A predileção heideggeriana por
Kant como pensador “sempre excitante” (
immer erregend), em contraste com a sistematicidade repetitiva de
Hegel, assenta num engajamento profundo e duradouro com sua obra, vista como uma das mais originais da filosofia. Este interesse, nutrido desde a juventude e conformado pelo contexto acadêmico do início do século XX (onde o
Kantbuch era um rito de passagem), culmina na publicação de
Kant e o Problema da Metafísica (1929), obra que deslocou radicalmente a interpretação vigente ao centrar a
Crítica da Razão Pura não numa teoria do conhecimento científico, mas no problema da metafísica mesma. Contra o
neokantismo e o cientificismo da época, que viam a metafísica como superada, Heidegger afirmou vigorosamente que a empresa crítica de Kant visava justamente a sua “Grande Instauração”, ou seja, a reabilitação da razão através de uma delimitação de seus limites legítimos, salvando-a de seu próprio descrédito.