4. A Redução Transcendental (§§ 38 a 42)
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A tarefa que se abre no § 38 não é mais exclusivamente ontológica, passando-se da ontologia do mundo da vida para uma tarefa “muito maior e que, aliás, engloba a precedente.”
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Cumpre-se assim o segundo passo metódico em direção à subjetividade transcendental.
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Husserl observa que “este primeiro passo, que parecia no início nos privar de todas as ciências objetivas como terreno de validade, já não é de forma alguma suficiente,” ou seja, a
epochè das ciências objetivas do mundo não esgota o sentido da
epochè transcendental, compreendida como alteração total da existência natural.
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É possível permanecer na atitude natural mesmo ao tematizar o mundo da vida pré-científico, pois, entrando “diretamente no horizonte do mundo,” o mundo em seus modos de aparecer subjetivos permanece não questionado, e a subjetividade transcendental ainda vive “por assim dizer perdidamente” no mundo.
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A primeira epochè atingia as ciências objetivas do mundo; a segunda atinge o tratamento objetivista do mundo pré-científico da intuição.
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O que era suspenso eram as ciências matemáticas da natureza; o que é suspenso agora são as ciências do espírito, principalmente a história.
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Os historiadores compartilham com os cientistas o pressuposto do mundo dado antecipadamente, sob a forma dos diversos mundos-ambientes-de-vida dos povos e épocas que estudam, o que se repete mesmo quando tentam alcançar uma história universal, transformando “em um tema todas as épocas e todos os povos e, por fim, a totalidade espaço-temporal do mundo, na unidade de uma circunspecção sistemática.”
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Husserl visa aqui o programa de uma crítica da razão histórica, como a desenvolvida por
Dilthey, rebaixando a questão das relatividades históricas a um segundo plano.
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O problema não reside na diversidade dos
Lebensumwelten, de modo que uma história universal pudesse superar a unilateralidade dos pontos de vista particulares, livrando a inteligência histórica do risco relativista (como esperava
Dilthey).
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O que está em causa é o princípio mesmo da atitude natural, da qual os historiadores permanecem prisioneiros, e que nenhum alargamento de perspectiva pode modificar: o pressuposto de que o mundo existe e que seus diferentes aspectos poderiam ser descritos com base em uma simples constatação empírica.
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É preciso distinguir duas formas possíveis de tematizar o mundo da vida: a atitude direta (Geradehineinstellung) ingênua e natural, orientada para o ontológico objetivo (e não mais o cientificamente objetivo), e a atitude resolutamente reflexiva, orientada para o “como” dos múltiplos modos de doação subjetivos do mundo da vida (§ 38).
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A clarificação do a priori ontológico exige uma reflexão radical que ultrapasse a unilateralidade abstrata do conhecimento positivo-ontológico e considere o a priori ontológico em sua correlação com a subjetividade.
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Esta reflexão radical assume a forma de uma mudança de atitude: o olhar não é mais dirigido ingênua e unilateralmente, ou “diretamente,” para o ontológico positivo (como princípio da positividade ou da objetividade), nem para o mundo (como conjunto da positividade ou da objetividade), mas sim para a vida da subjetividade na qual o positivo “se apresenta.”
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Essa mudança de atitude não é uma perda, mas um ganho, um “alargamento,” pois a positividade passa a ser vista em sua correlação com a subjetividade, ou seja, como o que se apresenta ou se constitui.
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O tema da segunda atitude, que se baseia em uma “orientação totalmente nova do interesse,” inclui também o mundo da vida em sua estrutura ontológica, mas esta se encontra em correlação com a vida operatória universal, na qual o mundo chega a ser postulado.
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Esta subjetividade, na qual se constitui toda objetividade, é a subjetividade transcendental, que se desdobra como uma intersubjetividade comunitária pela objetividade comum, e como uma subjetividade temporal (histórica), porque a objetividade que nela se constitui tem uma história.
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Ao passar da ontologia do mundo da vida para a tarefa que a engloba de elucidação da subjetividade transcendental, chega-se à exigência, enunciada no § 42, de esboçar concretamente os caminhos para efetivar a redução transcendental: “como tornar agora concretamente compreensível a operação que até agora apenas anunciamos e que a epochè torna possível — chamamos a esta operação a 'redução transcendental'?”