Merleau-Ponty, embora demarcando bem a especificidade do problema do sensível, a ponto de chegar a vislumbrar um além de toda fenomenologia, continua até o fim a defender uma forma de intencionalismo fraco da percepção
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em sua perspectiva, é preciso que o sensível tenha um sentido, não percebendo ele a diferença de categoria entre o sentido, por definição ideal, e o sensível, que é uma categoria da realidade, esforçando-se quando muito por passivar ou anonimizar o sentido, tentando desesperadamente torná-lo sensível, sem escapar inteiramente ao narcisismo transcendental do percebido
fazendo isso, porém, talvez ele apenas leve ao limite o conceito de percepção e explore suas possibilidades extremas, sendo talvez necessário, para dizer o que faz da percepção a percepção, a saber o sensível, precisamente sair da “percepção”, o que o próprio filósofo chega a indicar em suas últimas pesquisas, apontando mais em direção àquela orquestração do sensível que, de certo ponto de vista, pode ser a arte, do que aos problemas tradicionais da intencionalidade e da filosofia da percepção
um dos objetivos colaterais deste livro, em sua própria tentativa de elucidação do conceito de percepção e de certos conceitos a ele ligados, será portanto prestar homenagem a um filósofo que, mais que qualquer outro, muito fez para assegurar sua inteligibilidade
a fonte do questionamento aqui apresentado não é, contudo, merleau-pontyana
no final dos anos 1990, a estratégia de conjunto então alcançada consistia em desermeneutizar a fenomenologia, contexto em que o motivo do realismo perceptual assumia importância central, contra o primado de uma intencionalidade cujo modelo era evidentemente o da significação linguística, pensando-se então em outro modelo de intencionalidade, segundo o qual a própria coisa seria dada e não simplesmente visada, chegando-se sem saber, e com referências totalmente distintas, a uma posição que, mutatis mutandis, guardava certa relação com a exposta por John McDowell em suas Woodbridge Lectures
a partir daí, muitas reflexões se concentraram na intencionalidade da percepção e em sua especificidade em relação à intencionalidade de significação, especificidade sobre a qual se acreditava — como aliás certos filósofos de tradição analítica — que a tradição fenomenológica ainda tinha muito a ensinar
sentia-se, no entanto, que certa forma de contrassenso, ou de círculo vicioso, se escondia nesse desdobramento das intencionalidades
o clareamento veio em 2002-2003, com o encontro do pensamento de Charles Travis, ao qual introduziu primeiro uma exposição luminosa de Sandra Laugier no Collège de France, sem que se medissem de imediato todas as suas implicações
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tendo a oportunidade de passar o trimestre da primavera de 2003 com Charles na Northwestern University, recorda-se bem o momento do estalo, ao voltar tarde no L-train, na purple line, quando ele perguntou por que se desejava que a percepção fosse intencional, sendo que, se se percebe a coisa, logicamente não é preciso visá-la, pois já se a tem, podendo-se assim duvidar da intencionalidade da percepção por razões distintas das reducionistas
os elementos de análise que Charles então apresentava sobre a percepção eram os expostos em “The Silence of the Senses”, publicado no ano seguinte
esse texto, leitura de Austin e também polêmica tão discreta quanto firme contra John McDowell, desempenhou papel absolutamente decisivo para toda a reflexão posterior sobre a percepção, podendo-se dizer que metade do que se lerá aqui é consequência, direta ou indireta, dessas linhas, sem que Charles possa ser responsabilizado por posições que certamente misturam a seus fios outros que ele dificilmente reconheceria
é indubitável que Charles ajudou a dar o último passo e a sair da fenomenologia justamente naquilo em que ela parecia, para além de todas as críticas linguísticas a que podia ser submetida, permanecer mais sólida e inexpugnável, a saber, a percepção, tendo chamado imediatamente a atenção a radicalidade de sua análise, que fazia justiça à própria radicalidade austiniana
não se trata, com efeito, de dizer, como às vezes se ouve, que a percepção não é uma intencionalidade, mas um ser-no-mundo — o que consistiria evidentemente em recolher a mercadoria na rede depois de tê-la lançado ao mar, pois o ser-no-mundo, nessa matéria, é apenas outro nome da intencionalidade — nem que ela é uma intencionalidade, mas de um gênero particular, que seria uma relação, por oposição à que não o seria
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a única questão que importa é saber se se trata de uma relação de fato ou de uma norma, podendo aliás a própria noção de relação constituir metáfora bastante ruim para descrever a percepção, pois relação de quê com quê
não se pode, aqui como alhures, ter ao mesmo tempo a manteiga e o dinheiro da manteiga, sendo preciso admitir que a percepção, em certo uso da palavra essencial à economia do conceito ordinário de percepção, não é pura e simplesmente uma intencionalidade nem nada que se lhe assemelhe, ou que, logicamente, há um componente fundamentalmente não intencional naquilo que se chama percepção
assim, por essa observação, Charles deu a chave de uma análise gramatical da percepção como a efetuada em numerosas páginas deste livro
posteriormente, o sentido atribuído a esse componente não intencional do conceito de percepção pouco deve a ele, não havendo dúvida de que Charles teria objeções a levantar contra a ontologia e ainda mais contra a poética do sensível aqui esboçada
cabe mencionar, desse ponto de vista, outra influência determinante: a de Claude Imbert, cuja crítica radical à fenomenologia só foi compreendida tardiamente
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para isso, foi sem dúvida necessária a passagem pela ascese austiniana, e seu corolário, certo emagrecimento do conceito de percepção
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sobre essa base, a fenomenologia no sentido histórico do termo, em sua supervalorização do conceito de intencionalidade, de essência na realidade essencialmente tautológica por ser lógica, aparecia enfim como o que era, a saber, uma pura e simples tentativa de domesticar o sensível
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contra isso, Claude Imbert ensinou a buscar alhures, do lado de Baudelaire ou de Lévi-Strauss, um pensamento do sensível e não mais da “percepção” no sentido construído pelos filósofos — isto é, um pensamento da variedade daquilo que se faz e se pode fazer com o sensível
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ela também fez descobrir, coerentemente com essa abordagem, e de forma particularmente importante, aquilo que em
Merleau-Ponty resiste à fenomenologia e vai além dela
cabe aqui prestar-lhe homenagem e gratidão por tudo o que intelectualmente se lhe deve, tendo Charles Travis tirado de um sono dogmático nessas matérias ao fazer entrever a necessidade de uma compreensão não intencional da percepção, e tendo Claude Imbert feito mais que qualquer outro filósofo da época para ajudar a sair do “problema da percepção” tout court, encontrando todo espírito confrontado com a escolástica contemporânea aí uma verdadeira forma de libertação filosófica
é preciso ainda precisar um ponto: não é sem júbilo que se faz ouvir aqui a redescoberta filosófica do sensível, sendo normal que ele faça algum barulho
no entanto, o sensível, se pode trazer alegria e exaltação, glória de nossa condição real, é também o lugar de prova de nossa carência, devendo-se, na celebração possível de sua plenitude, não esquecer o quanto