3.3 Impróprio

WHITE, Carol J. Time and Death: Heidegger's Analysis of Being-upon-the-End. Edited by Mark Ralkowski; foreword by Hubert L. Dreyfus. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2005.

3.3 A Temporalidade Imprópria

1. Os dois modos em que a temporalidade se temporaliza tornam possíveis os modos fundamentais do ser do ser-aí, a existência própria e a imprópria, e na existência imprópria, com seus três êxtases de “aguardar”, “esquecer” e “presentar”, o ser-aí perde-se como o ente cujo ser mais próprio é fazer do ser uma questão, “decai” de seu si-mesmo mais próprio e é absorvido pelos objetos de sua ocupação, tomando como óbvia uma compreensão particular do ser, e nesse modo o êxtase do porvir, agora especificado como “aguardar”, mantém a prioridade, mas envolve o projeto de uma compreensão existenciária (existenziell) particular do ser do que é, e não um mergulho na questionabilidade do ser.

2. Embora Heidegger chame o êxtase futuro da temporalidade imprópria de “aguardar”, o uso verbal do termo sugere uma postura mais ativa, como “estar preparado para”, pois o ser-aí aguarda no sentido de estar preparado para lidar com os objetos de sua ocupação, cujo ser lhe parece confortável e assegurado.

3. Embora o termo possa sugerir uma intenção consciente, o “aguardar” do porvir impróprio é um modo de existência, de ter uma compreensão do ser segundo a qual se lida com as coisas, e não necessariamente de consciência explícita, indicando as habilidades prontas para lidar com as coisas, mesmo com objetos nunca antes encontrados.

4. Heidegger fala também de um modo futuro chamado “esperar” (Erwarten), mais próximo de uma atividade reflexiva, mas geral o bastante para abranger expectativas conscientes e inconscientes, podendo indicar uma orientação para um projeto ou circunstância específicos, e não apenas a capacidade geral de lidar com as coisas, sendo o esperar “fundado no aguardar”, pois só porque o ser-aí aguarda seu poder-ser a partir daquilo de que se ocupa pode esperar algo, embora Heidegger não ofereça exemplos concretos do contraste e da relação de derivação entre ambos.

5. Dois exemplos, no nível das coisas particulares por serem mais imediatamente compreensíveis, podem captar essa distinção.

6. Esses exemplos ilustram não apenas o êxtase impróprio do porvir, mas também os do vigor de ter sido e do presente, já que as três dimensões organizam um fenômeno unitário, vendo-se neles também o “esquecer” e o “presentar” em ação, e o modo como o ser-aí existe futuramente libera esses modos particulares do vigor de ter sido e do presente.

7. “Esquecer” é aqui termo técnico cujo sentido ordinário deve ser posto de lado, pois não se esquecem acontecimentos vividos ou fatos que se poderia tentar recordar, mas o que é ser ser-aí em seu ser mais próprio, algo de que talvez nunca se tenha tido consciência no sentido ordinário e que, portanto, não se pode “esquecer” nesse sentido.

8. Heidegger refere-se várias vezes a um “reter” (Behalten) de modo que sugere que, apesar da oposição no sentido comum, poderia substituir “esquecer”, correlacionando-o com o porvir como aguardar em expressões como “aguardar retendo”, o que indica que no êxtase passado impróprio nada é “esquecido” no sentido ordinário, retendo-se a compreensão existenciária do ser do ser-aí, seu saber lidar com as coisas, o que exige “esquecer” o ser em sua questionabilidade.

9. Só com base nesse reter esquecido se pode “recordar” ou “esquecer” algo no sentido ordinário.

10. Ao recordar acontecimentos ou características das coisas, toma-se seu ser como óbvio e rememoram-se os detalhes de sua particularidade, recordações evocadas pelas ocupações presentes e pelas coisas com que se lida, de modo que o recordar, como modo derivado do passado impróprio, indica também uma absorção nas coisas das ocupações.

11. Correlato ao porvir e ao passado impróprios está o tipo particular de presente que eles liberam, sendo a capacidade atual do ser-aí articulada em função das coisas de que se ocupa, dure o projeto um minuto, um dia, uma semana ou um ano, sempre articulado pela trama de significatividade que constitui o mundo do ser-aí.

12. Movendo-se no nível ontológico, Ser e Tempo interessa-se não apenas pelo modo de relacionar-se com telefones ou móveis de sala, mas pelo modo como se toma o que é em geral como dotado de um ser específico, aguardando-se o que é à mão (Zuhandenes), o simplesmente dado (Vorhandenes), a natureza e assim por diante, por exemplo como criação de Deus ou como material a manipular, o que se manifesta nas expectativas sobre coisas específicas e no modo como a compreensão dispõe o contexto extático dos papéis, metas e padrões segundo os quais se lida com elas.

13. As culturas, como os indivíduos, podem estar mais ou menos imersas numa compreensão do ser tomada como óbvia, sendo períodos revolucionários como o início da modernidade ricos em possibilidades e períodos estéreis como a Idade das Trevas viciados em efetividades.