(Richir1987)
Trata-se, portanto, para nós, por meio da redução fenomenológica radical que propomos, de considerar o fenômeno como relacionado exclusivamente à sua fenomenalidade, sendo que qualquer conceito já disponível ou qualquer conceito a priori é colocado entre parênteses, ou deixado de lado. Se distinguirmos, por meio da fenomenalização do fenômeno, aquilo em que e por meio do qual o fenômeno passa a parecer e a aparecer como fenômeno e nada mais que fenômeno, verifica-se que a consideração do fenômeno como relacionado exclusivamente à sua fenomenalidade coincide com o que denominamos problemática da fenomenalização. O fenômeno em sua fenomenalização nada mais é do que o fenômeno relacionado exclusivamente à sua fenomenalidade. Dessa forma, a fenomenalização do fenômeno é indissociável do pensamento da fenomenalização, com o seguinte — para nós, o problema fenomenológico último —: o pensamento da fenomenalização deve evitar, para usar uma linguagem kantiana, toda atividade julgadora determinante que pré-determinasse antecipadamente a essência do fenômeno em geral. Ainda na linguagem kantiana, isso significa que o pensamento da fenomenalização só pode ser uma atividade “julgadora” reflexiva, mas sem um conceito já disponível ou a priori (sem um conceito já dado de antemão), ou seja, uma atividade “julgadora” estética reflexiva. Nesse sentido, trata-se, para nós, de generalizar, no plano de uma fenomenologia transcendental, o que Kant havia limitado, na Crítica do Juízo, ao juízo estético reflexivo sobre o belo e o sublime (Para isso, nos referimos ao “momento” fenomenológico da terceira Crítica. Ver, a esse respeito, J. Taminiaux, “As tensões internas da Crítica do Julgamento”, em A nostalgia da Grécia no alvorecer do idealismo alemão, Nijhoff, Haia, 1967, pp. 31-71, e nosso estudo “A origem fenomenológica do pensamento” em *A liberdade do espírito*, n.º 7, Balland, Paris, pp. 63-107.)): pensar o fenômeno em sua fenomenalização é refletir sobre ele como tal, sem um conceito já disponível ou a priori, em sua fenomenalidade. Ora, essa reflexão estética sem conceito pré-estabelecido, como Kant demonstrou rigorosamente, requer a implementação de um esquematismo livre e produtivo, no qual a imaginação, em sua liberdade — como poder de constituir e reunir intuições —, é subsumida pelo entendimento em sua legalidade — como poder da unidade do que é compreendido no fenômeno: há, portanto, nesse esquematismo sem conceitos (determinados), uma união íntima entre uma diversidade já voltada para a unidade e uma unidade já aberta, ao mesmo tempo, à diversidade que nela acolhe. Assim, reconhecemos nele o que designaremos como esquematismo transcendental da fenomenalização, onde o pensamento (entendimento) e a sensibilidade (imaginação) são indiscerníveis, onde, portanto, a imaginação pensa e o pensamento imagina, onde, consequentemente, o pensamento se encontra imerso na fenomenalidade do fenômeno assim constituído.