PESSOA E ATO

Karol Wojtyla — Pessoa e Ato

Professor de filosofia moral, Karol Wojtyla se aprofundou na reflexão do “agir humano”. Tomado em seu dinamismo, o ato (praxis) esclarece o sentido da existência, a significação da cultura, o destino da sociedade. O homem se constitui como pessoa não por suas ideias mas em sua ação, sua decisão, sua libre escolha e projeto, em meios as suas solidariedades inter-humanas. O que se denomina comumente a experiência humana surge da conjunção dinâmica de uma pessoa e de seu agir.

Nesta obra se renova o debate entre Max_Scheler e Kant, onde as forças vivas da tradição cristã se integram em uma nova visão; a pessoa e seu agir qualificado é a rocha contra a qual vêm se bater os empreendimentos totalitários das potências que buscam a destruir e desintegrar o humano.

O conceito de pessoa em ato proposto por Wojtyla provém de seus trabalhos sobre o pensamento de Scheler, especialmente sua Wertethik (O formalismo em ética e a ética material dos valores). Segundo o autor, Scheler formou seu conceito de materiale Wertethik com o propósito de desafiar a ética a priori da pura forma, ou melhor, do puro dever, que, herdado de Kant, dominou todo o século XIX. A crítica de Scheler seguiria a linha traçada pelo mestre da Fenomenologia, Husserl, de quem foi discípulo, com base no princípio zurück zum Gegenstand (retorno ao objeto). Este debate fundamental, conduzido em nome do retorno àquilo que é objetivo em ética (e antes de tudo em moral), apresenta em sua raiz mesma o problema do sujeito, a saber, o problema da pessoa ou do ser humano como pessoa.

Para Wojtyla, este estudo deve tudo aos sistemas de metafísica, de antropologia e de ética aristotélico-tomistas, e por outro lado, à fenomenologia, sobretudo na interpretação de Scheler, e através de sua crítica a Kant. Ao mesmo tempo representa um esforço do autor para alcançar esta realidade que é o homem-pessoa visto através de seus atos…


Introdução

Primeira Parte — Consciência e Eficiência

Segunda parte — Transcendência da pessoa no ato

Terceira Parte — Integração da pessoa no ato

Quarta Parte — Participação

Conclusão


Prefácio

Agora que esta obra está prestes a sair do círculo restrito ao qual estava confinada até agora devido ao idioma em que foi originalmente redigida, gostaria de escrever um prefácio com algumas observações introdutórias.

Em primeiro lugar, por mais ousado que isso possa parecer nos dias de hoje — em que o pensamento filosófico não é apenas alimentado pela história e fundamentado nela, mas em que “filosofar” significa, muitas vezes, refletir sobre teorias que tratam de teorias —, a presente obra pretende representar um esforço pessoal do autor para desvendar as complexidades de uma situação crucial e esclarecer os elementos fundamentais dos problemas envolvidos. De fato, tentei abordar diretamente as questões fundamentais relativas à vida, à natureza e à existência do ser humano — com seus limites, mas também com seus privilégios —, tal como essas questões se apresentam ao homem que luta para sobreviver, mantendo ao mesmo tempo a dignidade do ser humano: o homem que estabelece para si mesmo objetivos e luta para alcançá-los, e que se vê dividido entre sua condição excessivamente limitada e suas mais elevadas aspirações de se afirmar como livre.

Essas lutas do ser humano encontram seu reflexo nas lutas do próprio autor, que tentou, na presente obra, desvendar o mecanismo subjacente às ações do homem, na medida em que esse mecanismo pode conduzi-lo às suas vitórias ou às suas derrotas; é somente dessa forma que a presente obra deve ser considerada. Que ela possa contribuir para esclarecer as questões conflitantes com as quais o homem se depara e que são cruciais para quem busca esclarecer por si mesmo sua existência e a direção de sua conduta.

Nossa abordagem choca-se de frente com outra corrente da filosofia moderna. Desde Descartes, o conhecimento sobre o homem e seu mundo tem sido identificado com a função cognitiva — como se apenas a cognição, especialmente por meio do autoconhecimento, pudesse revelar ao homem sua natureza e suas prerrogativas. E, no entanto, o homem revela-se a si mesmo ao pensar ou, antes, ao agir efetivamente em sua existência? — ao observar, interpretar, especular ou raciocinar (coisas suscetíveis de mudar, flexíveis na medida em que são atos, e muitas vezes vãs quando confrontadas com os fatos da realidade) ou, ao contrário, na própria confrontação, quando ele precisa assumir uma posição ativa em questões que exigem decisões vitais e que têm consequências e repercussões vitais? Na verdade, foi ao inverter a atitude pós-cartesiana em relação ao homem que iniciamos nosso estudo: abordando o homem por meio da ação.

Se levarmos em consideração o vasto campo de questões com as quais se depara o filósofo que busca uma nova abordagem da existência humana e que tenta aplicá-la, nossa obra, naturalmente, não pode ser, nesse ponto, senão um esboço excessivamente impreciso. Não ignoramos de forma alguma a literatura passada e presente que compartilha dessa abordagem, mas nos parece imperativo abordá-la à nossa maneira.

Embora seja reconhecida a relação do autor com o pensamento aristotélico tradicional, foi, no entanto, a obra de Max Scheler que exerceu a maior influência sobre sua reflexão. Em toda a minha concepção da pessoa, considerada por meio dos mecanismos de seus sistemas de atividade e suas variações, tal como é apresentada aqui, será possível, de fato, reconhecer o fundamento scheleriano estudado em minhas obras anteriores.

Em primeiro lugar, é a teoria dos valores de Scheler que entra em consideração. No entanto, nos dias de hoje, em que a diferenciação das questões relativas ao homem atingiu um ponto culminante — introduzindo as divisões mais artificiais no cerne das próprias questões —, é a unidade do ser humano que parece imperativo estudar. De fato, apesar dos esforços fundamentais de Scheler — e, nesse âmbito, geralmente fenomenológicos — que contribuem para o conhecimento do homem completo, essa unidade, tanto seu fundamento quanto sua manifestação primordial, ainda ausenta na concepção filosófica atual do homem — enquanto que, no pensamento aristotélico tradicional, era justamente a concepção do “ato humano” que era vista como a manifestação da unidade do homem, bem como sua fonte. Parece, portanto, que, ao introduzir aqui essa abordagem do homem por meio da ação, podemos encontrar as percepções e intuições necessárias sobre a unidade do ser humano.

E certamente não é necessário ressaltar a importância de uma pesquisa sobre os fatores unificadores do homem para uma visão atual da vida, da retidão de julgamento, da cultura e de suas perspectivas futuras.

É preciso mencionar ainda outro ponto. No intervalo que se passou entre a primeira edição da obra em polonês e a presente versão, a participação do autor na vida filosófica, bem como numerosas discussões filosóficas, contribuíram para esclarecer mais de um ponto. Houve, em primeiro lugar, as discussões com vários filósofos poloneses (publicadas na Analecta Cracoviensia 1973/74) — as discussões com a professora Anna-Teresa Tymieniecka, de Boston, foram, no entanto, as mais importantes para a presente publicação. Elas contribuíram para esclarecer diversos conceitos e, consequentemente, para aprimorar a apresentação da obra. Ao aceitar ser a editora filosófica desta obra, a professora A. T. Tymieniecka propôs alterações que foram incorporadas à versão definitiva com a plena aprovação do autor. O autor se alegra com o lançamento desta versão definitiva da obra na notável coleção Analecta Husserliana.

E, por último, mas não menos importante, gostaria de agradecer ao Sr. Andrezej Potocki, que traduziu para o inglês, com competência, grande cuidado e dedicação, esta obra polonesa de certa complexidade.

Cardeal Karol Wojtyla.