HEIDEGGER, Martin. O Princípio do Fundamento. Tr. Jorge Telles Menezes. Lisboa: Instituto Piaget, 1999, SEXTA AULA.
[…] O pensamento é um acolher que tem em vista. No pensamento desvanece-se-nos o ouvir e ver habituais, porque o pensamento nos leva para um acolher e um ter em vista. Estes são preceitos estranhos e no entanto apenas muito antigos. Quando Platão nomeia aquilo que no ente constitui o que é próprio como ἰδέα o rosto do ente e aquilo por nós tido à vista, quando ainda mais remotamente Heráclito nomeia aquilo que no ente constitui o que é próprio como λόγος, o dito do ente, ao qual nós condizemos no ouvir, então ambos nos exprimem que o pensamento é um ouvir e um ver.
Nós somos contudo perspicazes para esclarecermos: um ouvir e ver apenas num sentido figurado podem significar o pensamento. De facto. Aquilo que é escutado e tido em vista no pensamento não se deixa ouvir com os nossos ouvidos, nem ver com os nossos olhos. Isso não é percepcionável através dos nossos órgãos dos sentidos. Se tomarmos o pensamento como um modo de ouvir e ver, então o ouvir e o ver sensíveis serão assumidos e levados para o outro lado, para o domínio da percepção não sensorial, isto é, do pensamento. Este transporte para o outro lado significa em Grego: μεταφέρειν. A linguagem erudita nomeia uma tal transcrição [15] como metáfora. O pensamento pode com isso apenas ser referido no sentido metafórico, transcrito, como um ouvir e escutar, um olhar e ter em vista. Quem diz aqui «pode»? Aquele que pretende que o ouvir com o ouvido e o ver com a vista são o próprio ouvir e ver.
O modo como nós percepcionamos algo no ouvir e no ver, ocorre através dos sentidos, ele é sensorial. Estes apuramentos são correctos. Eles permanecem todavia não verdadeiros porque eles deixam de fora algo essencial. É certo que nós ouvimos uma fuga de Bach através dos ouvidos, contudo se o que é ouvido aqui apenas fosse aquilo que como onda acústica percute no tímpano, então nunca poderíamos ouvir uma fuga de Bach. Nós ouvimos, não o ouvido. Nós ouvimos sem dúvida através do ouvido, mas não com o ouvido, quando «com» aqui significa que o ouvido, como órgão dos sentidos, é aquilo que nos fornece o que é ouvido. Por essa razão, se o ouvido se torna insensível, isto é, surdo, então pode ser que, como o caso de Beethoven demonstra, um homem ouça apesar disso, talvez até ainda ouça mais e mais grandiosamente do que antes. De passagem, note-se que, «surdo», «ingênuo» (tumb) significam tanto como insensível, motivo pelo qual o mesmo ingênuo em Grego pode regressar na palavra τυφλός, isto é, ingênuo na vista, portanto cego.
Aquilo que é ouvido em dado momento por nós, nunca se esgota naquilo que o nosso ouvido recebe como um órgão dos sentidos, de certo modo isolado de um modo especial. Falando mais exactamente: quando nós ouvimos, não apenas acresce algo ao que o ouvido recebe mas o que o ouvido percebe e como ele o percebe, já é afinado e determinado por aquilo que nós ouvimos, mesmo que seja apenas a abelheira, o pisco e a cotovia que nós ouvimos. O nosso órgão auditivo é decerto numa certa perspectiva necessário, mas nunca a condição suficiente para o nosso ouvir, aquilo que nos oferece e garante o que propriamente é para-ser-percebido.
O mesmo é válido para a nossa vista e o nosso ver. Se o ver humano ficasse limitado àquilo que é dirigido para a vista como sensação sobre a retina, então, por exemplo, os Gregos nunca teriam podido ver Apolo numa estátua de um adolescente, ou melhor dito, em Apolo e através dele, a estátua. Para os antigos pensadores gregos havia um pensamento familiar, que de um modo [16] excessivamente grosseiro se poderia apresentar assim: o igual apenas é reconhecido pelo igual. Isto pretende significar: aquilo que se nos atribui é apenas perceptível através do nosso corresponder(-lhe). O nosso perceber é em si um corresponder. Goethe refere-se na introdução ao seu «Farbenlehre» (Teoria das Cores) àquele pensamento grego e consequentemente eu gostaria de expressá-lo em rimas alemãs:
«Se a vista não fosse solar,
Como poderíamos ter a luz em vista?
Se não vivesse em nós de Deus a própria força,
Como nos poderia o divino debitar?»
Parece que até hoje ainda não reflectimos o suficiente sobre em que é que consiste a solaridade da vista e onde é que a própria força de Deus se baseia em nós; em que medida é que ambos se relacionam e dão a indicação de um ser do homem pensado mais profundamente, o qual é o ser pensante.
Mas aqui é suficiente a seguinte reflexão. Porque o nosso ouvir e ver nunca são um simples receber sensível, permanece por isso também inexacto pretender que o pensar, enquanto escutar e ter em vista, seja apenas entendido como transcrição, ou seja como transcrição do hipoteticamente sensível no não-sensível. A representação de «transcrever» e da metáfora apoia-se na diferenciação, se não mesmo na divisão do sensível e do não-sensível como dois domínios existentes por si próprios. A colocação desta separação do sensível e do não-sensível, do físico e do não-físico é uma característica fundamental daquilo que se chama Metafísica e que define determinantemente o pensamento ocidental. Com a visão de que a mencionada diferenciação do sensível e do não-sensível permanece insuficiente, a Metafísica perde a categoria de um modo de pensamento determinante.
Com a visão dos limites da Metafísica também caduca a concepção determinante da «metáfora». Ela dá a medida para a nossa representação do ser da língua. Por isso a metáfora serve como meio auxiliar de uso frequente na interpretação das obras da Poesia e das artes visuais em geral. O metafórico existe apenas no interior da Metafísica.