar a existência histórica dos dois povos vizinhos no horizonte das reflexões que visam a uma renovação da estrutura fundamental do ser ocidental, abre-se para sua vizinhança o espaço próprio em sua mais ampla extensão; se os povos quiserem adentrá-lo, isto é, configurá-lo criadoramente, então as duas condições fundamentais do verdadeiro compreender-se devem estar claras diante dos olhos internos: a longa vontade de escutar um ao outro (lange Wille zum Aufeinanderhören) e a coragem contida para a própria determinação (verhaltene Mut zur eigenen Bestimmung) – aquela não se deixa enganar nem enfraquecer pelos resultados fugazes de um entendimento impróprio, e esta torna os que se compreendem certos de si mesmos e, assim, abertos ao outro.