Um texto breve de 1942 situa o cruzamento dos caminhos do escritor e do filósofo, e os problemas de nosso tempo correspondem à leitura hegeliana da tragédia grega de
Sófocles no pano de fundo dos textos sobre a tragédia que abrem o volume O escritor, seu objeto por uma apreensão da temporalidade e da verdade próprias ao mito, primeira cristalização da linguagem enquanto clareira do mundo, e, com a passagem, no texto que dá título ao conjunto, à escrita dos escritores, e depois à leitura de obras particulares, tem início um entrecruzamento de linhas temáticas — o papel da arte no exame da alma em seu caminho rumo à verdade, a verdade da arte, a relação entre arte e fenômeno, a análise existencial, o destino espiritual da Europa e de sua ideia humanista —, em que o fio hegeliano ora se mostra mais, ora menos explícito, permanecendo confinado nas entrelinhas em O escritor, seu objeto, onde a definição da escrita como lembrete da totalidade da vida poderia contudo, ao deslocar o acento do individual para o universal, ser uma citação textual da Estética, mas revelando toda a amplitude de sua significação ao servir de marco da história da alma nos estudos sobre o Labirinto do mundo de Comênio e o Fausto de
Goethe, e de ideia diretriz da leitura de Tchékhov, presença que aparece plenamente na análise dos temas do tempo, da eternidade e da temporalidade no poeta romântico tcheco K. H. Mácha, texto que ao mesmo tempo retoma o mito de origem, ilustrando a persistência de sua polaridade até o presente, e abre caminho para o segundo volume; as estruturas evidenciadas por Patočka são as da temporalidade heideggeriana, mas é através de
Hegel que ele responderá, em A arte e o tempo, às duas questões que emergem na imersão do poeta até as fontes da fenomenalização do ente.