Voltando-se ao conteúdo das Meditações, hoje tão estranho, observa-se que nelas se cumpre o retorno ao eu filosofante num segundo e mais profundo significado, o do retorno ao ego das cogitationes puras, retorno que o meditante cumpre pelo conhecido método singular da dúvida.
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Visando com radical consequência o fim de um conhecimento absoluto, o meditante se interdita de considerar como existente aquilo que não permaneça garantido contra toda possibilidade admissível de dúvida, cumprindo assim uma crítica metódica da certeza vivida na experiência e no pensamento naturais, tendo em vista a possibilidade de colocá-la em dúvida, e buscando obter, ao excluir tudo que deixe aberta uma possibilidade de dúvida, um eventual conteúdo de evidências absolutas.
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Procedendo com esse método, a certeza da experiência, pela qual o mundo é dado em sua vida natural, não resiste à crítica, de modo que o ser do mundo, nesse estágio inicial, deve permanecer sem valor, restando ao meditante apenas a si mesmo como ego puro de suas cogitationes como algo indubitavelmente existente, que não pode ser cancelado mesmo que o mundo não existisse.
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O ego assim reduzido cumpre então uma espécie de processo filosófico solipsista, buscando apoditicamente uma via segura pela qual, em sua pura interioridade, possa se incluir uma exterioridade objetiva, o que se realiza do modo bem conhecido: concluindo primeiro imediatamente à existência e à veracidade divina, e depois, mediante ela, à natureza objetiva, ao dualismo das substâncias finitas, em suma, ao plano objetivo da metafísica e das ciências positivas, e enfim a essas ciências, sendo todos os raciocínios conduzidos, como devem, a partir de princípios imanentes ao ego puro, inatos a ele.
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Cabe perguntar se realmente vale a pena buscar atribuir a esses pensamentos um valor de eternidade, e se ainda são capazes de infundir força vital ao presente.
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É digno de meditação o fato de que as ciências positivas, que deveriam ter obtido nessas Meditações uma fundação racional absoluta, pouco se preocuparam com elas; é certo que essas ciências, após um desenvolvimento brilhante de três séculos, se sentem impedidas pela falta de clareza em seus princípios, mas, ao buscarem renovar a forma desses princípios, não recorrem às Meditações cartesianas.
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Pesa muito o fato de que as Meditações tiveram um sucesso verdadeiramente único para uma obra filosófica, justamente por anunciarem o retorno ao ego cogito puro, inaugurando
Descartes uma filosofia de espécie inteiramente nova ao mudar por completo o estilo da filosofia, voltando-se radicalmente do objetivismo espontâneo ao subjetivismo transcendental que, através de tentativas sempre novas e ainda insuficientes, parece tender a uma forma final necessária — tendência constante que talvez traga em si um sentido de eternidade e contenha uma grande tarefa, imposta pela própria história, à qual todos são chamados a colaborar.
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A dispersão da filosofia contemporânea em sua atividade desordenada dá o que pensar: desde meados do século passado houve um decaimento inegável em comparação ao século anterior, se se considera a filosofia ocidental do ponto de vista da unidade da ciência, unidade perdida tanto na determinação do fim quanto na problemática e no método, pois desde o início da idade moderna a fé religiosa se exteriorizou cada vez mais num convencionalismo sem vida, e a humanidade intelectual se ergueu à nova grande fé, a fé na autonomia da filosofia e da ciência, devendo toda a cultura humana reformar-se numa nova cultura autônoma.
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Essa nova fé também perdeu seu caráter genuíno e se enfraqueceu, e não sem razão: em lugar da filosofia vivendo de modo unitário, há apenas uma literatura crescendo ao infinito mas sem conexão interna; em lugar de uma séria mediação entre teorias em contraste que, mesmo se opondo, manifestam íntima solidariedade ao convergir em convicções fundamentais e nutrir fé segura na verdadeira filosofia, não se encontram senão pseudo-exposições e pseudo-críticas, meras aparências de um filosofar que reivindica séria colaboração e reciprocidade entre filósofos, sem que se encontre o menor traço de um estudo convergente, consciente e responsável, conduzido no espírito de séria colaboração com o intuito de alcançar resultados objetivamente válidos — objetivamente válido significando aqui apenas o resultado de uma clarificação obtida por crítica recíproca entre partes opostas, capaz de resistir a toda crítica ulterior.
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Dado que são tantos os filósofos e ainda mais as filosofias, tal estudo e colaboração seriam de fato possíveis? Há, na verdade, congressos filosóficos, mas neles convergem apenas os filósofos, não as filosofias, faltando a estas um lugar espiritual comum onde possam se reciprocar e operar umas para as outras; a situação talvez seja melhor dentro de escolas ou correntes filosóficas isoladas, mas, por se tratar sempre de aspectos isolados, a característica notada permanece essencialmente válida quanto ao estado geral atual da filosofia.
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Nessa época infeliz, talvez a situação presente se assemelhe àquela em que se encontrou
Descartes em sua juventude: não seria já tempo de fazer reviver seu radicalismo filosófico originário? Não seria tempo de submeter a uma revolução cartesiana a enorme literatura filosófica, que confunde as grandes tradições ora com tentativas mais sérias de recomeçar do zero, ora com sugestões vindas de modas literárias que visam causar impressão e não ao estudo sério, e de assim recomeçar com novas Meditationes de Prima Philosophia? Não se deveria, enfim, reconduzir a desolação da situação filosófica atual ao fato de que os impulsos provenientes daquelas Meditações perderam sua força vital originária, por se ter perdido o próprio espírito do caráter radical da responsabilidade filosófica?
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A nostalgia de uma filosofia vital levou, na idade moderna, a diversos renascimentos; não seria talvez o único renascimento fecundo aquele suscitado pelas Meditações cartesianas — não no sentido de que devam ser aceitas em tudo e por tudo, restando ainda por descobrir o sentido mais profundo de seu radicalismo, consistente no retorno ao ego cogito, para em seguida evidenciar os valores de eternidade que dele emergem.
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Fica assim assinalado o caminho que conduziu à fenomenologia transcendental.
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Propõe-se percorrer juntos esse caminho, cartesianamente, como filósofos que assumem um início radical, realizando meditações com extrema prudência crítica e disposição a toda transformação necessária do antigo cartesianismo, sendo preciso para isso ilustrar e evitar os erros sedutores em que caíram
Descartes e seus sucessores.