1 Representação

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Articular lo simple: aproximaciones heideggerianas al lenguaje, al cuerpo y a la técnica. Madrid: Ediciones Akal, 2021.

I. O problema da representação no início da fenomenologia

1. O presente se constitui como aquilo que se contrapõe ao representar, enquanto a representação, compreendida como percepção, pertence ao pensar do eu da consciência e da autoconsciência que se determina como sujeito.

2. A intencionalidade assume uma função decisiva na renovação fenomenológica promovida por Husserl e Heidegger, pois permite descrever o mundo da vida e o ser-no-mundo a partir do aparecer dos fenômenos, ultrapassando a alternativa entre realismo ingênuo e idealismo absoluto e transformando as possibilidades de compreensão da existência humana no mundo.

3. A diversidade temática da fenomenologia corresponde à retomada radical dos problemas herdados da tradição, entre os quais a linguagem ocupa uma posição fundamental desde a primeira das Investigações lógicas, embora sua compreensão exija esclarecer as discussões sobre a representação (Vorstellung) que acompanharam a formação inicial do pensamento fenomenológico.

4. A autonomia filosófica de Husserl começou a constituir-se na última década do século XIX mediante o confronto direto com Brentano e seu círculo, especialmente Twardowski, Stumpf e Meinong, e pela apropriação de contribuições de Bolzano e Lotze, em um campo de problemas que participaria da formação da fenomenologia e da filosofia analítica.

5. O problema da representação, intensamente discutido na escola de Brentano em confronto com Bolzano, adquiriu para Husserl uma configuração específica nas investigações geométricas de 1893, quando a representação do espaço exigiu distinguir a intuição direta de uma apreensão simbólica ou abstrata, sobretudo diante da impossibilidade de intuir imediatamente o espaço infinito.

6. A distinção husserliana entre representação intuitiva e representação funcional, inicialmente desenvolvida nos Estudos psicológicos sobre lógica elementar, precisou ser reconsiderada após a publicação da investigação de Twardowski sobre conteúdo e objeto, motivando o manuscrito Representação e objeto, cuja seção preservada, Objetos intencionais, examina tanto a aparente contradição entre a referência objetiva de toda representação e a existência de representações sem objeto quanto a relação entre significado e objeto.

7. A discussão da representação em Objetos intencionais articula a herança cartesiana, o realismo semântico de Bolzano, a tentativa conciliadora de Twardowski e a elaboração husserliana, permitindo esclarecer a importância desse problema para a constituição da fenomenologia e para o tratamento da linguagem posteriormente desenvolvido nas Investigações lógicas.

REPRESENTAÇÃO EM SENTIDO TRADICIONAL

1. A identificação moderna entre representação, Vorstellung e repraesentatio consolidou-se a partir da tradução de ideia por Vorstellung realizada por Christian Wolff, sendo retomada por Meier, Lambert e Kant, de modo que a ideia cartesiana passou a ser compreendida mediante uma terminologia que vinculava o vocabulário alemão à tradição latina da representação.

2. A ideia cartesiana reúne dois aspectos inseparáveis, pois, considerada materialmente, constitui um ato ou acontecimento do espírito e, considerada objetivamente, corresponde àquilo que esse ato representa, de maneira que todo modo de pensar possui um conteúdo representativo e todo conteúdo representativo se apresenta mediante algum ato de pensamento.

3. O prefixo de representação não designa necessariamente a apresentação repetida de uma imagem, pois as ideias cartesianas são comparáveis a imagens sem se identificarem com elas, e sua interpretação como cópias interiores das coisas multiplicaria os domínios ontológicos sem esclarecer a relação cognoscitiva, enquanto tornar algo novamente presente constitui apenas uma modalidade específica do pensar.

4. As formas do pensamento distinguem-se entre ideias que apresentam algo, como um ser humano, uma quimera ou Deus, e atos que acrescentam outra modalidade de relação com o apresentado, como desejar, temer, afirmar e negar, nos quais alguma coisa já apreendida funciona como base da consciência.

5. A ideia constitui a base sobre a qual se realizam outros atos do pensamento, pois desejar, afirmar, negar ou temer pressupõe algo previamente apresentado, sem que essa mediação implique imagens internas de objetos externos, uma vez que as ideias funcionam como meios pelos quais os atos se dirigem às coisas e delas recebem seu conteúdo representativo.

6. A representação, compreendida simultaneamente como conteúdo e ato espiritual, exprime o retorno dos diferentes modos do pensar à sua base representativa, de maneira que o prefixo indica uma remissão de volta ao que sustenta o ato, em vez de significar uma nova apresentação da mesma coisa.

7. O caráter reflexivo da representação estabelece uma relação entre o acontecimento mental e o conteúdo que remete à coisa, inaugurando problemas que atravessam a modernidade até o idealismo alemão, no qual a crítica à substancialidade cartesiana acentua a atividade do espírito na apreensão dos objetos.

8. A herança cartesiana da representação como remissão reflexiva à subjetividade conduz, em Kant, à investigação das condições que tornam possível toda apreensão objetiva, convertendo o retorno ao sujeito em análise das estruturas constitutivas do conhecimento.

9. A filosofia transcendental kantiana investiga a capacidade da razão de examinar as condições de seus próprios conhecimentos, deslocando o sentido de transcendental das determinações universais das coisas para as estruturas a priori do sujeito cognoscente, pelas quais se torna possível um conhecimento científico dotado de universalidade e necessidade.

10. O conhecimento humano depende da articulação entre sensibilidade, pela qual os objetos são dados, e entendimento, pelo qual são pensados, pois a intuição estabelece uma relação imediata com o objeto mediante a afecção dos sentidos, embora o início empírico do conhecer não elimine a contribuição de elementos a priori provenientes da própria faculdade cognoscitiva.

11. A intuição pura constitui uma representação receptiva a priori cujas formas são espaço e tempo, cabendo ao espaço ordenar as relações dos dados do sentido externo e ao tempo ordenar os dados do sentido interno, sem que essas formas se reduzam às afecções empíricas particulares.

12. A intervenção de estruturas a priori na representação transforma seu caráter reflexivo em uma determinação normativa do conhecimento, pois aquilo que pode ser conhecido antecipadamente nas coisas depende das condições que o próprio sujeito introduz na experiência delas.

13. A apropriação hegeliana da reflexão kantiana abre a possibilidade do saber absoluto ao compreender as determinações subjetivas e o estatuto ontológico das coisas como momentos do próprio aparecer do saber, tornando insuficiente a limitação da investigação às condições do conhecimento finito, cuja separação entre aparência e verdade impede apreender plenamente a manifestação mesma.

14. A modernidade consolidou a compreensão das coisas como objetos cujo conhecimento depende de sua constituição subjetiva ou do desenvolvimento do saber absoluto, mantendo, apesar das transformações do idealismo alemão e das críticas posteriores, a cisão entre sujeito e objeto e o duplo caráter da representação herdado de Descartes.

A PROPOSTA DE BOLZANO

1. O realismo semântico de Bolzano desloca a representação do domínio exclusivo dos acontecimentos mentais para uma dimensão de sentido e validade em si, irredutível tanto às imagens psicológicas quanto à existência de entes determinados ou às particularidades dos termos linguísticos empregados.

2. As representações, proposições e verdades em si possuem uma autonomia que impede reduzi-las a manifestações efetivas ou possíveis na mente de um ser pensante, distinguindo sua validade própria dos modos subjetivos pelos quais podem ser pensadas.

3. As representações em si constituem partes das proposições em si e pertencem ao domínio semântico, enquanto as representações subjetivas, como ver, ouvir, perceber e imaginar, pertencem ao domínio dos acontecimentos mentais existentes, de modo que a representação em si subsiste (besteht) sem existir como ocorrência psíquica e fornece a matéria das representações subjetivas.

4. A distinção entre a subsistência da representação em si e a existência da representação subjetiva permite reconhecer representações dotadas de objeto e representações vazias, sem exigir uma classe de objetos inexistentes nem uma duplicação entre objetos reais e objetos meramente intencionais.

5. As representações contraditórias, como quadrado redondo, e as representações fictícias, como montanha de ouro, distinguem-se pelo caráter conceitual ou empírico de sua impossibilidade, mas sua ausência de objeto não elimina o sentido, pois o vazio diz respeito à extensão objetiva da representação, preservando sua consistência no domínio semântico.

A SOLUÇÃO DE TWARDOWSKI

1. A influência de Brentano sobre Husserl permaneceu decisiva mesmo durante o desenvolvimento das divergências filosóficas, pois os estímulos recebidos continuaram orientando investigações e dificuldades que se prolongaram em uma relação simultânea de dependência intelectual e confronto crítico.

2. A continuidade das investigações husserlianas em relação aos impulsos de Brentano manifesta-se na persistência de suas ideias, cuja força formadora se conserva inclusive quando o trabalho filosófico procura superar a imprecisão, a confusão e os limites das posições inicialmente recebidas.

3. O confronto de Husserl com Brentano foi diretamente impulsionado pela interlocução com outros integrantes de sua escola, sobretudo Stumpf e Twardowski, cujas investigações forneceram problemas concretos para o esclarecimento da representação.

4. A orientação de Stumpf na habilitação de Husserl sobre o conceito de número e sua investigação anterior da origem psicológica da representação do espaço favoreceram um projeto husserliano de descrição do espaço geométrico segundo seu conteúdo e sua gênese, inicialmente apoiado na estrutura conceitual brentaniana.

5. A dificuldade de compreender a representação do espaço, especialmente a diferença entre a intuição direta e a referência indireta ao espaço infinito, levou Husserl a examinar, em 1893, os diversos sentidos de representação presentes no pensamento de Brentano.

6. Os Estudos psicológicos sobre lógica elementar constituem uma investigação de psicologia descritiva que antecipa aspectos da terceira e da quinta Investigações lógicas, concentrando-se na ambiguidade de Vorstellung e na relação entre dois modos fundamentais de representar.

7. As vivências representativas distinguem-se entre representações funcionais, que visam objetos mediante conteúdos presentes na consciência sem contê-los como conteúdos imanentes, e intuições, que apreendem seus objetos como efetivamente dados na própria vivência, tornando decisiva a diferença entre simples referência intencional e apresentação intuitiva.

8. A representação em seu primeiro sentido consiste no ato de apresentar ou intuir algo efetivamente diante da consciência, de maneira que o conteúdo imanente da apresentação coincide, nessa elaboração inicial e em continuidade com Brentano, com seu objeto.

9. A representação funcional utiliza um conteúdo dado para visar outro que não está presente, ultrapassando o conteúdo imediatamente apreendido por meio de uma intenção, e sua diferença em relação à apresentação intuitiva reside no modo de consciência ou de apercepção, e não simplesmente na natureza dos conteúdos envolvidos.

10. A investigação de Twardowski sobre conteúdo e objeto procura esclarecer a ambiguidade da representação como ato psíquico e como conteúdo do ato, tomando como questão decisiva o significado de representado quando se afirma que uma representação representa alguma coisa.

11. A solução de Twardowski parte da tese brentaniana de que os fenômenos psíquicos são representações ou se fundam em representações, de modo que o ato representativo constitui a base não apenas do juízo, mas também do desejo e de todos os demais atos psíquicos.

12. A analogia entre ser representado e ser pintado permite distinguir, em uma mesma atividade, aquilo que resulta diretamente de sua execução e aquilo a que ela se refere, preparando a diferenciação entre conteúdo da representação e objeto representado.

13. A atividade do pintor pode ser descrita como pintura de um quadro e de uma paisagem, embora produza um único resultado, pois a paisagem pintada é o próprio quadro enquanto apresentação da paisagem, sem se identificar com a paisagem real.

14. O termo pintado determina o quadro como produto efetivo da pintura e modifica o sentido de paisagem ao designar sua apresentação pictórica, permitindo compreender analogamente que a representação envolve um conteúdo representado, correspondente ao quadro, e um objeto representado, correspondente à paisagem.

15. O conteúdo representativo funciona como mediação entre o ato e o objeto, pois remete a algo distinto de si mesmo, enquanto o chamado objeto imanente corresponde ao conteúdo do ato, distinção pela qual Twardowski procura preservar a função fundamental da representação e superar a identificação brentaniana entre objeto e conteúdo.

16. A diferenciação entre conteúdo e objeto pretende conciliar a tese de Bolzano sobre representações sem objeto com a exigência brentaniana de que toda representação se dirija a um objeto, enfrentando a aparente incompatibilidade entre ausência objetiva e referência intencional.

17. A investigação husserliana de Objetos intencionais participa dessa controvérsia ao tomar como problema central a oposição entre a referência objetiva constitutiva da representação e a possibilidade de não haver um objeto que lhe corresponda.

18. A afirmação de que toda representação representa um objeto parece exigir um objeto correspondente para cada representação, enquanto o reconhecimento de representações sem objeto impõe a tese contrária, produzindo uma contradição que exige esclarecer os sentidos envolvidos na relação representativa.

19. A solução de Twardowski permanece insuficiente para Husserl porque a distinção entre conteúdo e objeto, formulada mediante os sentidos determinado e modificado de representado, introduz uma duplicação inadequada e confunde relações que precisam ser fenomenologicamente diferenciadas.

20. A representação constitui uma vivência intencional pela qual um objeto aparece, exigindo distinguir a relação entre o caráter de ato da apreensão e seu substrato psíquico da relação entre a própria vivência representativa e o objeto representado, cuja confusão sustenta a duplicação problemática entre conteúdo e objeto.

A CONTRIBUIÇÃO DE HUSSERL EM “OBJETOS INTENCIONAIS”

1. A resolução husserliana da dificuldade se orienta pela análise do sentido dos juízos nos quais aparecem as representações problemáticas, afastando-se da separação bolzaniana entre o juízo como atividade subjetiva e a representação como componente semântico da proposição em si, e retomando a distinção brentaniana entre pensar e dizer próprios e impróprios.

2. As investigações de Brentano sobre lógica elementar e psicologia descritiva articularam o estudo dos contínuos, em diálogo com os Paradoxos do infinito de Bolzano, à diferenciação entre representações evidentes e não evidentes, claras e obscuras, distintas e indistintas, próprias e impróprias, concretas e abstratas, fornecendo instrumentos decisivos para o desenvolvimento husserliano.

3. Os juízos sobre objetos aos quais não corresponde existência efetiva podem constituir expressões abreviadas de juízos hipotéticos, como ocorre quando a afirmação de que Zeus é o maior dos deuses olímpicos pressupõe que essa determinação pertence às crenças gregas, de modo que o julgamento se refere propriamente às representações dos objetos e às condições implícitas de sua enunciação.

4. A análise dos juízos hipotéticos antecipa a tese da quinta Investigação lógica segundo a qual a existência do objeto representado é irrelevante para a essência da representação como vivência intencional, pois o funcionamento do como se permite compreender o sentido do enunciado mediante uma suspensão da existência do objeto visado, aproximando-se de uma modalidade de epoché.

5. A suposição introduz uma modificação da consciência posicional pela qual a posição do sujeito do enunciado deixa de funcionar como afirmação efetiva de existência e passa a valer como posição meramente representativa, oferecendo um caminho para dissolver a contradição das representações sem objeto.

6. A função central da suposição consiste em explicitar o caráter hipotético dos enunciados cuja formulação abreviada, motivada pela economia do pensamento, pode ser confundida com uma afirmação própria e incondicionada acerca dos objetos.

7. O reconhecimento do caráter impróprio de determinados enunciados permite rejeitar a divisão entre existência intencional e existência real como solução da dificuldade, afastando-se especialmente de Twardowski e antecipando a concepção de intencionalidade desenvolvida nas Investigações lógicas.

CONCLUSÃO

1. A publicação dos escritos póstumos permite esclarecer problemas fundamentais da formação da fenomenologia e da filosofia analítica, evidenciando a proximidade inicial de duas tradições que, como rios nascidos em regiões próximas, percorrem trajetos paralelos antes de seguirem direções filosóficas profundamente distintas.

2. A problemática moderna da representação foi renovada pelas discussões da escola de Brentano e pelo diálogo com pensadores como Frege, situando Husserl em uma rede de interlocuções na qual a apropriação dos problemas recebidos se articula ao confronto com Twardowski, Meinong e outras posições contemporâneas.

3. A relevância de Objetos intencionais reside tanto na reconstrução das controvérsias que acompanharam a formação da fenomenologia quanto no esclarecimento da relação entre a obra póstuma e os escritos publicados, pois a orientação para as coisas mesmas se realiza mediante o confronto efetivo com os problemas herdados, do qual emerge a concepção intencional da consciência posteriormente elaborada na quinta Investigação lógica.