Embora as declarações sobre a visão instrumentalista pareçam equivalentes à primeira vista, a posição de Ser e tempo é considerada um meio-termo ambíguo, pois seu instrumentalismo, centrado na oficina do artesão e não na técnica matematizada, ainda não configura a totalidade tecnológica, ainda que o mundo descrito aponte para uma crescente tecnificação.
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O instrumentalismo de Ser e tempo difere do tecnológico por retratar o equipamento no contexto da oficina artesanal, não na técnica matematicamente estruturada.
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A natureza em Ser e tempo não é concebida como uma reserva permanente indiferenciada.
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Apesar das semelhanças com a oficina pré-industrial, o “mundo” no qual a oficina está inserida em Ser e tempo apresenta características que o aproximam de um universo tecnológico.
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A descrição inicial da oficina como uma “região” relativamente autônoma é expandida para a totalidade abrangente da “mundanidade do mundo”, um movimento totalizante especificamente moderno que se manifesta no processo ontológico de “desdistanciar” (ent-fernen) as coisas, impulsionado pela tecnologia a eliminar todo distanciamento e tornar tudo igualmente disponível.
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A oficina, inicialmente uma região autônoma, é integrada na totalidade das regiões que compõem a mundanidade do mundo.
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Esse movimento de totalização é um fenômeno especificamente moderno, cujo sentido pleno ainda não estava revelado no início.
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O processo de “desdistanciar” (ent-fernen) descreve o ato ontológico de aproximar as coisas, que na modernidade se transforma num impulso para eliminar completamente a distância.
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A tentativa de tornar tudo igualmente próximo decorre de uma ontologia unidimensional que reduz tudo a matéria utilizável e intercambiável, exemplificada pela expansão do ambiente cotidiano do Dasein através do rádio.
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A argumentação inicial sobre a humanidade moderna desenraizada, que não mais “habitava” autenticamente a terra, contrasta com a noção posterior de habitação como o “reunir” (versammelt) das entidades em um mundo intrinsecamente local, uma concepção que Ser e tempo, apesar de sua ênfase no mundo-oficina local, acabou por antecipar a “mobilização total” ao integrar esse local na totalidade referencial abrangente.
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A humanidade moderna desenraizada é caracterizada pela perda da habitação autêntica da terra.
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A habitação autêntica, posteriormente elaborada, ocorre quando as entidades são “reunidas” (versammelt) em um mundo que preserva sua integridade e está intrinsecamente ligado a um lugar.
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Esse mundo local é estranho ao alcance planetário da técnica moderna.
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Ser e tempo antecipou a “mobilização total” ao conceber o mundo-oficina local como uma região subordinada à totalidade referencial abrangente.
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A ênfase inicial na primazia de uma ontologia instrumentalista visava combater a objetificação e o dualismo sujeito-objeto da modernidade, mas a descrição da vida cotidiana como um jogo de papéis na totalidade referencial antecipou a dissolução posterior da distinção sujeito-objeto na era tecnológica, onde até os humanos se tornam matéria-prima e a atividade instrumental é apresentada como o modo fundamental de ser-no-mundo, restando apenas a alternativa abstrata da contemplação desinteressada.
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A ontologia instrumentalista de Heidegger contrapunha-se à primazia do ego-sujeito cognitivo, defendendo um eu “impessoal” orientado pela prática, e ao atomismo político, propondo uma individuação autêntica como decisão coletiva.
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Heidegger posteriormente reconheceu que, apesar de seu atomismo, o subjetivismo ao menos mantinha a distinção sujeito-objeto, a qual desaparece na era tecnológica com a vitória do subjetivismo sobre toda a “alteridade”, reduzindo os humanos à matéria-prima.
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A descrição inicial do Dasein como o “para-que” da atividade mundana já indicava sua submissão ao tipo de vida exigido pela produção moderna.
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Ser e tempo estabelece a atividade instrumental como modo básico de ser-no-mundo, colocando a percepção abstrata, seja como curiosidade comum ou escrutínio científico, como a única alternativa à manipulação e produção.
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A crítica à metafísica cartesiana, identificada como uma variante da tese platônica que define o ser como presença constante (eidos) e o conhecimento matemático como seu modo de captura, é ampliada para mostrar como o impulso cartesiano de formalizar tudo para o conhecimento contribuiu para o impulso tecnológico de tornar tudo totalmente presente como reserva permanente.
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A metafísica de
Descartes é determinada pela orientação ao ser como presença constante à mão (Vorhandenheit), que o conhecimento matemático é adequado para captar.
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Descartes define o ser de uma coisa como sua reapresentação pelo sujeito seguro de si, ajudando a definir a ciência moderna como a busca pela formalização total.
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O impulso de tornar tudo totalmente presente para o conhecimento é um ingrediente do impulso tecnológico de tornar tudo totalmente presente como reserva permanente.
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A descrição fenomenológica da vida cotidiana em Ser e tempo, interpretada por alguns críticos como uma visão utilitarista que a revela como trabalho incessante interrompido por distração, aproxima-se da caracterização do mundo tecnológico totalmente mobilizado, embora a instrumentalidade ali descrita seja menos radical que a da técnica moderna posterior.
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Manfred S. Frings argumenta que Ser e tempo expressa uma glorificação do trabalho e do mundo do trabalho diário, gerada pelo isolamento político da Alemanha pós-1918.
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A vida cotidiana é descrita como trabalho incessante com períodos ocasionais de distração, assemelhando-se à descrição de Ernst
Jünger do mundo tecnológico totalmente mobilizado.
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A revelação tecnológica das coisas implica um instrumentalismo ainda mais radical do que o presente em Ser e tempo.
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A ambiguidade persiste quanto à possibilidade de autenticidade (Eigentlichkeit) para o artesão em Ser e tempo, uma vez que as práticas cotidianas são apresentadas como “indiferenciadas” e passíveis de transformação autêntica ou inautêntica, crença que pode ter fundamentado o apelo inicial de Heidegger a uma recuperação autêntica das possibilidades da Alemanha por Hitler.
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A autenticidade (Eigentlichkeit) não flutua acima do cotidiano, mas transforma as práticas cotidianas.
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As práticas cotidianas não são intrinsecamente inautênticas, mas “indiferenciadas” e, portanto, suscetíveis de se tornarem autênticas ou inautênticas.
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A crença na transformabilidade das práticas cotidianas pela existência autêntica pode ter levado Heidegger a apoiar a ideia de uma recuperação autêntica da Alemanha por Hitler.
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A oposição binária entre prontidão à mão (Zuhandenheit) e presença à mão (Vorhandenheit) em Ser e tempo indica que o modo de desvelamento predominante da técnica moderna ainda não havia sido claramente articulado; quando o foi, por volta de 1930, este passou a incorporar aspectos tanto do utilitarismo da prontidão à mão quanto da objetificação da presença à mão, transformando a atitude pragmática do artesão na mania de trabalho da era tecnológica.
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O “ou/ou” entre prontidão à mão e presença à mão sugere uma falta de articulação clara do modo de desvelamento da técnica moderna.
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A partir de 1930, o exame detalhado da técnica moderna revela que ela atribui a si aspectos do utilitarismo da prontidão à mão e da objetificação da presença à mão.
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A atitude pragmática do artesão, considerada básica, acaba por se tornar a mania de trabalho característica da era tecnológica, uma constatação perturbadora para Heidegger, segundo Prauss.
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A percepção das implicações da técnica moderna levou a uma mudança na atitude de Heidegger em relação à ciência, que de uma compreensão inicialmente positiva passa a ser vista como uma atividade motivada pelo desejo de dominação, cuja objetificação contribui para o instrumentalismo da técnica, ao possibilitar maior controle e utilização do que é investigado.
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O primeiro Heidegger tinha uma compreensão positiva da natureza da ciência.
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Posteriormente, Heidegger conclui que as tendências objetificadoras da ciência moderna alimentam o instrumentalismo da técnica moderna.
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A ciência moderna é motivada pelo desejo de dominar as coisas, e sua “objetivação” possibilita meios crescentes de controle e utilização do objeto de investigação.