1. A relação entre antropologia e ética pode ser concebida, segundo procedimento matemático, à maneira da colocação de um termo fora do parêntese, elementos comuns a todos os demais e postos diante do parêntese apenas para facilitar as operações, sem rejeitar o que se coloca à frente nem romper seus vínculos com o que permanece dentro, evidenciando antes essa exclusão a presença e o significado do elemento destacado no conjunto da operação.
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O problema pessoa-ato, que permaneceria implícito na ética tradicional, pode assim aparecer mais plenamente considerando-se a ética como colocada diante do parêntese, tanto em sua realidade própria quanto na riquíssima realidade constituída pela moral humana.
3. Etapas da compreensão e linha de interpretação
A indução como apreensão da unidade de significação
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1. Estabelecida a apreensão da relação pessoa-ato, ou mais precisamente a apercepção da pessoa pelo ato, com base na experiência do homem, composta de inúmeros fatos entre os quais assumem importância particular os do tipo o homem age, por neles se efetuar a descoberta particular da pessoa através do ato, oferecendo tais fatos, além de sua multiplicidade quantitativa, a complexidade de serem dados exteriormente quanto aos demais homens e interiormente com base no próprio eu, constituindo a passagem dessa multiplicidade à apreensão de sua identidade fundamental obra da indução, entendida à maneira aristotélica como apreensão pelo espírito de unidade de significação na multiplicidade fenomenal, distintamente do que sustentam positivistas modernos como Mill, que nela veem já forma de demonstração.
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2. Ao tomar a experiência do homem a forma da apercepção da pessoa através de seu ato, concentra essa apercepção em si toda a simplicidade da experiência, tornando-se sua expressão, indo-se assim, sob o ângulo da apercepção da pessoa, da multiplicidade dos fatos experienciais à sua identidade — à afirmação de que em cada fato do tipo o homem age se compreende a mesma relação pessoa-ato —, equivalendo tal identidade, em qualidade, à unidade de significação, obra da indução, permanecendo, contudo, no plano da experiência, toda a riqueza e diversidade dos fatos, à qual o espírito continua aberto mesmo ao apreender sua unidade de significação.
A redução como meio de “exploração” da experiência
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1. Explica-se assim a necessidade, com a compreensão da relação pessoa-ato, de explicá-la e elucidá-la, abrindo a indução os caminhos da redução, nascendo o presente estudo justamente como expressão dessa necessidade de explicação, elucidação ou interpretação da rica realidade da pessoa dada, juntamente com seus atos e através deles, na experiência do homem, não se tratando de demonstrar que o homem é pessoa ou que sua ação é ato — já dado na experiência —, mas de elucidar mais completamente, com base em certa compreensão fundamental, a realidade da pessoa e do ato.
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2. Tal elucidação só se realiza mediante engajamento cada vez mais profundo na experiência e em seu próprio conteúdo, saindo assim pessoa e ato da sombra e expondo-se cada vez mais plena e completamente ao espírito que os conhece, constituindo a explicação, a compreensão redutiva, espécie de exploração da experiência, não devendo o termo redução ser mal entendido como diminuição ou limitação da riqueza do objeto experiencial, mas antes como colocação em evidência de modo coerente.
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3. À indução deve-se talvez, não tanto a objetivação, quanto a intersubjetivação essencial a este estudo, constituindo-se pessoa e ato em objeto que todos podem considerar independentemente da implicação subjetiva em que esse objeto se encontra ao menos parcialmente engajado, uma vez que parte importante da experiência do homem é constituída pela experiência do próprio eu, sendo a relação pessoa-ato, para cada um, antes de tudo vivência subjetiva, fato subjetivo, tematizado e problematizado pela indução, entrando então no domínio das investigações teóricas, constituindo, enquanto vivido, o que a tradição filosófica definiu pelo termo práxis, acompanhada de compreensão prática suficiente e necessária ao homem para viver e agir conscientemente.
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4. A linha de investigação e interpretação aqui escolhida passa pela retomada teórica dessa práxis, não se perguntando como agir conscientemente, mas o que é a ação consciente, isto é, o ato, e de que modo esse ato revela a pessoa e serve à sua plena compreensão, sendo necessário considerar também o momento relativo à práxis, ao conhecimento prático a que tradicionalmente se vinculou a ética, que apenas pressupõe a pessoa, tratando-se aqui, ao contrário, de sua colocação em evidência e interpretação.
Objetivo da interpretação: apreensão adequada das razões do objeto
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1. O presente estudo possui caráter de redução, não indicando esse termo limitação ou diminuição, mas significando reducere reconduzir às razões, aos fundamentos verdadeiros, isto é, explicar, elucidar, interpretar, avançando-se sempre mais além na sequência do objeto dado na experiência, segundo o modo como é dado, sem que a indução e a intersubjetivação da pessoa e do ato apaguem em nada essa riqueza e complexidade, que constituem, para o espírito em busca de razões verdadeiras, fonte inesgotável e auxílio constante.
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2. Não se trata de abstração, mas de penetrar na realidade realmente existente, devendo as razões que explicam essa realidade corresponder à experiência, sendo assim a redução, e não apenas a indução, imanente em relação à experiência, sem deixar de ser transcendente a ela, sendo em geral a compreensão imanente à experiência humana e, ao mesmo tempo, transcendente em relação a ela, não por ser a experiência ato ou processo sensível e a compreensão ordem intelectual, mas em razão do caráter essencial de uma e de outra.
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3. Na explicação ou interpretação trata-se de tornar a imagem intelectual do objeto adequada, igual ao objeto, isto é, capaz de apreender todas as suas razões, apreendendo-as corretamente e conservando entre elas sua proporção específica, dependendo em larga medida disso a justeza da interpretação, bem como sua dificuldade.
A concepção: expressão da compreensão e interpretação do objeto
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1. Reside também aí a dificuldade da concepção, entendida como expressão do próprio processo de compreensão, desde a apercepção inicial da pessoa no ato até sua interpretação completa, tratando-se não apenas da convicção íntima de que o homem agente é pessoa, mas de sua apresentação intelectual e linguística, de configuração exterior que a torne plenamente comunicável, formando-se tal concepção juntamente com a compreensão do objeto e assumindo as formas necessárias para que essa compreensão possa exprimir-se e ser comunicada a outros homens.
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2. A dificuldade da interpretação e da concepção do homem vincula-se à disparidade já assinalada na experiência do homem, e por conseguinte na apreensão da relação pessoa-ato a partir dela efetuada, devendo tal relação revelar-se de modo diverso a partir do eu próprio no campo da experiência interior e no campo da experiência exterior que abrange os demais homens, constituindo a integração conveniente dessas compreensões, decorrentes de tal disparidade, uma das tarefas principais deste estudo.
4. A concepção de pessoa e ato tal como se pretende apresentá-la neste estudo
Tentativas de restituição da subjetividade do homem
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1. Se a disparidade da experiência do homem, desde o início assinalada, cria dificuldade na interpretação e concepção do ser humano, deve reconhecer-se que ela abre também possibilidade particular e ampla perspectiva, revelando-se a pessoa, com base na experiência total do homem, através do ato justamente porque nessa experiência o homem é dado não só exteriormente, mas também interiormente, abrindo-se, ao ser dado não apenas como homem-sujeito mas também em toda a experiência de sua subjetividade enquanto eu, a possibilidade de interpretação do homem como objeto de nossa experiência que restitua, ao mesmo tempo, em sua verdadeira dimensão, a subjetividade do homem.
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2. A experiência do homem, com sua clivagem característica entre aspecto de interioridade e de exterioridade, parece estar na origem das grandes clivagens entre correntes principais do pensamento filosófico — corrente objetiva e corrente subjetiva, filosofia do ser e filosofia da consciência —, sendo contudo simplificação excessiva reconduzir essa divisão ao único duplo aspecto da experiência humana, devendo, do ponto de vista da pessoa e do ato que aqui se busca compreender com base na experiência do homem, ceder toda absolutização de um dos dois aspectos diante da necessidade de sua mútua relativização, o que decorre da própria essência dessa experiência.
O aspecto da consciência
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1. Não se pretendem conduzir as análises deste estudo apenas no plano da consciência, ainda que devam incluir o aspecto da consciência, sendo o ato, momento particular da apercepção da pessoa, não apenas conteúdo já constituído na consciência, mas realidade dinâmica que revela ao mesmo tempo a pessoa como seu próprio sujeito eficiente, sendo nesse sentido que se pretende considerar o ato em todas as análises deste estudo e através dele descobrir a pessoa.
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2. Revelando-se sempre através da consciência o ato e a pessoa cuja essência esse ato particularmente descobre, com base na experiência do homem e sobretudo na experiência interior, devem pessoa e ato ser considerados também sob o aspecto da consciência, sem que a razão pela qual o ato — actus personae — é ação consciente se reduza apenas a aparecer-nos sob esse aspecto.
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3. A primeira tarefa deste estudo consiste em examinar a relação recíproca entre consciência e eficiência da pessoa, isto é, entre consciência e aquilo que constitui a própria essência do dinamismo próprio do ato humano, penetrando no cerne dessa rica totalidade da experiência, onde se revela cada vez mais plenamente a pessoa através de seu ato, descobrindo-se a transcendência específica manifestada pela pessoa nesse mesmo ato, submetida a análise tão aprofundada quanto possível.
Transcendência e integração da pessoa
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1. A apercepção da transcendência da pessoa no ato constitui a forma principal da experiência a que remete toda esta concepção, encontrando-se nela a fonte fundamental da convicção de que o homem que age é verdadeiramente pessoa e de que sua ação constitui de fato actus personae, tratando-se aqui sobretudo de extrair da experiência do ato tudo o que testemunha o homem como pessoa.
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2. A intuição fundamental da transcendência da pessoa no ato permite perceber também o momento da integração da pessoa no ato, complementar à transcendência, sendo a integração condição essencial desta no conjunto estrutural da complexidade psicossomática do sujeito humano, reforçando tal aspecto complementar a convicção de que a categoria de pessoa e ato constitui a verdadeira expressão da unidade dinâmica do homem, fundada em unidade ôntica cujos elementos e problemas essenciais aqui apenas se aproximam, sem pretensão de esgotá-los, remetendo o último capítulo, Esboço de uma teoria da participação, a outra dimensão do fato o homem age que se impunha indicar, ainda que sem análise completa neste estudo.
Significado da problemática personalista
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1. O conjunto das pesquisas e análises deste estudo reflete a extrema atualidade da problemática personalista, cujo valor fundamental para todo homem e para a família humana em seu crescimento contínuo dificilmente se poderia negar, gerando a reflexão sobre as diversas linhas do desenvolvimento dessa família, e da cultura e civilização, com todas as desigualdades e dramas desse desenvolvimento, necessidade viva de cultivar filosofia da pessoa, parecendo que a multiplicidade dos esforços cognitivos dirigidos ao exterior deixa muito atrás de si a soma dos esforços e resultados que o homem concentra sobre si mesmo.
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2. Sendo o homem, como constatado, o primeiro, mais próximo e mais frequente objeto da experiência, expõe-se por isso mesmo ao desgaste do hábito, correndo o risco de tornar-se para si mesmo demasiado habitual, perigo que este estudo também nasce da necessidade de superar, nascendo do espanto perante o ser humano que constitui, como se sabe, o primeiro incitamento ao conhecer, tornando-se esse assombro sistema de perguntas e depois sistema de respostas e soluções, satisfazendo-se assim necessidade determinada da existência humana.
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3. Trata-se de atingir a realidade humana em seu ponto mais essencial, designado pela experiência do homem, do qual o homem não pode retirar-se sem sentir haver-se extraviado a si mesmo, não sendo este trabalho concebido à maneira de comentário nem de sistema, mas representando ensaio próprio de compreensão do objeto em questão, propondo-se encontrar, em suas análises, expressão sintética para a concepção de pessoa e ato, essencial a essa concepção parecendo ser sobretudo a busca de compreender a pessoa humana por ela mesma, respondendo ao desafio proposto pela experiência do homem em toda sua riqueza e pela problemática existencial do homem no mundo contemporâneo.