A estrutura cindida da história do Ocidente em Heidegger
A história do Ocidente organiza-se a partir de uma cisão fundamental entre aquilo que foi efetivamente pensado pela tradição metafísica e aquilo que, permanecendo impensado, condiciona silenciosamente essa mesma tradição.
Essa cisão não constitui um déficit contingente do pensamento histórico, mas o princípio estrutural que governa a narrativa heideggeriana da história do ser.
Origem e início como momentos não coincidentes
A origem do pensamento do ser não se identifica com um início histórico cronologicamente determinável, mas com uma experiência originária de doação que jamais foi tematizada conceitualmente.
O início da metafísica, situado na Grécia clássica, corresponde à transformação dessa doação originária em objeto de pensamento, inaugurando a primazia do ente em detrimento do ser.
A metafísica nasce, assim, não como desenvolvimento da origem, mas como sua ocultação inaugural.
A duplicação da história: metafísica e história do ser
A história do Ocidente desdobra-se em dois planos heterogêneos: a história manifesta da metafísica e a história não tematizada do ser enquanto retraimento.
A primeira apresenta-se como sequência de sistemas conceituais progressivamente determinados pela lógica da presença e da representabilidade.
A segunda não segue uma linearidade cronológica, manifestando-se apenas como traço, vestígio ou eco no interior da tradição metafísica.
O esquecimento do ser como destino histórico
O esquecimento do ser não constitui um erro pontual ou corrigível, mas o próprio destino que governa a história da metafísica desde sua instauração.
A culminação desse destino encontra-se no pensamento moderno e em Nietzsche, onde o ser se reduz definitivamente a valor, vontade ou disponibilidade técnica.
A posição liminar do pensamento heideggeriano
O pensamento de Heidegger não se inscreve simplesmente como mais um momento da história da metafísica, mas ocupa uma posição liminar entre o pensamento do ente e a escuta do ser.
Essa posição implica uma relação essencial com o impensado, que não pode ser tematizado diretamente, mas apenas indicado por meio de uma rememoração pensante [Andenken].
A delimitação histórica da metafísica
A metafísica é concebida como um episódio historicamente determinado, com um início específico e a possibilidade de um término.
Tal delimitação supõe a existência de um antes e de um depois da metafísica, que não podem ser compreendidos segundo os mesmos critérios conceituais que regem o pensamento metafísico.
As margens não metafísicas da história
Antes da metafísica, encontra-se uma experiência originária do ser que não assume forma conceitual nem sistemática.
Após a metafísica, esboça-se a possibilidade de um outro começo, não como superação dialética, mas como transformação do modo de pensar.
Essas margens não são zonas vazias, mas regiões de resistência ao pensamento objetivante.
A insuficiência da genealogia exclusivamente grega
A narrativa heideggeriana da história do Ocidente concentra-se quase exclusivamente no legado grego, tanto em seu pensamento quanto em seu impensado.
Essa concentração deixa na sombra outras possíveis fontes originárias que não se deixam reconduzir à matriz helênica.
A exclusão dessas fontes não se apresenta como mera omissão empírica, mas como limite estrutural do próprio esquema interpretativo.
Emergência do problema da herança não grega
A própria lógica da distinção entre pensado e impensado exige a consideração de um impensado que não pertença à linhagem grega.
A questão de uma herança não grega surge, assim, não como adição externa, mas como problema imanente à construção heideggeriana da história do ser.
É nesse ponto que se abre o espaço para a investigação da dívida impensada em relação à herança hebraica.