O debate contemporâneo sobre o si-mesmo é marcado por uma profunda heterogeneidade conceitual, o que torna problemático qualquer uso não tematizado do termo como se fosse unívoco e autoevidente.
As posições eliminativistas de Thomas Metzinger e Miri Albahari partem de uma concepção reificada do si-mesmo, entendido como uma entidade ontologicamente independente, imutável e proprietária dos estados mentais.
Metzinger sustenta que a experiência de si é uma ilusão gerada por processos neurocognitivos distribuídos, confundindo um construto representacional com uma entidade real.
Albahari distingue rigorosamente entre experiência e realidade, afirmando que o si-mesmo parece possuir independência ontológica, mas de fato carece dela, razão pela qual deve ser considerado ilusório.
A crítica central a essas posições consiste em mostrar que elas pressupõem uma definição excessivamente restritiva de si-mesmo, já amplamente abandonada tanto pela fenomenologia do século XX quanto pela pesquisa empírica contemporânea.
A multiplicidade empírica dos conceitos de si-mesmo
O si-mesmo não é apenas um problema filosófico, mas um objeto de investigação empírica em áreas como psicologia do desenvolvimento, neuropsicologia, psiquiatria e ciências cognitivas.
Ulric Neisser propõe uma distinção entre múltiplas formas de si-mesmo, entre as quais se destaca o si-mesmo ecológico como a forma mais primitiva e fundamental.
O si-mesmo ecológico designa o sujeito enquanto agente corporal situado, capaz de perceber a si mesmo em relação ao ambiente.
Desde as primeiras semanas de vida, o bebê manifesta uma sensibilidade às affordances [affordances] auto-especificadoras, distinguindo entre ações próprias e eventos externos, sem recorrer a uma autorrepresentação reflexiva.
Essa concepção rejeita explicitamente a ideia de um si-mesmo interior substancial, concebendo-o antes como a pessoa inteira considerada sob um determinado ponto de vista.
O si-mesmo experiencial e as emoções autoconscientes
Emoções como vergonha, culpa e ciúme são tradicionalmente classificadas como emoções autoconscientes, pois pressupõem alguma forma de relação do sujeito consigo mesmo.
A distinção recorrente entre vergonha como avaliação negativa do si-mesmo global e culpa como avaliação negativa de ações específicas ilustra a centralidade do conceito de si-mesmo para a psicologia das emoções.
Uma análise adequada dessas emoções exige uma conceituação diferenciada do si-mesmo, capaz de acomodar níveis e modalidades distintas de auto-relação.
Perturbações do si-mesmo na psicopatologia
Desde Karl Jaspers, a esquizofrenia tem sido compreendida como envolvendo distúrbios fundamentais do si-mesmo [self-disorders].
Autores como Minkowski, Parnas e Sass defendem que alterações precoces na estrutura da autoexperiência desempenham um papel patogênico central no desenvolvimento da psicose.
Doenças neurodegenerativas como o Alzheimer são frequentemente descritas como processos de dissolução progressiva do si-mesmo, o que entra em tensão direta com posições eliminativistas radicais.
O si-mesmo no autismo
A literatura sobre o autismo apresenta diagnósticos profundamente divergentes quanto ao estatuto do si-mesmo, oscilando entre a tese da ausência de autorconsciência e a da hipercentralidade egóica.
Essas contradições revelam a insuficiência de abordagens que tratam o si-mesmo como uma unidade monolítica.
Uma análise mais precisa exige distinguir diferentes dimensões do si-mesmo, em especial a dimensão interpessoal, constitutivamente mediada pelos outros.
Déficits nessa dimensão podem manifestar-se em dificuldades de atenção conjunta, apresentação estratégica de si e emoções autoconscientes.
Filosofia e ciência no estudo do si-mesmo
A investigação empírica do si-mesmo não pode prescindir de clarificação conceitual, sob pena de comprometer tanto a formulação das questões quanto o desenho experimental.
A relação adequada entre filosofia e ciência não é a de subordinação da primeira à segunda, mas de cooperação crítica.
A filosofia contribui ao examinar pressupostos teóricos tácitos que orientam a interpretação dos dados empíricos e a própria construção dos experimentos.
A coexistência de múltiplas definições de si-mesmo não indica degeneração conceitual, mas reflete a complexidade multidimensional do fenômeno.