-
A segunda insuficiência da via cartesiana reside em sua incapacidade de alcançar a subjetividade em sentido pleno.
-
Por um lado, a via cartesiana não atinge a intersubjetividade, a qual
Husserl reconhece como constituinte da subjetividade em sentido pleno.
-
Os outros sujeitos ou cossujeitos são dados apenas por “indicação” ou “apresentação,” por meio das coisas reais que eu experiencio como sendo seus corpos.
-
Na qualidade de fenomenólogo, se não tenho mais o direito, no modo natural, de “atribuir valor” de realidades existentes às coisas, também não tenho o direito de atribuí-lo aos corpos orgânicos alheios.
-
O motivo para a indicação da vida psíquica alheia desaparece, pois esta só existe para mim na medida em que é apreendida por seu corpo orgânico.
-
Na via cartesiana, “uma fenomenologia transcendental só poderia ser possível, ao que parece, a título de egologia transcendental. Enquanto fenomenólogo, sou necessariamente um pensador solipsista, embora não o seja no sentido ridículo comum enraizado na atitude natural, sou-o, no entanto, no sentido transcendental.”
-
Husserl observa que “durante anos, eu não via nenhuma solução para transformá-la em redução intersubjetiva.”
-
Por outro lado, a via cartesiana também não leva à plena subjetividade própria, que não é apenas uma subjetividade no presente, mas inclui uma dimensão de passado e de futuro.
-
Nas lições de Filosofia Primeira (1923/24),
Husserl mostra que a vida passada e futura da subjetividade só é concebível por meio de uma dupla redução.
-
Uma lembrança me oferece o transcendental de duas maneiras: em primeiro lugar, o “eu me lembro” subsiste como meu vivenciado atual percebido na reflexão, mesmo que eu suspenda o universo inteiro ou iniba toda a crença na experiência sobre ele.
-
Em segundo lugar, nesse vivenciado presente, se representa para mim, por exemplo, o passeio de ontem ao castelo, que é um evento do passado, implicando que o vivenciado “eu me lembro” inclui o “eu percebi” e o ato passado inclui um “eu quis e agi.”
-
Embora o castelo, meu corpo, etc., como existência passada, sejam nulos ou ilusão transcendental, a continuidade do perceber que dava valor de realidade perceptiva ao meu caminho e objetivo não é abolida pela abstenção de todo julgamento sobre o ser mundano.
-
“Cada lembrança admite, evidentemente, uma dupla redução transcendental: de uma resulta a lembrança como meu vivenciado transcendental presente, enquanto a segunda, que intervém de maneira singular no conteúdo reprodutivo da lembrança, revela um fragmento de minha vida transcendental passada.”
-
Algo análogo é válido para a obtenção do futuro do fluxo do vivenciado transcendental.
-
O mundo passado e futuro em sua temporalidade objetiva representa o “fio condutor” necessário para revelar minha vida transcendental passada e futura; se não houvesse para mim agora um mundo passado ou futuro no qual eu vivi ou viverei, também não haveria para mim vida transcendental passada e futura.
-
Não se pode, portanto, “suspender pura e simplesmente” o horizonte do mundo, uma vez que a esfera transcendental pura (por exemplo, a do passado) só é alcançada concebendo a si mesmo primeiramente em seu horizonte de passado como um eu humano que viveu em seu mundo circundante agora passado e em relação intencional com ele.