WHITE, Carol J. Time and Death: Heidegger's Analysis of Being-upon-the-End. Edited by Mark Ralkowski; foreword by Hubert L. Dreyfus. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2005.
2.8 O Ser-para-a-Morte Próprio
1. Se o ser-para-a-morte próprio fosse apenas relacionar-se adequadamente com o próprio deixar de viver, seria difícil ver por que, junto com a “angústia sóbria” em que se confronta o poder-ser individual, “vai uma alegria inabalável nessa possibilidade”, experiência da qual todos “antes fugiriam”, pois nem a alegria de quem crê na vida após a morte é “inabalável”, e Heidegger nem tenta oferecer tal esperança.
2. Diferentemente da relação imprópria com a morte, em que se é apenas o si-mesmo impessoal, o ser-para-a-morte próprio manifesta o si-mesmo mais próprio do ser-aí como o ente pelo qual o ser se revela, e para compreendê-lo é preciso fazer sobressair o significado tanto de “impossibilidade” quanto de “possibilidade” na expressão “a possibilidade da impossibilidade da existência”, pois, como o ser-aí é suas possibilidades, é o que pode ser, precisa já ser de algum modo seu “ainda-não”, o que será, sem o que jamais poderia vir a sê-lo.
3. O ser-aí é seu “ainda-não” como possibilidade de sua existência, aberto ao que está “ainda pendente” em seu poder-ser, podendo sua compreensão do ser mudar e não sendo novos modos de ser sempre impossíveis.
4. Dado o gosto de Heidegger por jogar com as conexões etimológicas das palavras, não é forçado sugerir que, ao descrever a morte como “impossibilidade sem medida da existência” e ao grifar o “im-” de “impossibilidade” na expressão “a possibilidade da impossibilidade da existência”, ele joga com o fato de esse prefixo poder significar tanto “quantidade excessiva” quanto “não”.
5. A compreensão particular do ser exclui algumas possibilidades de ser como não possibilidades, mas permanece-se aberto a novas possibilidades, como os gregos e os cristãos medievais estiveram, e os modos possíveis pelos quais o ser poderia revelar-se podem parecer “sem medida”, não fixados e não fixáveis, quando vistos à luz da finitude do ser-aí, como em Ser e Tempo, embora a concepção heideggeriana da finitude do ser e sua afirmação de que se esgotaram as possibilidades abertas pela compreensão grega antiga do ser imponham limites ao que o ser-aí pode vir a ser, isto é, ao que podemos compreender-nos como sendo.
6. Na história da cultura ocidental, da Grécia antiga até hoje, e na linguagem da analítica de Ser e Tempo, o ser-para-a-morte próprio é a relação com o ser que abre o ser-aí a novas possibilidades de ser, revelando seu ser mais próprio como o ente para o qual o ser está em jogo e libertando-o da compreensão cultural vigente da natureza humana e das coisas, isto é, de sua perdição no impessoal.
7. Heidegger descreve o ser-para-a-morte próprio como “antecorrer” (Vorlaufen) para a possibilidade da morte, termo que literalmente significa “correr adiante” ou “correr à frente” e que poderia ser traduzido por “ultrapassar” ou, como fazem Macquarrie e Robinson, “antecipar”, mas cujo sentido é mais bem captado por “precursar”, já que “precursor” corresponde a um termo alemão derivado (Vorläufer) que significa “precursor” ou “arauto”.
8. Não se pode fixar o momento exato em que ocorre tal mudança na compreensão do ser, que é o instante da visão da existência própria, e Heidegger pode dizer tranquilamente que nesse instante “a pura impossibilidade da existência torna-se possível” e que “a possibilidade se converte em impossibilidade”, frases que pareceriam estranhas se se tratasse apenas do deixar de viver, pois a impossibilidade da existência, a não-efetividade futura desprovida de possibilidades de viver, deveria ser possível o tempo todo, e em vez de dizer que a possibilidade do deixar de viver se converte em impossibilidade seria mais inteligível dizer que ela se realiza.
9. Heidegger fala, porém, da possibilidade da morte existencial, que ocorre quando velhos mundos morrem e novos nascem, deixando para trás antigas possibilidades e dando lugar a novas no “aí” do ser, de modo que a impossibilidade se torna possibilidade e a possibilidade se converte em impossibilidade, e quando o mundo medieval morreu e se transformou no moderno, quando a nova visão do ser do ente se tornou a do impessoal, não houve retorno à antiga compreensão.
10. A morte é, portanto, a possibilidade que revela mais precisamente o caráter de possibilidade do ser-aí, pois o que ele se compreende como sendo e o que ele será são apenas modos possíveis de ser, sem que essas mudanças indiquem que ele escape à limitação de sua morte existencial.
11. Em Introdução à Metafísica, Heidegger comenta que toda violência se despedaça contra a morte.
12. Se o ser-aí pode revelar novas possibilidades de ser, é porque elas já se desvelaram tacitamente, “pré-ontologicamente”, em seu mundo, ocupando o “espaço” entre o território batido do impessoal e a “pura impossibilidade” que limita esse mundo.
13. O ser-aí precisa, porém, voltar-se para a revelação do ser em busca dessas novas possibilidades, que não se inventam nem permitem fazer as coisas serem de qualquer modo escolhido, pois a finitude torna o ser-aí dependente do desvelamento do ser, sendo essa sua “indigência”, e nesse sentido ele precisa “entregar-se” a uma nova revelação de possibilidades.
14. Resta compreender como possibilidades de ser podem desvelar-se no mundo do ser-aí antes que ele as revele explicitamente em seu ser-para-a-morte próprio, pois, se o ser do ente se revela no trato do ser-aí com as coisas, é preciso ainda explicar como esse ser pode mudar e revelar-se de modos novos quando chega o tempo certo, “tempo” no sentido heideggeriano, questão que remete à relação entre a temporalidade própria do ser-aí e a Temporalidade do ser, sem cuja compreensão não se podem completar os detalhes da concepção heideggeriana da finitude do ser-aí.