Um leitor atual notará que
Husserl se concentra exclusivamente, e claramente favorece, o Ocidente, não podendo ser facilmente descartada a acusação de eurocentrismo; ele considera, porém, alhures, que há outras tradições “principais” no factum do mundo, como a Índia ou a China, que também apresentam “tipos antropológicos” básicos, ainda que, em sua visão, inferiores ao Ocidente.
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Uma vez que tal tradição foi “primordialmente instituída” (urgestiftet), a história continua como decorrência de sedimentações, talvez levando a novas instituições (Neustiftungen) dentro dessa tradição, seja revitalizando o antigo (como no Renascimento europeu), seja inaugurando algo completamente novo, seja, como no Ocidente, caindo em profunda crise sobre o próprio sentido de sua ideia orientadora por volta do fim do século XIX.
Há, contudo, diferença crucial em relação à história dos problemas neokantiana: esta última historiografia vê cada pensador subsequente respondendo a questões deixadas em aberto pelos predecessores, resolvendo a pesquisa mais nova velhos problemas apenas para levantar novos, que ocupam a geração seguinte, na terminologia neokantiana de “dados” (Gaben) sendo “tarefas” (Aufgaben) para pesquisa ulterior e infinita; nessa historiografia cada pensador, à sua maneira, transcende suas contingências e se eleva ao reino das ideias puras, participando de uma conversa atemporal através dos milênios, continuando a conversa não para atingir um objetivo mais alto mas para manter a cultura viva — a história dos problemas, em outras palavras, não é sempre teleológica, sendo às vezes regressiva, interrompida ou mudando de curso.
Em contraste, do modo como
Husserl vê a história da ciência e da filosofia ocidentais, trata-se de luta aparentemente infindável entre construtores e destruidores, aqueles que constroem o edifício da ciência e aqueles (os Céticos, sob diferentes formas) que continuamente derrubam o que os primeiros alcançaram, reaparecendo os destruidores sob formas diversas mas todas provenientes da mesma “hidra do ceticismo”; só com o surgimento da fenomenologia a besta é finalmente aniquilada e tomado o caminho rumo à ciência, aproximando-se infinitamente dessa ideia-limite — a partir daí pode começar a teleologia da ciência, aproximando-se assintoticamente da Verdade, não tendo sido a fenomenologia quem descobriu tal teleologia, mas
Husserl apenas reivindica ter finalmente colocado a ideia de um progresso infinito em base segura.
Deve-se notar também que a história contada por
Husserl não é contínua da Antiguidade à Modernidade, sendo o período medieval inteiramente saltado;
Husserl parece endossar uma narrativa que celebra o nascimento da ciência e da filosofia na Grécia Antiga, sustenta que foram esquecidas e obscurecidas na “escura” Idade Média e reavivadas no Renascimento, quando as descobertas perenes dos Antigos renasceram e foram novamente instituídas.
De fato, o renascimento do espírito antigo luta contra o mesmo inimigo, o ceticismo — os dissuasores céticos da modernidade não são, contudo, totalmente sem mérito, pois ao longo do caminho dão impulsos importantes, distrações do grande caminho da ciência à época, mas que, uma vez purificados de suas verdadeiras intenções, podem ser positivamente incorporados ao edifício da ciência; assim
Husserl lê, por exemplo, os Empiristas britânicos, que concebem a ideia de uma “ciência da psique”, ainda que inadequadamente, mas cuja verdade será redimida com a fenomenologia — o termo que
Husserl também usa para seu empreendimento, “empirismo transcendental”, mostra que ele vê a fenomenologia como a grande síntese das principais tendências da filosofia moderna.
ii. A interpretação husserliana das principais figuras da filosofia ocidental (Sócrates, Platão, Aristóteles, Locke, Hume, Kant e os neokantianos)
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Este texto apresenta o tratamento mais sustentado de algumas figuras principais em sua sequência histórica na obra de
Husserl, desmentindo o velho lugar-comum de que
Husserl não tinha conhecimento da história da filosofia; seu interesse é interessado, pois
Husserl não pretende apresentar essas figuras em seu contexto histórico com fidelidade textual-filológica, não devendo o leitor buscar neste texto esclarecimento sobre
Sócrates,
Platão ou outros, vendo antes
Husserl generosamente seus impulsos como levando à e culminando na fenomenologia.
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Embora
Husserl tenha sido ridicularizado por sua ingenuidade histórica, e não se possa negar que raramente leu os clássicos do cânone ocidental no original, nem mesmo em fontes primárias, o que ele diz sobre o filósofo em questão é sempre interessante e perspicaz, especialmente em sua crítica; as discussões de
Husserl sobre Locke, Berkeley e
Hume são bastante envolventes e agudas, especialmente ao destacar suas limitações e apontar como a fenomenologia as supera — demonstra, por exemplo, como o empirismo abriga preconceitos ocultos, como o objetivismo e o psicologismo, e como o paradigma naturalista-científico que guiava os primeiros modernos os impediu de desenvolver uma verdadeira ciência da consciência, oferecendo a aula 18 crítica sucinta da teoria empirista da abstração e de como suas intuições corretas podem ser tornadas frutíferas por uma ciência eidética da consciência pura.
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Embora
Husserl trate
Kant mais de passagem, seus interlocutores são frequentemente, embora não nomeados, seus contemporâneos neokantianos, sendo várias críticas que lança — como a do método regressivo de
Kant — na verdade comentários sobre interpretações neokantianas de
Kant; talvez
Husserl quisesse limitar sua crítica a
Kant e manter as boas relações que tinha com os grandes nomes da época, como Natorp e Rickert.
2. Parte II (Teoria da Redução Fenomenológica)
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No início do semestre de primavera, o curso retoma brevemente os temas da ideia de filosofia na história e a imagem do filósofo ideal e seu radicalismo, mas então rapidamente (a partir da aula 31) se volta ao que o título da Parte II anuncia: uma teoria da redução fenomenológica, tema ao qual se dedica o restante do curso.
i. Abrindo o pleno escopo da subjetividade transcendental
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A redução fenomenológica é o portal de entrada para a fenomenologia transcendental, sendo assim uma reflexão sustentada sobre como se pode encontrar o caminho para a fenomenologia, à parte do caminho histórico na primeira parte do curso, parte orgânica de uma introdução sistemática à fenomenologia transcendental; um elemento dessa reflexão sobre o método também aborda exatamente qual é o “rendimento” uma vez que se “reduz” — claramente não uma redução a um solus ipse (aula 36), mas antes a abertura de uma esfera de experiência egoica, enquanto constituinte do mundo em sentido amplo.
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Assim, “experiência transcendental e seu conteúdo: vida transcendental” é o tema das investigações da fenomenologia, empenhando-se
Husserl em expor o “conteúdo pleno da autoexperiência transcendental universal” (aula 39), o que também persegue em suas dimensões temporais, sendo apresentados aqui elementos de sua fenomenologia da consciência interna do tempo em termos breves mas sucintos (aulas 39-40), tudo isso destinado a mostrar como a fenomenologia abrange todas as esferas de experiência, transcendentalmente purificadas, tornando-se a questão seguinte a de como é possível ganhar tal visão de conjunto.
ii. A fenomenologia da atitude fenomenológica e a divisão do ego
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Um dos aspectos mais interessantes deste texto é a discussão da natureza da atitude fenomenológica; uma discussão da natureza do ego que “fenomenologiza” é conhecida principalmente através da Sexta Meditação Cartesiana de
Fink e das anotações de
Husserl a ela, mas o texto proveniente de
Fink não deve obscurecer que há discussão desse tema também nos próprios textos de
Husserl, sendo essa discussão da atitude do fenomenólogo de 1924, embora breve, o único tratamento sustentado desse tópico vindo do próprio
Husserl.
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Embora compactas (aulas 41-43), essas análises são altamente sugestivas, discutindo como o ato de fenomenologizar se relaciona a outros atos da vida “ordinária”;
Husserl começa com uma análise dessa vida ordinária: a vida é uma constante divisão do ego, no qual o ego persegue diferentes interesses e fluxos egoicos, sendo esta descrição um relato subjetivo, poder-se-ia dizer, de como o ego vive no mundo (como mundo-da-vida).
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Segundo sua apresentação, sempre se está preso a certo fluxo de consciência, perseguindo certo interesse, enquanto outros interesses existem mas não estão atualmente operativos; em sua terminologia, o ego vive constantemente num fluxo de consciência, mas sem refletir sobre ele, diretamente, ou (como ele diz) patentemente, enquanto outros fluxos estão latentes no momento (por exemplo, enquanto persigo meu trabalho, meu interesse em pintura jaz patente, adormecido, na passividade, mas pode ser despertado a qualquer momento).
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A vida do ego é assim sempre dividida, sendo viver estar dividido em diferentes interesses que nem sempre podem ser unificados ou harmonizados; escreve
Husserl: “a vida egoica em atividade não é senão um constante dividir-se-a-si-mesmo em comportamento ativo”.
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A partir disso, o ato específico de fazer fenomenologia é motivado como extensão daquele da reflexão: um ato de reflexão reflete sobre outro ato, atualmente patente, mas uma vez que o eu-refletente reflete sobre essa reflexão, o ato anterior fica latente enquanto o ato atual, o de refletir, fica patente, e assim por diante.
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É essa estrutura que
Husserl agora explora para motivar a mudança para a atitude fenomenológica; em oposição a uma iteração infinita dessas reflexões, que equivaleria a um regresso infinito,
Husserl postula a ideia de um Eu de reflexão que reflete sobre todos os atos egoicos na atitude natural em geral — surge assim o ego fenomenologizante, a atitude do fenomenólogo que já não está “interessado” em perseguições específicas mas se estabeleceu num “puro interesse no ser subjetivo” (abaixo, p. 309), um interesse particular direcionado a esse ser subjetivo.
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Frente ao (do ponto de vista de
Husserl) quase-problema de
Fink sobre como se pode verdadeiramente romper com a atitude natural,
Husserl a motiva como uma extensão natural da reflexão, “sempre já” ocorrendo na atitude natural, para uma universalização dessa reflexão numa atitude separada (não meramente um ato de reflexão).
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Dada a caracterização da vida na atitude natural como orientada por interesses e a distinção radical de
Husserl entre esta e um “puro interesse” (não perseguindo interesses mundanos) no ato de fenomenologizar, é também difícil ver como saliente a famosa crítica de
Merleau-Ponty de que “a redução nunca pode ser completa”; tivesse
Husserl conhecido essa crítica, teria achado bastante fácil refutá-la: claro, o ego que faz fenomenologia continua sendo cidadão, pai, mãe etc., mas é capaz de abandonar todos os interesses particulares por certo período, para depois retornar ao mundo, mas com uma perspectiva mudada, comparável a uma conversão religiosa.
iii. A nova apresentação da redução e a fenomenologia como idealismo transcendental (afastamento do cartesianismo?)
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A seção final se volta a tema diferente dentro da metodologia husserliana, que o atormentou por muito tempo e continuou a assombrá-lo: se a fenomenologia lida com a vida egoica em todas as suas formas, como não é apenas alguma forma de psicologia? Como diferem psicologia descritiva e fenomenologia transcendental? Essa é uma questão que
Husserl teve de enfrentar devido a seu infeliz rotulamento da fenomenologia como “psicologia descritiva” na primeira edição das Investigações Lógicas, e à qual retornará até tão tarde quanto a Crise.
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É neste ponto do curso que
Husserl distingue entre o caminho cartesiano para a fenomenologia — focando no indubitável ego cogito como primeiro ponto de entrada — e o que chama de caminho via “psicologia intencional”, o que o leva a proclamar um novo, “segundo caminho” para a redução, o chamado caminho psicológico (a partir da aula 46); a fala de “abrir um novo caminho” não é, contudo, nada inteiramente novo dado o raciocínio anterior desse semestre, antes explorando
Husserl o que já havia alcançado em sua meticulosa exposição do campo da pesquisa fenomenológica.
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A fenomenologia é paralela à psicologia intencional (se tal disciplina alguma vez existiu), com a diferença de que o campo da fenomenologia é transcendental, isto é, subjetividade constituinte do mundo, não, como “o mental”, uma camada de ser no mundo (a mente dos seres humanos); isso apresenta um caminho diferente para a redução em relação ao caminho via indubitabilidade do ego cogito, na medida em que este último vai ao ego transcendental do modo mais direto, apenas para depois enfrentar o problema de que esse ego é supostamente um “resto do mundo”, como diz nas Meditações Cartesianas — esse caminho, embora “ainda retendo seu direito”, é também o mais propenso a mal-entendidos, esperando com o caminho psicológico
Husserl aquietar os críticos que se concentram exclusivamente no caminho cartesiano.
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Interessante nesse contexto é a discussão husserliana da famosa hipótese da aniquilação do mundo e do “resíduo” remanescente, o ego cogito, de Ideias I, onde
Husserl afirma, controversamente, que mesmo se hipotetizarmos que o mundo inteiro fosse “anulado”, “o ser da consciência seria modificado, sem dúvida, […] mas não seria afetado em sua própria existência. […] Portanto, nenhum ser real […] é necessário para o ser da própria consciência”.
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Essa passagem alimentou as chamas daqueles que afirmavam que a redução significa um recuo a uma pura região de consciência, independentemente de seu correlato, o mundo experimentado, mostrar-se um “enxame” caótico ou um nada;
Husserl retorna a essa passagem controversa em Primeira Filosofia, sendo, se levada a sério, essa hipótese levaria à acusação de um ego autoencapsulado, que existiria (junto com seu fluxo de consciência) mesmo que nada mais existisse, não ficando inteiramente claro como
Husserl agora interpreta esse experimento mental bastante problemático — em vez de chamá-lo de mal orientado ou extremo demais, parece agora argumentar que é uma possibilidade a se ponderar para descobrir a subjetividade transcendental em sua vida e conteúdo (sendo irrelevante se seu referente “lá fora” existe ou não).
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Outra possibilidade é simplesmente “deixar de lado” esse caminho e perguntar: “Comecemos, ao invés, com o Eu natural ingênuo, que realiza atos quaisquer e assim se relaciona de modo natural com quaisquer objetos intencionais. Então podemos, a princípio sem pensar numa subjetividade transcendental, sem ter ideia alguma sobre ela, realizar com respeito a cada ato individual uma Epoché semelhante, de modo tão facilmente compreensível quanto aquela que, relacionada ao mundo e sua experiência, realizamos no caminho cartesiano.”
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Em vez de enfrentar a hipótese de frente,
Husserl parece contorná-la aqui em favor de outro caminho, igualmente possível, caminho já empreendido desde o intervalo de Natal; o caminho psicológico não é assim senão o caminho até então seguido nesta aula, deixando de lado a questão da apodicticidade do ego (e portanto se o mundo que ele experimenta precisa existir ou não) e focando no fluxo de consciência e no que nele é dado.
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Tal investigação é apenas aparentemente uma psicologia, pois se concentra na consciência como transcendental, isto é, constituinte do mundo, independentemente de quaisquer compromissos ontológicos quanto ao ser do ego ou do mundo — o que Landgrebe mais tarde chamou de “afastamento do cartesianismo”.
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O restante do curso dá apresentação final da fenomenologia como a verdadeira filosofia e faz algumas afirmações ousadas sobre o significado da fenomenologia como idealismo transcendental e, ao mesmo tempo, como cumprimento da ideia leibniziana de monadologia.
3. Resumo: Temas Centrais do Texto Principal do Volume
i. A ideia de um sistema de fenomenologia e sua introdução sistemática
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As publicações anteriores de
Husserl, Investigações Lógicas e Ideias I, pretendiam ser introduções programáticas à fenomenologia, sendo seus escritos publicados posteriores, ainda mais, principalmente pretendidos como introduções, dando pouca ideia do escopo do trabalho fenomenológico; o que
Husserl claramente queria a partir de seu período maduro (os anos 1920) era uma visão de conjunto do sistema da fenomenologia, dando ideia dos temas dentro desse sistema, o que não poderia ser estabelecido sem uma introdução sistemática abrangente.
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O que torna a introdução sistemática aqui é a percepção de que não se pode simplesmente “saltar para dentro” da fenomenologia sem uma exposição sistemática do que ela faz, por que é necessária e importante e de seu método; em nenhum outro texto (à exceção da aula de 1922/23)
Husserl tenta tal introdução sistemática, alinhando-se nesse esforço aos grandes esforços sistemáticos dessa tradição, como a Elementarphilosophie de Reinhold, a Wissenschaftslehre de
Fichte e o prefácio e introdução de
Hegel à Fenomenologia do Espírito, sendo talvez este último texto, fornecendo uma escada para o sistema da filosofia, escrito do ponto de vista da ciência, o que mais se aproxima do que
Husserl desejava realizar aqui, apesar de todas as diferenças.
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Na engenhosa apresentação de
Hegel, a sequência histórica de estágios da consciência é apenas a antítese da ordem sistemática desses estágios; a apresentação de
Husserl, como batalha dialética entre construtores de sistemas e céticos, pode ser lida em espírito semelhante.
ii. O lugar da fenomenologia na história da filosofia ocidental
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Husserl tenta dar conta do lugar da fenomenologia dentro do projeto da filosofia e ciência ocidentais em sentido amplo; sua insistência na posição de singularidade da fenomenologia, como ele a vê, não é nada nova, nem o é seu antagonismo quase existencial contra o ceticismo em suas várias formas, mas ambos os motivos são aqui reunidos numa grande narrativa sintética histórico-sistemática.
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A fenomenologia, em sua mente, é o desejo secreto da filosofia ocidental porque finalmente coloca a filosofia no caminho de uma ciência rigorosa, base a partir da qual todas as outras ciências podem encontrar sua fundação e sobre a qual eventualmente todas as questões mais altas e últimas da metafísica podem ser respondidas, sendo a fenomenologia o cumprimento e a execução dos grandes ideais e ambições sistemáticas da filosofia ocidental.
iii. A amplitude da redução fenomenológica e a fenomenologia como idealismo transcendental
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Finalmente, na segunda metade,
Husserl abre um novo caminho para a redução transcendental, criticando assim as limitações do caminho cartesiano, o único publicamente conhecido desde as Ideias I de 1913; dada a crítica que essa apresentação de 1913 da fenomenologia recebeu, o que ele oferece em Primeira Filosofia é notável realização sistemática por direito próprio, abrindo o espaço sistemático para o último caminho, o caminho ontológico através do mundo-da-vida, que
Husserl apresenta publicamente na Crise.
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Mas os três caminhos “tradicionais” (cartesiano, psicológico, ontológico) são apenas uma seleção entre outros caminhos possíveis, levando todos, rigorosamente perseguidos, à redução e ao reino da subjetividade transcendental constituinte do mundo, tendo essa estrutura, quando plenamente desdobrada, dimensões intersubjetivas e genéticas.
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Esta é a maior lição sistemática a se aprender deste texto:
Husserl quer deixar bem claro que sua fenomenologia não é apenas mais uma forma de cartesianismo com seu concomitante solipsismo e problemática metafísica do ego, incluindo de fato uma redução intersubjetiva, que aparece quase como reflexão tardia mas que
Husserl se apressa a mencionar ao final, na longa aula 63b; uma vez removido esse obstáculo, fica claro que a fenomenologia se torna assim o verdadeiro e único idealismo transcendental abrangente, cumprindo a visão de
Kant, e ao mesmo tempo uma monadologia transcendental, cumprindo a visão de
Leibniz.
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Sobre a apresentação do material neste curso, tem-se frequentemente notado que alguns dos melhores escritos de
Husserl se encontram em seus cursos, onde ele ostensivamente tenta apresentar material, por mais difícil que seja, de forma clara e compreensível a seus alunos, sendo este especialmente o caso de Primeira Filosofia, não só porque o texto seria usado como base para seu trabalho sistemático e foi mais cuidadosamente elaborado que outros cursos, mas também porque
Husserl aparentemente fez esforço especial para apresentar os passos iniciais mais importantes com completa clareza.
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Assim, aqueles veredictos que zombam da obscuridade de
Husserl e de sua entrega monológica e não-comunicativa se mostram equivocados neste texto (quanto à aula principal); não apenas
Husserl é, na maior parte (é possível argumentar), cristalino ao expor material difícil (também em excursos e digressões, embora se desviem do tema), como também tem ouvido aberto para seus ouvintes e simpatiza com suas dificuldades de compreensão.
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Para dar um exemplo,
Husserl reconhece no início da aula 45 que “fui informado de que as últimas aulas foram percebidas como bastante difíceis”, dedicando essa aula a um resumo sistemático de seu percurso de pensamento até aquele ponto, desviando-se do plano original de avançar, havendo várias outras passagens desse tipo no curso, mostrando claramente que tinha em mente a compreensão de seus alunos, que no momento superava suas próprias intenções sistemáticas.
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Este curso, considerado como um todo, apesar de não conseguir oferecer uma apresentação abrangente do pensamento de
Husserl, é, não obstante, um ponto alto de perspicácia e sensibilidade pedagógicas, dada a complexidade do material, sendo devido às habilidades pedagógicas de
Husserl que este texto pode ser adequado como introdução sistemática à sua filosofia e mesmo preferível às suas próprias “Introduções” publicadas, que muitos primeiros leitores percebem como frustrantemente densas e opacas;
Husserl talvez não tenha sido o tipo de orador lembrado com admiração, como
Fichte, mas seria bom finalmente abandonar o velho veredito de que
Husserl era um pedagogo entediante e desinspirador.
III. TEMAS DOS TEXTOS SUPLEMENTARES
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Como mencionado várias vezes, o grosso do trabalho de
Husserl consiste em seus manuscritos, escritos quase diariamente na forma de meditações monológicas, sendo nesses escritos que
Husserl formula, como insiste várias vezes, suas percepções mais importantes.
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Esses textos foram, em sua maioria, escritos sem vistas à publicação, apresentando antes o raciocínio interno de
Husserl, contendo divagações, raramente perseguindo apenas uma ideia, contradizendo-se a si mesmos ou chegando a conclusões sobre as quais o próprio
Husserl se pergunta se seus pensamentos poderiam estar corretos.
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O fato de terem sido escritos apenas para si mesmo também significa que seu estilo é bastante bruto, com muitas frases elípticas (que só fazem sentido com emendas editoriais), verbos ausentes, gramática enredada (às vezes falha), e assim por diante, tendo muitos desses textos privados, por sua vez, anotações com caráter de autocríticas, às vezes até julgamentos condenatórios.
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A atração desses textos labirínticos, e de seus meta-comentários, reside claramente em sua abertura e no privilégio de poder observar os pensamentos mais íntimos do fenomenólogo, não devendo se esperar sempre conclusões nítidas e argumentos finamente construídos; embora esses textos contenham claramente as percepções mais importantes de
Husserl, elas nem sempre são exibidas explicitamente.
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Como Iso Kern disse certa vez, esses textos não transmitem tanto o que
Husserl sabia, mas antes o que ele não sabia — como escreveu numa carta a Roman
Ingarden de 11 de outubro de 1933: “Tempos estranhos. Posso trabalhar, posso viver, desnacionalizado como não-ariano? Foi bastante difícil, finalmente me forcei, e voltei ao trabalho agora nos últimos três meses, quase com minha velha energia, apesar de ter 74 anos. [Estou trabalhando] em meu Nachlass! A posteridade vai buscá-lo.”