O conceito de correlação, já mencionado como traço do transcendentalismo (correlação de ser e pensar, de consciência e objeto), deve agora ser determinado em seu significado genuinamente transcendental-fenomenológico.
Da análise fenomenológica, considerada do ponto de vista sistematicamente fundamental, devem ser veiculados três níveis ou “esferas” fenomenológicas, cada uma com seu tipo de correlação.
O primeiro nível não é genuinamente fenomenológico: corresponde à “atitude natural”, na qual o que aparece é concebido como sendo-em-si, o que vale tanto para a consciência pré-filosófica como para a atitude das ciências naturais; o aspecto decisivo nesse nível é a tendência à objetivação.
O segundo nível, geralmente considerado o genuinamente fenomenológico, é o campo de pesquisa infinito da “subjetividade transcendental”, que se abre graças à epoché e à redução; a correlação aqui determinante é a “correlação noético-noemática”, que abrange os conteúdos de sentido dos objetos intencionais (noemata) e seus correlatos na consciência (noeses).
O terceiro nível é a esfera “pré-imanente” ou “pré-fenomenal” da consciência, aberta por
Husserl explicitamente em suas análises do tempo; aqui não se pode mais falar propriamente de “consciência”, pois nada imanente à consciência pode mais ser descrito, e “pré-fenomenalidade” significa “anonimato” radical – alguns fenomenólogos, como Jan
Patocka, introduzem aqui o conceito de “fenomenologia assujeitiva”.
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Nessa esfera, acessível pela construção fenomenológica, renuncia-se a todo desempenho constitutivo orientado pelo sujeito, e a “objetualidade” não é um ente pressuposto, mas apenas “polaridade” da relacionalidade pré-intencional precedente.
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Isso exige uma nova forma de redução fenomenológica – a “indução transcendental” – que o próprio
Husserl não mais elaborou.
Os eixos fundamentais do método fenomenológico são: a epoché e a redução, a variação eidética, a descrição fenomenológica e a construção fenomenológica.
Epoché e Redução
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O ponto de partida da pesquisa fenomenológica é necessariamente a “epoché” fenomenológica, que corresponde, de modo mais radical, à divisa da “ausência absoluta de pressupostos”: nenhuma decisão prévia deve ser tomada sobre o que pode ser considerado “ente”, “verdadeiro” etc., antes de resistir a toda crítica da investigação orientada para a fundamentação última radical.
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A pressuposição que tem precedência, tanto no plano ontológico quanto no gnoseológico, é aquela que diz respeito ao ser do mundo como totalidade do ente, segundo a qual o ente é dado “em si”, existindo independentemente de e fora de qualquer relacionalidade.
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Husserl aplica a isso o instrumento metódico fundamental da “epoché”, o que equivale a uma “desativação” ou “colocação entre parênteses” de toda “posição de ser” ou “tese de ser”.
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A abertura desse estado de “suspensão” não se separa, para
Husserl, de um segundo passo: o perceber que essa colocação radical entre parênteses de toda posição de ser abre a perspectiva da relacionalidade originária – e esse procedimento constitui a redução fenomenológica.
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A “reductio” deve ser entendida como “reconductio”, isto é, como um “reconduzir” (à relacionalidade transcendental, que abre a transcendência).
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Husserl privilegia a “consciência intencional” como polo subjetivo; outros, como Heidegger, compreendem essa relacionalidade originária menos como uma relacionalidade da consciência do que como uma ontológica.
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Na fenomenologia, uma insight decisiva de
Descartes é elevada a um nível reflexivamente mais alto:
Descartes vira o “Ego (cogito)” surgir como “fundamentum inconcussum” do conhecimento certo; na fenomenologia, a desativação rigorosa da tese de ser reconduz – de modo paralelo, mas radicalizado – à relacionalidade originária.
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Patocka explicitou a diferenciação entre epoché como desativação e redução como recondução à relacionalidade; em
Husserl, ambos os significados frequentemente coincidem.
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Marc
Richir elaborou uma extensão notável dessa relação: a redução fixa o que a epoché primeiro libertou; a epoché não consiste puramente de modo negativo em uma desativação, mas em uma abertura específica da dimensão de sentido “fluente” em contraste com a aparente fixidez das objetualidades “reais”; a redução aprofunda o peculiar “aquém” em face do “além” constituído por aquela abertura do fluir.
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A epoché “transcende” a positividade para fazer aparecer o que a faz “oscilar”, “vibrar”, “piscar”; a redução assume então a positividade (não do objetivo real, mas do genuinamente “fenomenológico”, que Heidegger chamou de “inaparente”) para tornar acessível a esfera do aquém, que é precisamente a do fenomenológico.
A Variação Eidética