Fundamento e abismo

XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.

Introdução

1. A filosofia constitui um modo de ver entendido como comportamento diante daquilo que se encontra no viver, e não como uma espécie particular de uma visão genérica previamente estabelecida, pois o encontro cotidiano com as coisas já pressupõe, sem esclarecê-las, tanto a separação entre o eu e o encontrado quanto a individualidade e os limites pelos quais algo se distingue de outro algo, tornando necessário interrogar como se reconhecem as coisas e onde se estabelecem as fronteiras entre si mesmo e o outro.

2. Viver implica necessariamente relacionar-se com as coisas mediante alguma atitude — utilizá-las, contemplá-las, destruí-las ou simplesmente deixá-las estar —, de maneira que cada comportamento constitui um modo de vê-las e, uma vez denominado mundo o conjunto daquilo com que se lida, evidencia-se uma copertença intrínseca entre vida e mundo, inseparável do próprio exercício da existência.

3. Um modo peculiar de ver dirige-se à presença das coisas, em vez de utilizá-las ou investigá-las, retomando a determinação surgida na Grécia segundo a qual algo somente se torna acessível enquanto presente, embora essa presença não se restrinja à materialidade nem à ocorrência imediata no aqui e agora, pois também os mortos, as lembranças e as imagens podem estar presentes, indicando que a relação cotidiana com as coisas permanece orientada por aquilo que é, mesmo quando se manifesta como ausência.

4. A presença das coisas habitualmente permanece despercebida nos comportamentos cotidianos e se torna problemática quando sua maneira de apresentar-se se modifica, como ocorre quando as chaves deixam de estar no bolso no momento em que são necessárias, pois a falta intensifica sua presença e transforma a familiaridade da relação costumeira em uma situação incomum.

5. O comportamento cotidiano com aquilo que se possui ou se experimenta não envolve necessariamente um saber explícito dessa relação, uma vez que ter um carro, sentir frio, estar gripado ou manter uma relação amorosa não exige tematizar continuamente esse ter, mas a perda, o esquecimento ou outra alteração na maneira de presença do habitual pode tornar expresso o que antes permanecia implicitamente vivido e abrir a possibilidade de um modo de ver temático.

6. A filosofia, enquanto modo de ver expresso, não se realiza pela simples percepção da perda ou da ausência de uma coisa, mas exige pensar a presença mesma para além de seu comparecimento ou desaparecimento imediato, mediante um ver denominado pensar, ou noein, que não se confunde com imaginar; entretanto, a identificação habitual entre pensar a presença e pensar uma coisa presente conduziu a metafísica a tratar o estar presente como um aspecto do ente e a reduzir historicamente a presença à entidade, isto é, ao estar sendo daquilo que é.

7. A distinção entre o ente, sua entidade e a presença da entidade permite reconhecer três âmbitos irredutíveis entre si, aos quais correspondem diferentes modos de ver: a cotidianidade relaciona-se com o ente, a metafísica dirige-se à entidade e o pensar volta-se à presença, que não se esgota na determinação metafísica da entidade.

8. A filosofia de Martin Heidegger oferece indicações decisivas para compreender o entrecruzamento desses âmbitos ao recuperar a correlação entre vida e mundo no domínio esquecido da cotidianidade, fazendo da medianidade em que se realiza o ser-no-mundo, anteriormente considerada alheia à filosofia, um ponto de partida renovado para o filosofar.

9. A cotidianidade constitui um ponto de partida sem funcionar como fundamento último, porque sua familiaridade somente se compreende a partir da abissalidade que se revela quando irrompe a diferença entre ser e ente, pois, se o ente é, o ser não é como ente, e tanto a presença quanto a ausência do ente somente podem ser apreendidas a partir do desdobramento da presença enquanto tal, isto é, do ser em seu não ser ente.

10. A elaboração da cotidianidade como ponto de partida do filosofar caracteriza um primeiro momento da obra heideggeriana, enquanto sua abissalidade se desdobra sobretudo mediante a autocrítica desenvolvida no pensamento posterior, habitualmente denominado segundo Heidegger ou Heidegger tardio.

11. A investigação da abissalidade do fundamento desenvolve-se por diferentes caminhos temáticos, buscando tornar acessíveis aspectos de sua articulação filosófica e pensar a presença a partir dos acenos oferecidos pelo próprio pensar.