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A primeira deficiência tradicionalmente atribuída à via cartesiana é que a redução transcendental é apresentada como uma peneira que separa o “joio do bom grão”, sugerindo que algo é perdido (o mundo) e algo é retido (a consciência) como um resíduo.
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Husserl ameniza essa perda ao enfatizar que o mundo não se perde, uma vez que, como correlato intencional do cogito, ele é incluído no campo de investigação do fenomenólogo.
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As seções III e IV das Ideias I confirmam que a análise constitutiva se estende aos objetos transcendentes, pois, embora não façam parte da imanência real, são integrados à imanência pura.
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A crítica reside no fato de que o mundo é apreendido apenas como “fenômeno”, ou seja, como “representante subjetivo,” sugerindo que, reduzido ao seu status de phainomenon, ele seria despojado de seu sentido de transcendência, passando a ser considerado excluído.
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A deficiência não está em limitar-se à exploração da componente “realmente imanente” da consciência (o que seria insustentável, já que o caminho cartesiano reconhece a possibilidade de posicionar a existência de objetividades não realmente imanentes), mas em não explicitar a diferença entre o caráter realmente imanente de algumas objetividades e o caráter “transcendente” de outras, dentro do conjunto de todas as objetividades promovidas à dignidade da evidência descritiva.
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No caso das objetividades “transcendentes” intramundanas, a análise da correlação noético-noemática revela como é constituído seu caráter de objeto, mas não necessariamente como é constituído seu caráter de coisas, o qual exige mais do que o ato de doação-recepção, demandando a integração em um encadeamento de tais atos, ou seja, o desdobramento de uma “experiência.”
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A deficiência da via cartesiana paradoxalmente reside no fato de que as Ideias I não dão conta suficientemente do tipo particular de constituição das objetividades que se dão com um sentido de transcendência apenas mediante sua integração em uma experiência.
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Ao reduzir o mundo ao status de fenômeno, a via cartesiana pode levar à falsa ideia de que a epochè é provisória e que a doxa do mundo poderia ser recuperada após uma justificação adequada.
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Husserl adverte contra a tentação de conceber a epochè como meramente provisória, uma vez que o iniciante (no qual Husserl se inclui, reivindicando em sua maturidade o nome de “verdadeiro principiante”) é tentado a pensar que o momento em que se terá novamente experiência e pensamento no modo natural e se estará satisfeito com as ciências em seu modo natural acabará por retornar.
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Não se pode prejulgar que a redução transcendental deva ser guiada pela ideia de que a fé perceptiva deve ser restabelecida em seus direitos, pois tal perspectiva reduziria a epochè ao simples papel de esclarecimento das ambiguidades da fé perceptiva.
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O segundo aspecto da dificuldade não se refere mais ao mundo, mas ao status da consciência a ele relacionada.
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A redução, pensada como perda que faz surgir um resto ou resíduo, possui apenas um caráter restritivo e limitativo, e, portanto, não pode aspirar à universalidade, pois se limita à exclusão da região natureza e deixa intocada a região consciência.
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O § 49 das Ideias I chega a caracterizar a consciência absoluta como “resíduo do aniquilamento do mundo.”
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Embora Husserl afirme que “nada perdemos, mas ganhamos a totalidade do ser absoluto,” é difícil ver o todo do ser absoluto naquilo que é apenas um resíduo, ou seja, uma região ou parte do ser.
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Husserl reconhece na Krisis que a via cartesiana coloca em dúvida “o que se pôde ganhar por isso,” pois o que pode “restar” senão uma parte? E o que pode ser a consciência como parte, senão a parte psicológica do mundo?
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Husserl adverte: “Corre-se também o risco, como mostrou o modo como minhas 'Ideias' foram recebidas, de recair muito facilmente, e quase desde os primeiros começos, por uma tentação imediata e muito grande, na atitude natural.”
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O “salto” realizado na via cartesiana entrega um ego tão purificado que se torna um ego vazio, cuja única forma de preenchê-lo seria transpor para ele o conteúdo das análises realizadas sob o regime da atitude natural.