XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Fundamento y abismo: Aproximaciones a la fenomenología hermenéutica de Martin Heidegger. México: Editorial Porrúa / BUAP, 2011.
A necessidade do abandono. Aproximações ao pensamento onto-histórico
1. A grandeza e a permanência do pensamento de um pensador consistem em trazer expressamente à linguagem aquilo que já ressoava desde sempre, tornando manifesto o que permanecia implicitamente operante.
Introdução
1. A compreensão das condições de publicação da obra completa de Heidegger remete ao testemunho de Hermann Heidegger, recolhido em uma conversa de setembro de 2006, sobre as reservas paternas quanto à capacidade de sua época de compreender os escritos deixados.
2. A orientação inicialmente transmitida por Heidegger ao filho determinava que seus manuscritos fossem lacrados e conservados em arquivo durante cem anos após sua morte, sustentando-se na convicção de que a época ainda não possuía maturidade para compreendê-los.
3. A autorização para publicar a obra completa, concedida em 1973, implicava aceitar a incompreensão que acompanharia os escritos, pois as dificuldades já suscitadas por Ser e tempo para reconhecer outra dimensão da pergunta pelo sentido do ser anunciavam obstáculos ainda maiores à recepção do pensamento tardio.
4. A recepção da obra tardia parece confirmar a previsão de incompreensão, como indica o diagnóstico apresentado por Gadamer em 1965 acerca das críticas dirigidas ao pensamento posterior à viragem.
5. A crítica ao pensamento heideggeriano posterior à viragem contrapõe a intensidade filosófica de Ser e tempo a um discurso supostamente desprovido de sustentação verificável, interpretando suas formulações sobre ser, nada e linguagem como manifestações míticas, gnósticas ou proféticas cuja legitimidade e rigor seriam questionáveis.
6. A dificuldade de acompanhar escritos como Contribuições à filosofia e Meditação decorre tanto da complexidade de seu vocabulário quanto da longa familiaridade com o modo de pensar dominante no Ocidente, tornando plausível que a compreensão de suas possibilidades exija uma imersão mais completa na época contemporânea e em seus limites históricos.
7. A imersão na época contemporânea significa experimentar a consumação do primeiro início do pensamento e reconhecer, nessa culminação, os ecos de um percurso que abre a perspectiva de outro início, de maneira que a situação presente exige pensar entre ambos e retomar o primeiro para tornar possível a aproximação do outro.
8. A posição entre os inícios não constitui um lugar neutro, pois corresponde ao fim do primeiro e ao pressentimento do outro, em uma época na qual se desfazem as bases da relação habitual com o mundo e a exclusividade da razão, enquanto Nietzsche e a ontologia fundamental anunciam uma transformação que exige reconsiderar a filosofia em sua trajetória e origem.
9. A relação com a tradição torna-se ambígua porque o presente somente pode ser compreendido a partir da herança que simultaneamente exige ser questionada, de modo que a morte de Deus em Nietzsche e a reformulação heideggeriana da pergunta pelo ser assinalam uma crise na qual o próprio filosofar se torna digno de interrogação.
10. A dificuldade do pensamento do segundo Heidegger decorre da articulação entre a permanência da tradição, a experiência de sua ruptura anunciada por Nietzsche e pela ontologia fundamental e o pressentimento de outro início, cuja compreensão talvez exigisse a maturação histórica que Heidegger julgava ainda ausente.
11. A publicação da obra completa permite superar progressivamente as leituras existencialistas ou antropológicas de Ser e tempo e esclarecer a articulação do pensamento onto-histórico, pois escritos anteriormente desconhecidos tornam acessíveis as junções da história do ser pressupostas em textos já publicados, possibilitando compreender as passagens entre diferentes regiões de uma mesma questão.
12. A renovação dos esforços de interpretação pode desfazer a redução do pensamento onto-histórico a nostalgia filosófica, mística ou mito, desde que sua radicalidade seja acompanhada em seus próprios movimentos, oferecendo também elementos para reconsiderar a viragem e a possível unidade do percurso heideggeriano.
13. A obra tardia publicada oferece indicações suficientes para pensar a permanência humana no mundo em uma época de transição e consumação, mesmo que as tentativas contemporâneas de compreendê-la permaneçam preliminares e historicamente imaturas.
Obviedade objetual e capacidade humana
1. A ontologia fundamental e o pensamento onto-histórico confrontam duas pressuposições articuladas: a convicção de que já se sabe o que são as coisas e a interpretação de toda tematização como produção humana, questionando inicialmente a redução do ser à simples presença (Vorhandenheit) e mostrando que o Dasein existe e que o utensílio se compreende a partir do contexto de remissões em que se encontra.
2. A ruptura com a hegemonia da simples presença transforma também a compreensão dos comportamentos cognoscitivos, pois o ser humano, enquanto existência constituída por compreensão afetiva, apreende as coisas a partir de seu caráter de projeto lançado, de maneira que a tematização não se reduz a um saber produzido pela razão como representação de algo presente.
3. O pensamento posterior a Ser e tempo aprofunda a crítica dessas pressuposições ao reconhecê-las como uma articulação herdada que determina a época contemporânea, prolongando a necessidade de destruição da ontologia anunciada no projeto de 1927 para além das partes efetivamente publicadas.
4. A investigação posterior concentra-se na técnica como determinação essencial da época, caracterizada pela generalização neutralizadora dos comportamentos cotidianos e das atividades diferenciadas, como ciência e filosofia, nas quais se pressupõe conhecer o que algo é e se estende essa compreensão a todas as situações, pessoas e tempos.
5. A dimensão calculadora sustenta a neutralidade que permite universalizar os modos contemporâneos de apreensão, fazendo supor que seres humanos de qualquer época delimitariam, reconheceriam e reuniriam os entes da mesma maneira, sem considerar a historicidade das condições pelas quais algo se torna acessível.
6. A compreensão habitual identifica o ente com aquilo que se apresenta diante de alguém como um não eu, sem que essa oposição tenha de ser inicialmente espacial ou material, e transforma indevidamente esse modo de encontro em determinação atemporal válida para todo ser humano e para qualquer época.
7. A determinação do ente como objeto contraposto possui uma origem histórica vinculada à constituição moderna do ser humano como sujeito, pois o ego cogito cartesiano estabelece um fundamento de si a partir de si e, correlativamente, apreende aquilo que não é ele como objeto, tornando inseparáveis a objetualidade do ente e a subjetividade humana.
8. A modernidade desenvolve possibilidades já delineadas no início grego ao elevar o cogito à condição de fundamento inabalável da totalidade dos entes e dos desempenhos humanos, de maneira que pensar, poetizar e fazer ciência passam a ser entendidos como realizações da subjetividade, mostrando que a interpretação da atividade como capacidade humana depende da definição prévia da coisa como objeto contraposto ao sujeito.
9. A orientação cartesiana e as bases científicas estabelecidas por Galileu vinculam os comportamentos humanos ao progresso e à objetividade, compreendida mediante igualação e neutralidade, fazendo da heterogeneidade um obstáculo ao procedimento científico e da neutralização do conhecimento uma condição de sua justificação e aplicação geral.
10. A época técnica transforma a obviedade objetual em disponibilidade e a capacidade humana em exigência de domínio, pois as coisas deixam de comparecer principalmente como objetos contrapostos e passam a estar permanentemente à disposição, enquanto a eliminação das diferenças permite torná-las substituíveis, previsíveis e controláveis mediante cálculo, planejamento e organização.
11. A aparente ruptura técnica com a tradição deve ser compreendida como consequência extrema do primeiro início da filosofia ocidental, cuja reconstrução histórica permite esclarecer o caráter ontológico da técnica e preparar um pensamento orientado para outro início.
Fio condutor da transformação técnica
1. A passagem da objetualidade moderna à disponibilidade técnica e da capacidade humana ao controle exige identificar um fio condutor que revele a copertença histórica dessas determinações, pois a época contemporânea desenvolve consequências internas da modernidade, apesar de seu aparente afastamento.
2. A elevação moderna do cogito a fundamento inabalável indica o cumprimento de uma orientação iniciada anteriormente, fazendo da tendência à fundamentação um fio condutor para acompanhar a história ocidental a partir do pensamento onto-histórico.
3. A filosofia iniciada com Platão e Aristóteles estabelece as ideias como aquilo que, previamente trazido à visão, possibilita o encontro com algo, tornando a fundamentação dependente da concordância entre o encontrado e o antecipadamente divisado, cuja formulação como homoiosis e correção do enunciado permite compreender algo como fundamentado.
4. A diferença entre a modernidade e a época técnica parece residir na passagem da vontade de fundamentação ao abandono do fundamento, mas compreender esse abandono sem anulá-lo como simples perda exige retomar o estabelecimento originário do fundamento no primeiro início do pensamento.
Fundamento, produção e presença
1. A pergunta metafísica pelo que as coisas são procura sua essência naquilo que já foi previamente divisado e determina o encontro com o singular, de modo que a ideia se torna a entidade do ente, a ousia, e o aparecer depende do aspecto essencial, o eidos, sendo compreendido como não ser pleno na medida em que limita a realização da entidade.
2. A separação platônica entre o que aparece e aquilo que propriamente é permite reconhecer a constituição de um fundamento que não se encontra simplesmente dado, mas é estabelecido pela produção da essência na pergunta pelo que as coisas são.
3. A produção originária da essência constitui um ver que traz para fora do encobrimento e torna visível o aspecto da coisa, sem fabricá-lo nem encontrá-lo como algo previamente presente, estabelecendo uma fundação (gründen) que se sustenta sobre aquilo que ela própria põe como fundamento, antes de qualquer fundamentação (begründen) apoiada em uma base já estabelecida.
4. A produção da essência como extração do encoberto estabelece o ente em seu desocultamento, denominado pelos gregos alétheia, de maneira que a verdade da apreensão essencial consiste no desvelamento do que e de como o ente é, tornando o conhecimento factual das coisas dependente do conhecimento de sua essência.
5. A interpretação heideggeriana de Platão reconhece que a alétheia somente é tematizada a partir da visão produtora da essência como fundamento, privilegiando o que foi trazido à luz e deixando impensado o jogo entre ocultamento e desocultamento, de maneira que a concordância entre o encontrado e o antecipadamente visto passa a determinar a verdade como correção.
6. A fundação produtiva que acompanha a passagem da alétheia à correção possui o caráter de poiésis, cuja realização os gregos compreendem como téchne, permitindo reconhecer uma determinação técnica na fundação filosófica do Ocidente desde Platão.
7. O caráter técnico da fundação estabelece a verdade como correção e orienta a apropriação ocidental do fundamento como produção, fazendo com que a alétheia seja interpretada a partir da concordância e permaneça, em sua própria essência, fora do questionamento.
8. A recondução onto-histórica ao fundamento do pensar indica que a experiência originária não se esgota na fundação produtiva inaugurada por Platão e Aristóteles, pois a pergunta metafísica pelo ente já pressupõe a verdade como correção e desenvolve uma possibilidade determinada de fundar, sem explicitar a amplitude da experiência de alétheia da qual procede.
A alétheia e o perguntar
1. A história ocidental apresenta três modalidades de ausência de perguntas: a experiência originária da alétheia, ainda não interrogativa; o soterramento dessa verdade pela correção, que deixa impensados a alétheia e o ser enquanto tal; e a época técnica, na qual até a entidade perde sua força de questão e os entes parecem bastar por si mesmos.
2. O primeiro início caracteriza-se pela experiência originária da alétheia e por seu soterramento na metafísica, enquanto o outro início se anuncia na consumação do primeiro como possibilidade de um pensamento não metafísico, exigindo compreender a ausência de perguntas nos diferentes sentidos em que atravessa essa transição.
3. A ausência contemporânea de perguntas e de exigência de fundamentação pertence a uma história já marcada pelo abandono da alétheia em favor da correção, mas somente a consumação técnica da fundação produtiva permite reconhecer plenamente esse abandono e revelar a continuidade do esquecimento do ser desde o primeiro início.
4. A preeminência da entidade interpretada a partir da téchne intensifica-se até tornar possível o domínio técnico de uma época, na qual a evidência do ser e a verdade como certeza parecem ilimitadas, convertendo o esquecimento do ser em princípio e estendendo-o à totalidade dos comportamentos humanos.
5. O reconhecimento do abandono como determinação histórica exige um acesso à alétheia diferente da fundação produtiva, a partir do qual se torna possível pensar a consumação do primeiro início e pressentir outro início sem permanecer inteiramente subordinado às condições metafísicas herdadas.
6. A passagem da consideração do ente como desocultado à experiência do ente como abandonado pelo ser constitui uma exigência decisiva do pensamento onto-histórico, cuja dificuldade depende de compreender a amplitude dessa transformação e sua relação com o acontecer da verdade.
Conclusão
1. A metafísica começa interrogando a entidade e termina com a aparente suficiência dos entes e de seu funcionamento, mas esse percurso encobre o ser como conflito entre abertura e ocultamento, cujo retraimento assume inicialmente a forma de encobrimento e finalmente a de abandono; na época técnica, a recusa de admitir o ocultamento como poder determinante faz o ente comparecer como algo inteiramente factível e manipulável sob a maquinação (Machenschaft), deslocando a pergunta pelo que algo é para a pergunta por como se faz ou funciona.
2. A passagem do que é ao como se faz manifesta a consumação de um percurso no qual a entidade perde relevância diante da operacionalidade, revelando com máxima nitidez o abandono do ente pelo ser e mostrando que o vazio da época técnica não inaugura uma história independente, mas explicita o retraimento já operante no início, quando a metafísica privilegiou a presença positiva do desocultado e deixou impensado o jogo de ocultamento e desocultamento que a possibilitava.
3. A história da metafísica constitui-se pelos modos históricos do retraimento do ser, cuja intensificação moderna eleva a objetualidade e a segurança metódica até desembocar na época técnica, quando tudo parece possível porque tudo se apresenta como factível, embora essa ampliação termine por reduzir a entidade ao fazer; o abandono torna então visível a insuficiência da pergunta metafísica como pergunta apenas condutora e abre a necessidade de preparar a pergunta pelo ser, oferecendo a possibilidade histórica de experimentar o limite do primeiro início e pressentir outro.
4. A imersão pensante na época contemporânea permanece uma investigação aberta, pois o abandono do ser constitui um mistério fundamental da história ocidental atual, cuja compreensão não se encerra em um diagnóstico definitivo nem se resolve pela simples identificação de suas manifestações técnicas.