4. Destituindo o sujeito de suas prerrogativas de soberano senhor de si, faz
Lacan descobrir que o outro talvez saiba mais sobre mim do que eu mesmo, dele derivando a função, essencial na transferência, do sujeito suposto saber, remetendo a transferência à tomada de consciência radical daquilo que nos divide, nos torna incompletos, nos aliena, habitando em nós como alteridade radical, o desejo, consistindo a posição ética do analista, por neutralidade de escuta, em espécie de epoché diante da loucura do desejo do outro.
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Forja
Lacan, em Ainda, a noção de amoralidade, ética do inconsciente, não da alma, ocupando-se a ética analítica essencialmente do desejo, irrepresentável irremediavelmente insatisfeito, situando-se ao centro dessa ética o quadrilátero da lei moral e sua transgressão, do desejo e do recalque, opondo referências contrastantes a
Kant e a Sade.
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5. Soma-se a isso a importância conferida à linguagem, podendo-se encontrar no inconsciente as próprias estruturas da linguagem, interpretando-se os sintomas neuróticos em termos de metáfora (recalque) e metonímia (deslocamento), tendo a cura analítica por objetivo fazer o sujeito reencontrar a parte do discurso que lhe falta, restabelecendo a continuidade de seu discurso consciente, dando-se assim o inconsciente, para
Lacan, como o fato constitutivo da própria condição de sujeito falante.
Um antepassado subestimado, Schopenhauer
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1. Reconhece
Freud em
Schopenhauer precursor de peso, tanto por sua filosofia fundada em dualismo originário, o da representação e da vontade, quanto por sua consideração precoce do instinto sexual como impulsão decisiva de nossos afetos e ações, convergindo ambos os traços na recusa de todo pensamento especulativo que desconheça a realidade concreta da consciência animal e humana e faça abstração da realidade corporal do ser humano, concordando também nesses dois pontos, profundamente, o fundador da fenomenologia, Edmund
Husserl.
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2. A fenomenologia husserliana busca prioritariamente tomar a experiência como fio condutor de toda elaboração conceitual, desconfiando de construções unificadoras abstratas e reinscrevendo suas análises no contexto concreto de um sujeito individual agindo com seu corpo, não sendo estranho, desse ponto de vista, que
Husserl e
Freud, embora não se tenham conhecido pessoalmente, tenham tido, além de
Brentano,
Schopenhauer como referência comum, partilhando fenomenologia e psicanálise idêntica prova de verdade na apreensão da realidade incontornável do corpo vivido, a carne (Leib) como realidade pulsional (Trieb), sendo consciência e corpo, para ambos, inseparáveis, dois lados de uma mesma realidade fenomenal de tipo pulsional.
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3. Como
Espinosa, possui
Schopenhauer intuição aguda quanto ao caráter originário do corpo, à ontologia do desejo e à relação entre físico e metafísico, dois pontos de vista paralelos sobre o mesmo fenômeno, oferecendo, aos trinta anos, em 1818, análises psicopatológicas extremamente precoces da loucura psíquica e física, além de reflexão metodológica sobre a relação entre filosofia e ciências empíricas cuja pertinência as ciências cognitivas contemporâneas não desmentem.
Freud, leitor de Schopenhauer
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1. Evoca
Freud, em 1925, as amplas concordâncias com a filosofia de
Schopenhauer, considerando-as, contudo, não deriváveis de sua familiaridade com a doutrina, citando mais precisa e literalmente o schopenhaueriano E. von Hartmann, autor de impressionante Filosofia do inconsciente (1869), não se conciliando, contudo, o vitalismo monista e a tendência moralizante deste com as teses freudianas sobre sexualidade e recalque, sendo antes na filosofia da vontade de
Schopenhauer, sobretudo nos Suplementos, que
Freud encontra por antecipação sua própria concepção do inconsciente.
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2. No capítulo XIX dos Suplementos, Do primado da vontade na consciência de nós mesmos, afirma
Schopenhauer que a vontade como coisa em si constitui a essência íntima, verdadeira e indiscutível, mas em si mesma sem consciência, sendo notável, nos capítulos XLII e XLIV, a acuidade da intuição pré-freudiana quanto a uma sexualidade originária e generalizada, fundamento de toda ação séria, substância da vontade de viver, sendo o homem instinto sexual que tomou corpo.
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3. Certas observações de
Schopenhauer parecem tão precisas que
Freud parece ter apenas retomado, séculos depois, o que aquele formulara com conceitos próprios, como no caso do conflito psíquico testemunho do processo de recalque, descrito no capítulo XXXII (Da loucura), e da fusão progressiva dos autoerotismos em amor de objeto genital na idade adulta, descrita no capítulo XXXI (Do gênio).
A metafísica da vontade inconsciente
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1. Ocupa
Schopenhauer lugar extremamente atípico na filosofia alemã do século XIX, familiarizado com a biologia por sua formação em medicina, desconfiando dos grandes sistemas especulativos, inclusive do idealismo cartesiano, sem poupar críticas ao materialismo pós-hegeliano, indiferente à realidade do sofrimento humano, indo suas referências privilegiadas à filosofia francesa do século XVIII e aos fisiologistas Bichat e Cabanis.
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2. Recusando subordinar, como fará
Schelling, o comentário fisiológico ao filosófico, coloca
Schopenhauer as duas abordagens em espelho, vendo na distinção de Bichat entre vida animal e vida orgânica correspondência estreita com sua própria distinção entre fenômeno e coisa em si, harmonizando-se, diz ele, como duas vozes num dueto.
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3. Colocam Bichat e Cabanis radicalmente em questão o dualismo cartesiano sem cair em monismo especulativo, interessando isso de perto a
Schopenhauer, que aí vislumbra antecipações de sua própria distinção entre consciência intelectual e organismo inconsciente, formando a vontade a ponte entre os dois pela extensão de seu sentido: por um lado, o regime fisiológico dos viventes, relevando da vontade orgânica inconsciente; por outro, o regime cerebral dos animais, correspondente à percepção motriz e aos afetos, ao desenvolvimento da vontade consciente.
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Cabanis, nos Rapports du physique et du moral, desenvolve continuidade gradual entre as formas inconscientes orgânicas mais elementares e as formações intelectuais complexas, mostrando a inteligência em ação desde o início.
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4. Há, portanto, parte essencialmente inconsciente atuando na Vontade em sentido schopenhaueriano, conferindo a esse Fenômeno único estatuto global que reúne os dois polos da consciência subjetiva e do corpo orgânico, havendo identidade entre corpo e vontade, sendo aquele a objetivação desta, não sendo o ato voluntário e a ação do corpo dois fenômenos objetivos distintos ligados pela causalidade, mas um único fato dado de duas maneiras diferentes: imediatamente e como representação sensível.
Conclusão: a influência de Schopenhauer sobre a fenomenologia
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1. O que
Schopenhauer chama Vontade, ao mesmo tempo consciente (ato voluntário) e inconsciente (ação orgânica),
Husserl rebatizará Leib, retomando o termo do autor de Sobre a vontade na natureza e conferindo-lhe estatuto de unidade psico-orgânica.
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2. Enquanto
Freud pôde redescobrir nos Suplementos o núcleo de sua concepção do inconsciente pulsional e do instinto sexual, fez
Husserl sua, de modo extremamente preciso, a concepção schopenhaueriana do Leib como Willensorgan, exposta integralmente no Livro II, tendo
Husserl adquirido as Obras Completas de
Schopenhauer já em 1880 e lecionado a obra de 1818 desde 1892-93.
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3. Já no § 6 do Livro I, apresenta
Schopenhauer o papel do corpo (Leib) como objeto imediato, ponto de partida do sujeito no conhecimento, correspondendo-lhe, no Livro II, o segundo ponto de vista, o da vontade (Wille), sendo o corpo a única objetivação de fenômeno único, literalmente a objetidade (Objektität) da vontade, distanciando-se assim
Schopenhauer da concepção kantiana do corpo como caos de sensações ou a priori formal, aproximando-se da apreensão fenomenológica da corporeidade.
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4. Além da abordagem geral do corpo como objetivação da vontade, anunciando a problemática husserliana da autoconstituição da consciência no corpo orgânico, e da crítica radical ao puro sujeito conhecente, testemunho da exigência de enraizar o conhecimento na corporeidade agente de um sujeito concreto, é notável, no § 18, a apresentação das duas modalidades de aparição do corpo: como representação no conhecimento fenomenal, objeto entre objetos submetido a suas leis, e como princípio imediatamente conhecido por cada um, designado pela palavra Vontade, retomando
Husserl exatamente essa aparição uni-dual do corpo, dado a mim seja como corpo-objeto (Körper), seja como corpo-sujeito (Leib).