a geometria, por exemplo, tem como ponto de partida essências, o círculo, a reta, que pode definir de modo exato mediante conceitos fixos, ao passo que a tentativa de determinar um processo de consciência como objeto idêntico, com base na experiência, à maneira de um objeto natural, com a pressuposição ideal de uma possível explicitação em elementos idênticos apreensíveis por conceitos fixos, seria de fato loucura
um processo de consciência só pode ser estudado por meio de uma descrição que respeite os caracteres eidéticos descobertos pela intuição, não sendo assim o método fenomenológico de modo algum inferior aos métodos dedutivos
um método não tem valor em si mesmo, devendo ser usado em sua própria província de aplicação, sendo os objetos da fenomenologia objetos concretos que devem ser apreendidos intuitivamente, não consistindo o método fenomenológico em deduzir, em explicar, erklären, por teorias, mas em ver as coisas como são, em elucidar, aufklären
se se recorda que, para ver as coisas, não basta apenas olhá-las, sendo necessário buscar para ver melhor, descobrir, explicitar, esclarecer, então já se compreende que as tarefas descritivas podem conciliar-se com as tarefas críticas
aceitando-se isso, e concordando de bom grado que a natureza da matéria da fenomenologia lhe impõe método inteiramente diverso do método dedutivo, ainda se pode ser cético quanto à possibilidade de erigir uma verdadeira ciência a partir de dados tão fluentes
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Husserl não contesta ser impossível determinar univocamente os objetos individuais da esfera fenomenológica, mas, se não se pode definir de modo exato os concreta fluentes, ao menos, quando se eleva o olhar para as essências cada vez mais gerais, pode-se pôr em jogo a determinação científica, determinando essas essências de modo estrito
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descreve-se e, assim, define-se em conceitos estritos a essência genérica da percepção como tal ou de espécies subordinadas como a percepção de algo físico e a percepção de seres animados, do mesmo modo a essência genérica da memória como tal, da empatia como tal, do querer como tal, e assim por diante, situando-se antes dessas, porém, as mais altas universalidades, o processo mental como tal, o cogito como tal, que já tornam possíveis descrições abrangentes
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se se pode descrever de modo puro e estrito, é porque na vida intencional prevalece uma conformidade essencialmente necessária a um tipo, apreensível em conceitos estritos
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a descrição eidética é, assim, uma das diferenças de estilo entre a nova ciência a priori que é a fenomenologia e as ciências matemáticas, afirmando
Husserl isso continuamente no período da Lógica Formal e Transcendental com a mesma clareza de antes
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com esse livro, porém, impõe a si mesmo um novo passo fenomenológico, essencialmente crítico e não mais meramente descritivo, separando-se aqui novamente o método fenomenológico do método da ciência objetiva, pois a crítica fenomenológica se distingue da crítica científica por ser uma crítica que descobre a genuinidade originária, desmascara todos os preconceitos e, ao esclarecer os horizontes intencionais, determina o verdadeiro alcance das evidências
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cabe indicar agora o itinerário da investigação de sentido que parte da lógica tradicional para chegar por fim à ideia da ciência da ciência tomada em sentido genuíno e radical
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esse ponto de partida pode parecer arruinar toda pretensão de radicalismo, superando apenas o apelo às relações intencionais entre pensamento constituído e atividade constituinte do pensar tal objeção
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se essa objeção é ainda mais forte quando se toma como ponto de partida não apenas as ciências existentes mas também a lógica existente, ao menos a lógica tem a vantagem de ser base melhor para a investigação intencional do que as demais ciências, sendo o sentido originário mais visível na lógica do que nas ciências
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o estabelecimento sistemático de uma arquitetura do pensamento se manifesta de maneira muito nítida na lógica formal, prevalecendo mesmo através de apresentações amplamente divergentes e, na verdade, de caricaturas deformantes, um núcleo essencialmente idêntico de conteúdo irrenunciável
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“even through such widely divergent presentations and, indeed, distorting caricatures it has prevailed, with an essentially identical core of unrelinquishable content”
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o sentido específico de seu caráter formal, porém, não foi apreendido com plena consciência, sendo precisamente tarefa da investigação de sentido distinguir a teleologia imanente que permanece confusa para as próprias pessoas por ela guiadas
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a orientação da lógica tradicional permanece essencialmente objetiva, focada unilateralmente no objeto, em direção a formações de pensamento, Denkgebilde, obrigando-se a investigação de sentido a restringir-se de início a esse ponto de vista unilateral
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mas, no estilo de pensamento husserliano, um começo nada compromete, mesmo na esfera da lógica, indo a investigação de sentido, ao distinguir gradualmente o sentido próprio da lógica tradicional, descobrindo os pressupostos da lógica que a revelam como lógica ingênua, uma que nunca sonhou questionar o que declara como evidente por si
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a investigação de sentido será então levada a criticar as evidências da lógica, retornando assim à atividade subjetiva constituinte e ao esclarecimento dessa atividade, vindo a orientação subjetiva dessa crítica a sustentar a orientação exclusivamente objetiva do tema da lógica tradicional
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não há razão, contudo, para interpretar os problemas referentes à subjetividade como problemas da subjetividade humana natural, portanto como problemas psicológicos, sendo os problemas de que trata a crítica fenomenológica da lógica os problemas da subjetividade transcendental
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chega-se assim a uma lógica que desce às profundezas da interioridade transcendental, podendo somente então o sentido da ciência em sua verdadeira Objetividade ser plenamente compreendido
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somente uma ciência esclarecida e justificada transcendentalmente, no sentido fenomenológico, pode ser ciência última, somente um mundo esclarecido transcendental-fenomenologicamente pode ser um mundo compreendido em última instância, somente uma lógica transcendental pode ser teoria última da ciência, teoria última, mais profunda e mais universal dos princípios e normas de todas as ciências
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o leitor pode surpreender-se com a existência de um caminho que conduz da lógica formal à lógica transcendental, não compreendendo, se treinado nas disciplinas matemáticas, que se pudesse desejar horizonte diverso do da lógica matemática axiomatizada, nem compreendendo, se filósofo, que se possa levar em consideração tal lógica formal, mesmo como simples via de entrada, ao instituir uma lógica verdadeiramente filosófica que, de certo modo, torna declassée os problemas do formalismo
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não diz
Husserl que a lógica historicamente existente, com sua positividade ingênua, seu modo de obter verdades como objetos de evidência ingenuamente direta, revela-se espécie de puerilidade filosófica, faltando-lhe em si mesma aquela genuinidade originária pela qual poderia alcançar autocompreensão e autojustificação últimas
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“the historically existing logic, with its naïve positivity, its way of obtaining truths as objects of naïve straightforward evidence, proves to be a kind of philosophic puerility”
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é exatamente o mérito do livro de
Husserl ter conseguido ir além da lógica formal, e não simplesmente descartá-la, sendo este o único exemplo encontrado na literatura filosófica de uma crítica do formalismo que não procede em espírito de crítica mal informada
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as objeções ao formalismo ordinariamente feitas exemplificam usualmente uma ignorância e uma preguiça intelectual que destroem pela raiz o valor de seus argumentos, sendo o leitor já disposto contra o formalismo o primeiro a tomar de bom grado as conclusões de
Husserl, mas sendo
Husserl o primeiro a denunciar a ingenuidade dessa tendência risível
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não diz
Husserl nos Prolegômenos que não é o matemático, mas o filósofo, quem sai de sua esfera natural de competência, se resiste às teorias matematizantes da lógica e se recusa a devolver seus filhos adotivos provisórios a seus pais naturais, não alterando em nada o desprezo com que os lógicos de orientação filosófica costumam falar das teorias matemáticas de inferência o fato de que, nelas, como em todas as teorias rigorosamente desenvolvidas, o tratamento matemático é o único científico, o único que oferece fechamento e completude sistemáticos, oferecendo uma visão de todas as questões possíveis e as formas possíveis de sua solução
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“Not the mathematician, but the philosopher, steps outside his natural sphere of competence, if he resists the 'mathematizing' theories of logic and is unwilling to hand over his provisional foster children to their natural parents”
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Husserl distingue-se, de um lado, dos lógicos de orientação filosófica que desdenham a lógica matemática, não deixando de sublinhar o poder estimulante dos métodos matemáticos das teorias modernas de dedução
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de outro lado, ao reconhecer a necessidade de uma matematização da lógica, proclama os direitos de uma lógica filosófica genuína, tendo-se visto que sua primeira concepção de tal lógica, tal como aparece nos Prolegômenos, evoluiu, e que o enfoque subjetivo das investigações fenomenológicas subsequentes lhe deu fundamentos filosóficos mais profundos
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depois dos Prolegômenos,
Husserl sublinha a necessidade de uma disciplina filosófica da lógica que vá além das tarefas da matemática, falando de uma divisão de trabalho entre matemáticos e lógicos, devendo a construção de teorias, a solução de problemas metodológicos e afins permanecer na província do matemático
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o matemático, porém, é apenas um técnico da teoria, somente podendo o filósofo iniciar uma crítica radical e assim penetrar na essência do conhecimento teórico
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o espírito matemático tem, entretanto, um poder inventivo que não deve ser mal compreendido por quem se depara com seus resultados, falando
Husserl em numerosas ocasiões de um instinto científico que, por mais cego que seja quanto à investigação de origens, é guia seguro para o matemático, sendo em qualquer conflito melhor estar do lado dos matemáticos do que do lado dos filósofos intemperados
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a memória da batalha de Berkeley contra o cálculo infinitesimal deveria servir de advertência para confiar no instinto matemático, que a princípio é acrítico mas, nos traços principais, guia com segurança, escreve
Husserl em seu segundo artigo no Archiv
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“The memory of Berkeley's battle against the infinitesimal calculus ought to serve us as an admonition to trust the mathematical instinct, which at first is uncritical but, in the principal features, guides us safely”
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pode-se mesmo discernir, em observações ocasionais, uma nostalgia de
Husserl pelo poder construtivo que o lógico pode empregar contra as críticas apressadas dos filósofos, sendo isso de fato o que fazem os matemáticos, excluindo os problemas especificamente filosóficos e, por assim dizer, de maneira ingenuamente dogmática, sem se preocuparem com as objeções dos filósofos, o que, em sua opinião, beneficia a ciência
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“That is actually done then by the mathematicians, while excluding the specifically philosophic problems and in, so to speak, a naïvely dogmatic manner, without concerning themselves with the philosophers' objections — in my opinion, to the benefit of science”
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o gênio da matemática tinha razão, como sempre, quanto às questões em jogo, ainda que sua autocompreensão lógica fosse falha
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frequentemente, além disso, o lógico formado em matemática tem, por assim dizer, um superego matemático, com tudo o que isso implica de admiração e vindicação, não sendo necessário conceder maior importância do que a apropriada a essa dimensão psicológica do problema da relação entre matemática e lógica
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deve manter-se em primeiro lugar que, para
Husserl, a elaboração técnica das teorias, por mais engenhosa e aperfeiçoada que seja, deve necessariamente ser completada por um esclarecimento filosófico fundamental