assim, na concepção de ambas as fenomenologias observa-se a antiga oposição filosófica entre a primazia do intelecto ou da liberdade como constitutiva da natureza mais íntima do espírito humano, questão necessariamente ligada à fundamentação e natureza filosófica da história
-
Heidegger é filósofo da primazia da liberdade, e para ele a história não é um drama que se desenrola diante de nossos olhos mas realização responsável da relação que os humanos são; a história não é percepção mas responsabilidade
-
ele não entende a liberdade como liberum arbitrium nem como frouxidão na realização do dever, mas em primeiro lugar como liberdade de deixar o ser ser o que é, sem distorcê-lo, o que pressupõe não só compreensão do ser mas também um abalo do que é tomado à primeira vista como ser na cotidianidade ingênua
-
o desvelamento do ser é a experiência da qual a filosofia cresce como a tentativa sempre renovada de vida na verdade; a liberdade, no fim, é liberdade para a verdade, na forma do desvelamento do próprio ser, e não apenas do que existe
-
a liberdade não é um aspecto da natureza humana mas significa antes que o próprio Ser é finito, que vive no abalo de todas as “certezas” ingênuas que buscariam abrigo entre os entes para não terem de admitir que os humanos não têm outro lar senão esse ser livre e todo-revelador que por isso mesmo não pode “ser” como entes particulares são
-
o desvelamento do próprio Ser ocorre na filosofia e em seu questionamento mais primordial e radical, trazendo consigo mudança não só no alcance dos entes acessíveis mas no próprio mundo de uma época particular
desde a ascensão da filosofia, a história é, mais que qualquer outra coisa, essa história interior do mundo como ser, distinto do que existe mas apropriado a ele como o ser do que é
o que surpreende nessa oposição entre as duas filosofias de proceder fenomenológico é que, apesar da discrepância fundamental de seus pontos de partida — percepção de um lado, liberdade de outro —, ambas chegam à ideia do lugar central da filosofia na história, e como ambas entendem por filosofia a filosofia do Ocidente, ambas chegam à centralidade da Europa na história
a história não é inteligível sem responsabilidade livre, o que ambas as filosofias reconhecem; mas apenas uma vê a origem da responsabilidade na pureza da evidência, na subordinação da mera opinião à evidência, enquanto a outra a vê em não fechar os olhos à exigência de abrir caminho e espaço para a liberdade, para o ser presente libertado do esquecimento ordinário e superficial do mistério do ser do que é
de onde vem essa convergência da tese histórica dessas duas filosofias, tão diferentes em tudo o mais? provavelmente porque ambas são filosofias da verdade: a verdade é seu problema central, que não pretendem resolver a partir de proposições supostamente autoevidentes mas a partir de fenômenos, daquilo que se apresenta
-
uma delas vê a verdade como clareza perfeita que não conhece lugares obscuros, apenas questões suscetíveis de resposta, enquanto a outra, inspirada pela finitude do ser, está aberta ao eterno mistério do que existe, buscando preservar sua verdade fundamental precisamente nesse mistério — o desvelamento do ser do que é, ao qual pertence inevitavelmente seu ocultamento, como a expressão grega alētheia exprime
assim, em seu núcleo, a filosofia de Heidegger está tão intimamente ligada ao pensamento filosófico quanto a fenomenologia de
Husserl, sendo contudo mais adequada como ponto de partida para filosofar sobre a história, devido a partir da liberdade e da responsabilidade já no ser humano, não apenas no pensamento
-
em seu centro há problemas como o de escapar da queda nas coisas, no mundo, com que as filosofias contemporâneas dominantes da história estão profundamente comprometidas; como filosofia da liberdade finita e lembrança do que está acima do mundo, tornando-o possível, é aparentada ao idealismo, mas oferece fundamentação mais profunda e “realista” para o alcance histórico dos humanos por ser a única doutrina consistente capaz de explicar a autonomia do que existe contra todo tipo de subjetivismo
-
sobretudo, pode esclarecer a natureza da ação histórica e abrir os olhos para do que se trata a história; as reflexões seguintes buscarão explicitar diversos problemas da história antiga e contemporânea à luz de motivos dela retomados, cabendo apenas ao autor a responsabilidade por suas deduções