ZAHAVI, Dan. Exploring the self: philosophical and psychopathological perspectives on self-experience. Amsterdam: J. Benjamins publ, 2000.
** O elo: Filosofia — Psicopatologia — Fenomenologia **
1. A aparente independência entre filosofia e psicopatologia torna-se insustentável quando se considera que reflexões filosóficas sobre consciência, mente e si mesmo podem ampliar a compreensão psiquiátrica dos casos patológicos, enquanto as perturbações psicopatológicas podem, reciprocamente, oferecer à filosofia fenômenos concretos capazes de testar e aprofundar suas análises, relação já defendida por Karl Jaspers no início do século XX.
2. A relação entre os dois campos pode ser examinada inicialmente a partir da contribuição da filosofia para a psicopatologia, depois mediante a contribuição inversa da psicopatologia para a filosofia e, por fim, pela consideração da fenomenologia como tradição particularmente adequada para mediar esse diálogo.
** 1. A importância da filosofia para a psicopatologia **
3. A psicopatologia constituiu-se historicamente em estreita relação com o desenvolvimento da psiquiatria clínica desde a segunda metade do século XIX e, embora por sua origem médica mantenha fronteiras com genética, epidemiologia, neurobiologia, neurociência, neuropsicologia e psicologias experimental e do desenvolvimento, também conserva afinidades decisivas com disciplinas humanas como sociologia e filosofia.
4. A necessidade de um quadro conceitual unificado torna particularmente relevante a relação entre filosofia e psicopatologia, cuja importância se mostra ainda mais nítida no contexto contemporâneo e pode ser compreendida por meio da história das tentativas de unificação e da avaliação de seu significado atual.
5. A psicopatologia pode ser compreendida, em sentido geral, como estudo empírico e teórico de experiências, expressões e ações anômalas, destinado a descrevê-las, tipificá-las e compreendê-las, tarefa para a qual Jaspers considerava a filosofia um instrumento indispensável.
6. A familiaridade do psiquiatra com métodos e perspectivas filosóficas e das ciências humanas deveria favorecer uma atitude intelectual curiosa e sofisticada, resistente à especulação banal, à construção teórica dogmática e a toda forma de absolutismo.
7. A Psicopatologia Geral estabeleceu uma primeira descrição sistemática dos fenômenos mentais anômalos em contraste com o pano de fundo correspondente da experiência normal, integrando descrições fenomenológicas da experiência subjetiva, análises dos distúrbios da expressão (Ausdruckspsychologie), análises dos distúrbios de desempenho (Leistungspsychologie), conceitos filosóficos fundamentais para a psiquiatria e uma avaliação crítica das teorias e evidências biológicas, psicológicas e sociológicas pertinentes.
8. A influência internacional da Psicopatologia Geral permaneceu limitada, sobretudo na França, onde uma tradição clínica descritiva e orientada para casos demonstrava desconfiança em relação à teorização alemã e às classificações abstratas, embora Eugène Minkowski tenha assimilado criticamente Jaspers, a fenomenologia e a filosofia de Bergson e produzido uma das análises mais importantes da esquizofrenia ao reinterpretar o autismo esquizofrênico como perda do “contato vital”, isto é, como perturbação do fluxo intencional pré-reflexivo.
9. O Tratado das alucinações de Henri Ey, publicado em 1973, constituiu uma contrapartida francesa tardia à Psicopatologia Geral, pois, apesar do título restritivo, apresentou uma descrição sistemática da experiência subjetiva anômala em geral, articulando material clínico, fenomenologia, filosofia da mente e modelos neurocientíficos contemporâneos.
10. A tradução inglesa da Psicopatologia Geral surgiu apenas cinquenta anos depois da edição alemã original e permaneceu praticamente ignorada nos Estados Unidos, enquanto encontrou recepção significativamente maior na psiquiatria britânica, onde havia maior familiaridade com a literatura psiquiátrica continental.
11. Apesar de limitações históricas e da conservação acrítica de alguns conceitos herdados da psiquiatria do século XIX, a Psicopatologia Geral nunca teve explorado internacionalmente seu potencial para fornecer uma base comum ao discurso psicopatológico, sendo amplamente negligenciados tanto suas descrições sofisticadas de experiências patológicas particulares quanto o princípio metodológico jaspersiano de descrever fielmente, “a partir de dentro”, a experiência anômala.
12. A psicopatologia contemporânea, considerada em sua corrente internacional dominante, apresenta-se fragmentada a tal ponto que se torna legítimo questionar se ainda constitui um campo verdadeiramente unificado.
13. Um requisito mínimo da psicopatologia consiste em possuir um quadro conceitual capaz de apreender os fenômenos da experiência e do comportamento, precisamente onde a filosofia pode oferecer contribuição decisiva, pois a psiquiatria contemporânea revela especial pobreza terminológica para tratar fenomenologicamente a perspectiva de primeira pessoa e frequentemente substitui uma análise explícita da consciência por pressupostos ingênuo-realistas e de senso comum.
14. Três domínios fundamentais atravessam e talvez fundamentem toda a psicopatologia contemporânea e permanecem suficientemente irresolvidos para exigir auxílio filosófico: o acesso intersubjetivo à experiência do paciente, a estrutura da subjetividade e da perspectiva de primeira pessoa e a questão da causalidade mental e da relação mente-cérebro.
15. A insuficiência conceitual da psicopatologia contemporânea produz um discurso híbrido no qual descrições clínicas são misturadas com conceitos funcionalistas, neurocientíficos e cognitivistas, incluindo referências frequentes a processos computacionais subpessoais hipotéticos situados entre os níveis neural e fenomenal, situação exemplificada pela definição da ilusão delirante como falsa crença pessoal resultante de inferência incorreta sobre a realidade externa.
16. Desenvolvimentos mais recentes oferecem sinais promissores de reintegração de conceitos filosóficos à psiquiatria, como as coletâneas organizadas por Spitzer e colaboradores, os volumes de Graham e Stephens e de Sadler, Wiggins e Schwartz, a análise de Bolton e Hill sobre filosofia analítica e psicopatologia e os Princípios de psicopatologia de Cutting, que recuperaram parte das análises conceituais ausentes.
17. A psiquiatria não enfrenta apenas problemas factuais e empíricos, pois sua própria prática classificatória pressupõe conceitos filosóficos como realidade, racionalidade, identidade pessoal, tempo, espaço, mente e si mesmo, de maneira que a filosofia pode simultaneamente oferecer um quadro mais sofisticado para descrever experiência e existência e exercer uma função crítica contra reificações injustificadas, cientificismo, reducionismo e compromissos teóricos ocultos.
** 2. A importância da psicopatologia para a filosofia **
18. A contribuição da psicopatologia para a filosofia também pode ser distinguida em uma dimensão crítica, capaz de testar e desafiar análises filosóficas, e uma dimensão positiva, capaz de revelar estruturas fundamentais da experiência e da existência.
19. A procura por contraexemplos constitui um método filosófico tradicional para testar a validade de análises universalizantes, e muitas vezes a possibilidade imaginada de uma exceção é tomada como indicação de possibilidade conceitual ou metafísica suficiente para limitar a validade de determinada tese.
20. A filosofia contemporânea, especialmente a filosofia analítica da mente, recorre abundantemente a experimentos de pensamento envolvendo zumbis, transplantes cerebrais, Terras Gêmeas, teletransporte e outros cenários destinados a testar pressupostos sobre consciência, relação mente-corpo e identidade pessoal.
21. A inferência direta da imaginabilidade para a possibilidade metafísica é filosoficamente problemática, pois a capacidade de representar mentalmente um cenário pode refletir não uma possibilidade genuína, mas apenas ignorância acerca das condições que o tornariam impossível.
22. Experimentos de pensamento só podem possuir valor filosófico se forem conduzidos com rigor comparável ao dos experimentos científicos, exigindo clareza quanto às condições de fundo, identificação precisa das variáveis alteradas e conhecimento suficientemente desenvolvido do fenômeno investigado para impedir que uma situação apenas aparentemente imaginável seja tomada por possibilidade efetiva.
23. Imaginar uma vela queimando no vácuo ou uma barra de ouro flutuando sobre a água não basta para demonstrar a existência de mundos possíveis nos quais essas situações ocorram conservando intactas todas as propriedades relevantes, pois é necessário distinguir fantasias vagamente concebidas de cenários rigorosamente pensados e, consequentemente, diferenciar imaginabilidade aparente de imaginabilidade real e possibilidade aparente de possibilidade genuína.
24. Diante da quantidade de condições que um experimento de pensamento precisa satisfazer para ser conclusivo, fenômenos extraordinários efetivamente encontrados no mundo podem fornecer testes conceituais mais confiáveis do que ficções, pois seus contextos são conhecidos e sua existência real elimina o risco de que o caso utilizado como contraexemplo esconda uma impossibilidade lógica ou metafísica.
25. Casos excepcionais continuam indispensáveis para impedir que regularidades meramente acidentais sejam confundidas com estruturas profundas da realidade, mas fenômenos psicopatológicos reais podem cumprir essa função crítica de maneira mais fecunda do que fantasias extremas, ao desafiar diretamente pressupostos consolidados acerca da unidade da mente, da privacidade da experiência, da agência e da afetividade.
26. Fenômenos patológicos não são, entretanto, filosoficamente transparentes, pois sua interpretação depende normalmente do quadro teórico adotado, e por isso suas consequências para uma determinada teoria não podem ser extraídas automaticamente de sua simples existência empírica.
27. Permanece igualmente em aberto qual importância filosófica deve ser atribuída aos fenômenos anômalos, pois estes podem ser considerados casos marginais que confirmam uma regra geral ou, de maneira mais radical, variações capazes de mostrar que a normalidade tomada como ponto de partida constitui apenas uma possibilidade entre outras.
28. Ainda que não seja necessário exigir que uma teoria filosófica explique completamente todos os fenômenos desviantes, torna-se inaceitável descartá-los por serem patológicos ou empíricos, pois qualquer teoria satisfatória deve ao menos permanecer compatível com sua existência e ser capaz de acomodá-los sem negar implicitamente sua possibilidade.
29. A psicopatologia não desempenha apenas função crítica ao desafiar lugares-comuns filosóficos, mas também contribuição positiva ao permitir que distorções patológicas revelem, por contraste, as estruturas elementares dos modos normais de experiência e existência que habitualmente permanecem despercebidas por sua própria familiaridade.
** 3. A contribuição da fenomenologia **
30. A fenomenologia mostra-se particularmente apta a funcionar como interlocutora filosófica da psiquiatria porque uma compreensão adequada de transtornos como despersonalização, perplexidade ou compulsão exige, antes de qualquer explicação causal, reconstruir sua dimensão experiencial e levar a sério a perspectiva de primeira pessoa.
31. O problema já aparece na própria classificação nosográfica, pois a psicopatologia operacionalista define transtornos segundo combinações de critérios explícitos e tende a ignorar a prototipicidade vinculada aos aspectos essenciais de cada perturbação, entrando em conflito com os processos efetivos de reconhecimento clínico e prejudicando a investigação etiológica.
32. A descrição rigorosa da experiência vivida constitui precisamente uma das tarefas centrais da fenomenologia, que procura apreender os fenômenos tal como se apresentam na experiência e, em etapas posteriores, investigar as condições dessa experiência e seus modos de constituição, desenvolvendo métodos destinados a proteger a descrição contra preconceitos teóricos e pressupostos de senso comum que poderiam deformá-la.
33. A relevância fenomenológica torna-se ainda mais evidente quando se consideram categorias experienciais profundamente afetadas por diferentes transtornos psicopatológicos, como a estrutura do tempo e do espaço, a delimitação entre si mesmo e não-si mesmo, a experiência do corpo próprio, a unidade e identidade do si mesmo e a natureza da intersubjetividade, temas sobre os quais a fenomenologia acumulou análises capazes de auxiliar a compreensão clínica da experiência dos pacientes.
34. A própria fenomenologia, contudo, precisa superar a tendência de restringir-se à exegese textual de autores clássicos e estabelecer diálogo crítico com filosofia analítica, ciência cognitiva e ciências do comportamento, sem abandonar a riqueza de Husserl, Merleau-Ponty e outros representantes de sua tradição.
35. A filosofia analítica da mente apresenta sinais promissores de aproximação ao recuperar como problemas filosoficamente legítimos a subjetividade, a consciência fenomenal e o si mesmo, reconhecendo progressivamente que a maneira como a experiência é vivida pelo próprio sujeito constitui dimensão indispensável para uma ciência da consciência e que a perspectiva de primeira pessoa exige métodos disciplinados e formas sofisticadas de descrição.
36. Outro desenvolvimento favorável ocorre entre filósofos formados na tradição analítica e influenciados por Kant, Wittgenstein, P. F. Strawson, Gibson e Evans, que passaram a mobilizar recursos das ciências cognitivas, psicopatologia, neurologia e psicologia do desenvolvimento e chegaram a conclusões sobre corporeidade, relação entre percepção externa e propriocepção e formas pré-linguísticas de compreensão surpreendentemente próximas de posições fenomenológicas.
37. O aprofundamento da comunicação entre fenomenologia, filosofia analítica e ciências empíricas pode fornecer à psicopatologia e à pesquisa psiquiátrica os recursos conceituais de que necessitam para superar a fragmentação teórica, compreender com maior precisão a experiência subjetiva e articular descrição fenomenológica, reflexão filosófica e investigação científica sem reducionismos indevidos.