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A filosofia científica atravessa um despertar metafísico que vai além do mero enfoque epistemológico: a ênfase nas questões de teoria do conhecimento, embora legítima, impede que as questões filosóficas sobre fins últimos alcancem sua significação própria.
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Toda ciência é uma interconexão coerente de cognições organizadas em princípios; o que é válido não é o ato psíquico do pesquisador, mas o conteúdo do juízo, e cada ciência considerada em sua completude é uma matriz autossuficiente de sentido válido.
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O método de pesquisa de cada ciência é determinado pelo seu objeto e pelo ponto de vista a partir do qual esse objeto é examinado; a teoria da ciência tem por tarefa refletir sobre a estrutura lógica dos conceitos básicos que orientam esses métodos.
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O caminho adotado para compreender o conceito de tempo na ciência da história parte do objetivo dessa ciência, passa pela função que o conceito de tempo exerce dentro dela e chega à sua estrutura lógica.
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O objetivo da física, de Galileu à física moderna, é a redução de todos os fenômenos às leis matemáticas básicas da dinâmica geral, expressa em equações que estabelecem relações universais e reguladas entre os processos de movimento.
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O método de Galileu instaura uma ruptura com a filosofia da natureza antiga e medieval ao partir de uma hipótese matemática geral sobre corpos em movimento e verificá-la experimentalmente, em vez de abstrair a essência dos fenômenos observados individualmente.
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Na física, o tempo funciona como condição de possibilidade para a determinação matemática do movimento: as coordenadas de posição de um ponto material são expressas como funções do tempo, e o tempo é pressuposto como variável independente que flui uniformemente.
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Para ser medido, o tempo tem de ser cortado em segmentos, o que congela seu fluxo e o converte em uma série homogênea de pontos quantitativamente determináveis — uma escala, um parâmetro.
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A teoria da relatividade não altera esse caráter fundamental do conceito de tempo na física: ela se ocupa do problema da medição do tempo, e ao tratar o tempo como quarta dimensão em uma geometria não euclidiana, confirma ao mais alto grau seu caráter homogêneo e matematicamente determinável.
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A simples determinação temporal de um evento — como “a fome em Fulda no ano 750” — pode transformar um conceito universalizado em conceito histórico, o que revela que há uma estrutura particular do tempo em operação na ciência da história, diferente da estrutura física.
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O objeto da ciência da história é a objetivação do espírito humano no fluxo do tempo — as realizações intelectuais e materiais que expressam o desdobramento da ideia de cultura —, consideradas em sua singularidade e unicidade.
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A seleção do que se torna “histórico” depende do interesse que o presente tem nos efeitos e desdobramentos de certos eventos passados, o que significa que todo objeto histórico é determinado por sua relação com valores culturais.
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O objeto histórico, enquanto tal, é sempre passado e não mais existe; uma distância temporal separa o historiador do passado, e superar essa distância, vivendo a partir do presente em direção ao passado, é condição para a representação científica da história.
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A garantia da autenticidade das fontes históricas — pela crítica diplomática, jurídico-histórica e cultural — depende essencialmente do conceito de tempo: a época de origem de um documento determina seu valor como testemunho, e anacronismos revelam falsificações.
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A interpretação dos fatos históricos em seu contexto — como a análise de Troeltsch sobre
Agostinho como conclusão da Antiguidade cristã — mostra que o conceito de tempo organiza qualitativamente os períodos históricos segundo as tendências dominantes de cada época.
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O tempo histórico não possui a homogeneidade do tempo físico: os períodos históricos se sucedem, mas cada um é qualitativamente distinto em seu conteúdo estrutural, sendo o fator qualitativo a cristalização de uma objetivação da vida dentro da história.
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As datas históricas não têm valor como quantidades em si mesmas, mas apenas como indicadores de um conteúdo historicamente significativo; os pontos de partida dos sistemas de cômputo do tempo são sempre eventos historicamente relevantes, o que manifesta o princípio fundamental da formação de conceitos na história: a relação com um valor.
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Reconhecer a diferença estrutural entre o conceito de tempo na história e na física permite à teoria da ciência fundamentar teoricamente a ciência histórica como posição intelectual original e irredutível a qualquer outra ciência.