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O conceito de “sujeito” é desgastado, mas aqueles que buscam substitutos para ele acabam por reintroduzi-lo de outra forma, designando um lugar vazio para o qual ainda não se tem nome, o que aponta para a persistência de um problema e de alguns fatos.
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Apesar da busca por novos nomes para o inominável, opta-se por continuar a usar a palavra “sujeito”, pois não se dispõe de outras palavras além daquelas que a língua já oferece, e cabe apenas dar conta dela tal como ela é, com seus usos e limites.
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O acordo com as críticas contemporâneas ao sujeito se dá em dois pontos fundamentais: o sujeito não é uma coisa, e também não se reduz à evanescência de uma consciência pura.
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O sujeito não é um ego, o que implica uma desrealização e desubstancialização, mas a pergunta sobre o que ele é permanece, e a dificuldade de resposta indica a necessidade de deslocar a pergunta de “o que é o sujeito?” para “quem é o sujeito?”.
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O sujeito é o que fala, mas também o que se fala e se deposita na palavra, e é o que se vive e se experimenta, não constituindo um ponto de acesso inicial ao sujeito, mas permanecendo como um problema a ser enfrentado.
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O sujeito não é uma substância, mas também não é apenas uma parte da experiência; ele está dentro e fora, sendo a testemunha implícita no ponto cego do campo visual, e sua dimensão de prova não é suprimida por não ser primeira.
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A posição correta do problema da subjetividade como “efeito-sujeito” exige o abandono de toda problemática dedutiva, pois a subjetividade aparece sempre também em uma zona de não-direito, que não se resolve por uma origem ou fundamento.
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A análise funcional do sujeito, que pergunta para que ele serve, é a única maneira correta de abordar o problema, e as funções principais do sujeito podem ser descritas pela tripartição de “o que tu és” (natureza), “quem tu és” (pessoa) e “qual tu és” (caráter/moral).
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O sujeito é o jogo, o deslocamento e a opacidade criada entre essas três funções, e ele não precede essa sistemática, sendo definido pela distância e pelo tensionamento entre os termos.
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A tripartição do sujeito é uma interpelação que advém de fora, na segunda pessoa, e o sujeito não sabe tudo de si mesmo; os termos pelos quais ele se interpreta lhe são ditos, mesmo quando ele os usa para se qualificar em primeira pessoa.
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O sujeito tem uma “natureza”, e toda a filosofia moderna se esforçou para livrar a subjetividade dessa natureza, definindo-a negativamente por sua não-coisidade, mas a pergunta persiste: basta não ser uma coisa para não ter natureza?
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A subjetividade não é dissociável dos objetos que a fazem, e ela conserva uma espessura “natural” de sujeito, mesmo que não se reduza a nenhum objeto, o que é ignorado pelas análises que buscam uma identidade abstrata e pura.
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As analíticas modernas da subjetividade deslocam a questão da natureza (primeira dimensão) para a personalidade (segunda dimensão), e a centralidade da questão da pessoa não esgota o problema do sujeito, que também envolve uma parte de anonimato e de “terceira pessoa”.
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A filosofia contemporânea privilegiou uma cultura da ipseidade, buscando as condições de um “ser-si-mesmo” do sujeito, mas o sujeito não se reduz a isso, pois a sua consistência e natureza se experimentam também na indiferença ao seu próprio ser-si-mesmo.
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A analítica do Dasein, ao não aceitar portar propriedades para escapar à coisidade, perde a localização do sujeito, que não é separável do mundo nem de fazer nele um lugar onde ele é sujeito, em depósito do sentido.
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As perspectivas que definem o sujeito como uma “máquina de produzir direito”, culminando no sujeito transcendental como pura responsabilidade formal, desqualificam a dimensão natural da subjetividade.
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As filosofias da ipseidade, centradas na forma da resposta a um apelo e na responsabilidade, esvaziam o sujeito de todo conteúdo para exaltá-lo em sua potência formal, mas a subjetividade também é inalienavelmente algo, ou seja, tem uma natureza.
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A responsabilidade, por si só, não é suficiente para constituir um sujeito, pois ele não pode ser inteiramente “feito”, e sua subjetividade é também o fato de que “algo acontece”, indissociável dos fatos que carregam sua subjetividade.
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O sujeito existe em suas obras e tarefas, mas nunca se resolve completamente nelas, e essa falta de assunção absoluta é o que lhe dá a trama de experiência, o anonimato e o abandono, constituindo sua natureza.
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A subjetividade permanece aberta e indeterminada, na pluralidade fundamental de seus usos, e a questão do sujeito continua em aberto porque a subjetividade não é um sistema absoluto, mantendo um resto de natureza no jogo de suas funções.