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VALLEGA-NEU, Daniela. Heidegger’s poietic writings: from contributions to philosophy to the event. Bloomington (Ind.): Indiana university press, 2018.

Besinnung (Meditação) (GA66)

A Composição de Besinnung

1. Besinnung foi escrita em 1938–1939, logo após Contribuições à Filosofia (GA65), e — embora pense dentro dos domínios de questionamento por esta abertos — possui caráter distintamente diferente do volume anterior, podendo depreender-se do apêndice a Besinnung, que contém reflexões heideggerianas (escritas entre 1936 e 1938) sobre seu caminho filosófico até então, que desde 1932 Heidegger buscava “a posição básica (Grundstellung) para a questão concernente à verdade do seer”, constituindo Contribuições, a que se refere como Do Acontecimento apropriador (Vom Ereignis), a primeira “configuração” ou “forma” (Gestalt) da posição básica buscada.

2. Besinnung não é uma segunda tentativa de esboçar a nova posição básica buscada por Heidegger, não delineando o volume tanto caminhos e domínios de investigação (como faz Contribuições), mas contendo muitas seções mais longas que de fato têm o caráter de Besinnungen, de “meditações” sobre uma variedade de temas abertos em Contribuições (GA65).

3. Assim como Contribuições, Besinnung é uma tentativa de falar a partir de uma disposição ou atitude que surge do seer histórico, sendo talvez o tom desse volume a única coisa que o mantém unido, não havendo nele desenvolvimento estrutural reconhecível, não percorrendo Heidegger as seis junções de Contribuições, embora se possa dizer que se move dentro delas de vários modos.

4. Tal como Contribuições, Besinnung situa-se dentro da tarefa de preparar a decisão entre o entrincheiramento último da maquinação e o outro início, contendo extensas meditações sobre a história do ser, sobre a maquinação e o poder, aproximando-se nisso tanto de A História do Seer quanto dos Cadernos Negros da mesma época.

5. Besinnung e A História do Seer são talvez os escritos poiéticos mais próximos, em seu caráter, dos Cadernos Negros, razão pela qual se dedicará seção mais longa a esses cadernos no capítulo 5, antes de prosseguir com Sobre o Início, de 1941.

Besinnung (Meditação/Atenção Meditativa) em Preparação da Decisão sobre a História

6. A noção de “meditação” já aparece em Contribuições nos mesmos contextos em que aparece em Besinnung, falando Heidegger especialmente de (1) “meditação histórica” (geschichtliche Besinnung), isto é, da necessidade de meditar sobre a história do ser, mas abordando a meditação também num segundo contexto, o de (2) a filosofia meditando sobre si mesma (Selbstbesinnung der Philosophie).

7. Heidegger repetida e enfaticamente situa a meditação no contexto da decisão sobre a história, intitulando-se a seção 8 “Zur Besinnung” (algo como “para a meditação” ou “sobre a meditação”), começando em tom dramático, destacando a preparação da fundação de “a decisão única”: “se a maquinação dos entes viria a dominar os humanos e desencadeá-los para a essência desacorrentada do poder, ou se o seer concederia a fundação de sua verdade como a aflição a partir da qual o encontro do deus e dos humanos atravessa a contenda de terra e mundo. Tal travessia é o conflito de todos os conflitos: o acontecimento apropriador apropriador, no qual os entes primeiro são consignados a seu pertencimento ao seer.”

8. Na seção seguinte, a 9, Heidegger destaca especialmente a meditação sobre a essência de sua época, época que (em outro sentido) essa meditação já deixou para trás, uma vez que o pensamento seer-histórico já é determinado pelo outro início que busca preparar.

9. O segundo modo pelo qual a noção de meditação figura proeminentemente (além de sua necessidade para preparar o outro início da história) é no contexto da meditação da filosofia sobre si mesma, equivalendo, uma vez que a filosofia como o pensar “do” seer é (ou tenta ser) apropriada pelo acontecimento apropriador, a meditação da filosofia sobre si mesma a meditar sobre como o pensamento pertence à verdade do seer.

10. O caminho do seer, contudo, é solitário, prosseguindo Heidegger, na seção 14, a meditar sobre o dizer pensante do acontecimento apropriador (em distinção da palavra do poeta), sobre a “estranheza”, a “solidão” e a “exposição” desse dizer, tendo o dizer da filosofia esse caráter e devendo ocorrer como meditação porque o próprio seer é unabwägbar, não podendo ser pesado ou medido, sendo como “solidão” (Vereinsamung).

11. Os poucos momentos da seção 14 (intitulada “A Filosofia na Meditação sobre Si Mesma”) aqui destacados deixam ressoar certas disposições que permeiam esse texto e indicam a conexão íntima entre o questionamento da filosofia (pensada como pensamento inceptivo) e o questionamento do próprio seer em sua (possível) ocorrência como acontecimento apropriador histórico, encontrando-se mais adiante no volume uma subdivisão inteira, com dezesseis seções, intitulada “Uma Reunião da Meditação” (Eine Sammlung des Besinnens), que também expressa a dimensão mais íntima da historicidade do seer, na qual Heidegger pensa adiante a possibilidade do outro início.

12. Antes de discutir os temas de Besinnung que de algum modo se movem ao longo dos dois contextos da noção de “meditação” recém-introduzida, cabe uma observação antecipatória quanto à dimensão performativa da escrita heideggeriana, tendo-se destacado, na leitura de Contribuições, certa tensão em seu estilo de falar, tensão ligada às noções de decisão, suportação e conhecer constante.

O Poder e a Vontade de Poder de Nietzsche

13. Heidegger aborda o poder e o sem-poder especialmente nas seções 9 (“Maquinação [Violência, Poder, Domínio]”) e 65 (“Seer e Poder”), vendo-se no capítulo 2 como, em Contribuições à Filosofia, fala de maquinação em sentido mais amplo e mais estreito.

14. O que Heidegger aqui aborda como aniquilação não se refere à destruição de coisas ou à matança de pessoas, mas se relaciona mais fundamentalmente (pensando-se aqui com Heidegger) à aniquilação do próprio ser dos entes, a um grau de abandono dos entes pelo ser como um todo que ameaça cortar a possibilidade de que os entes voltem a ser “mais ser”, isto é, que voltem a abrigar verdade e assim participar do fornecimento de um sítio para o encontro de humanos e deuses e a contenda de terra e mundo.

15. As preleções heideggerianas sobre Nietzsche estendem-se de 1936 a 1940, colocando cada vez mais decididamente Nietzsche na posição daquele que consuma a metafísica, podendo-se apenas perguntar se essa interpretação de Nietzsche foi influenciada pela mudança de posição de Heidegger com relação ao movimento nacional-socialista, de modo que sua crítica à própria época o levou a ler Nietzsche com olhos “mais estreitos”.

16. Heidegger interpreta a “vontade de poder” como o caráter básico dos entes como tais, sendo o caráter básico da “vida”, que Heidegger interpreta como outro nome para o ser (compreendido como eidade), sendo a vontade de poder uma vontade de dominar.

17. O movimento da vida como vontade de poder que se quer a si mesma no contínuo estabelecer e superar de valores estabelecidos está intrinsecamente ligado ao niilismo e ao eterno retorno do mesmo, sendo o niilismo o acontecimento apropriador em que os valores mais altos se desvalorizam a si mesmos.

18. Para Heidegger, a experiência nietzschiana do niilismo foi genuína, embora Nietzsche não pudesse ver como o niilismo está em última instância enraizado na retirada do seer que desencadeia os entes na maquinação (sendo o cálculo com valores um disfarce da maquinação), não podendo Nietzsche pensar a verdade do ser, permanecendo preso ao pensamento representacional e a pensar a verdade em termos de correspondência.

19. O movimento da vontade de poder e do eterno retorno do mesmo é uma forma de maquinação que se consuma, diz Heidegger, na Erlebnis, na vivência que em Contribuições descreve do seguinte modo: “relacionar os entes representados a si mesmo como centro relacional e assim incorporá-los à 'vida'”, sendo os entes atraídos ao movimento autorrelacional da vida, deixando de ser objetos para o sujeito perceptor e tornando-se meios de aprimoramento da vida.

20. Na interpretação heideggeriana, a doutrina nietzschiana da afirmação do eterno retorno é a afirmação última do niilismo, da ausência de fundamento do ser, podendo ver-se, ao olhar para a poderosa interpretação heideggeriana do eterno retorno na preleção do semestre de verão de 1937, O Eterno Retorno do Mesmo, que a questão não é que as mesmas coisas retornem, mas antes se se pode querer que tudo retorne, tudo sem fundamento ou sentido, sem razão ou meta final.

21. Voltando à citação da seção 9 de Besinnung, pode-se reconhecer nas descrições heideggerianas da maquinação o movimento da vontade de poder tal como o pensa em conexão com o eterno retorno, dirigindo-se a maquinação à fabricabilidade, ao estabelecimento e cálculo de novas metas que superam metas anteriores.

22. Para Heidegger, esse autoentrincheiramento autossuperante do poder relaciona-se ao modo como as pessoas insistem no que é “correto”, interpretando ainda a busca por oponentes sempre novos e apropriados como enraizada na implantação do poder, dado que o poder necessita de oposição para seu movimento de autossuperação.

23. Heidegger é explícito quanto a isso antes, ainda na seção 9, ao ligar a maquinação à tecnologia e ao sujeito participante, pertencendo à maquinação um cálculo com as coisas tal que estas são de antemão requeridas a estar disponíveis para serem instaladas ou dispostas, escrevendo: “dessa exigência essencial e ao mesmo tempo oculta brota a tecnologia moderna. Esta liberta os humanos para o impulso de dispor suas massas de tal modo que, através dessa disposição Gliederung], qualquer particularização humana seja superpotencializada, porque qualquer particularização — na forma do sujeito participante [mitmachende] que apenas aparentemente ainda impulsiona e guia — precisa inserir-se no que pode ser feito.”

24. Observou-se acima como Heidegger compreende a essência da maquinação, na medida em que se desdobra em aniquilação de modo que o poder é assegurado através de submissão contínua, como violência (Gewalt), contrapondo a esta Herrschaft e Entscheidung, soberania e decisão, contraste que pode parecer estranho, dado poder-se facilmente associar violência a soberania e decisão, e carregarem as noções de soberania e decisão certa força consigo.

25. A noção de soberania em relação à verdade do seer em sua inceptividade oculta já estava bastante presente em Contribuições, contendo “Herrschaft” a palavra Herr (senhor), mas sendo frequentemente usada na forma verbal herrschen no sentido de “reinar” — como quando certo tom reina num discurso ou um soberano reina sobre seu povo.

O Sem-Poder (das Machtlose)

26. Um apelo tão vigoroso ao impulso (poderíamos dizer “poder”?) do seer, tal como Heidegger o pensa com relação à decisão histórica sobre o outro início, contrasta fortemente com a noção do “sem-poder” (das Machtlose, a distinguir de Das Ohnmächtige, “o impotente”), que surge mais adiante em Besinnung, tendo sido os textos desse volume escritos entre 1938 e 1939, e podendo, se a ordem dos textos for cronológica, inferir-se que alguma mudança ocorre em 1939, ano em que eclode a Segunda Guerra Mundial.

27. A primeira ocorrência da noção do sem-poder (que Heidegger destaca) dá-se na seção 49: “como o acontecimento apropriador da recusa, o seer guarda sua singularidade na unicidade de sua clareira, através da qual o que é essencialmente sem-poder se torna estranho em relação aos entes tal como eles 'usualmente' são (o eficaz [ Wirkendes ]) e, no entanto, ele [o sem-poder] os dissemina em sua ausência de fundamento oculta e resguarda para os deuses o tempo-espaço de uma proximidade e distância.”

28. Na seção 51, o ser-sem-poder aparece em contexto ligeiramente diferente, a saber, no contexto da constância humana na verdade do seer: “seer-historicamente, essa constância [ Inständigkeit ]… é, sem poder, a dominação sobre a maquinação. O poder da maquinação só entra em colapso quando alcança o empoderamento de sua superpotencialização, de tal modo que já não pode evitar aquilo que unicamente se subtrai à sua violência: a ausência de fundamento da verdade do ser, que ela mesma é de modo maquinacional.”

29. O que começa a aparecer aqui, na noção do “sem-poder”, é um sentimento ou disposição (não quereria Heidegger, é claro, falar de “sentimento” por causa de sua conotação subjetiva) que se tornará cada vez mais dominante no pensamento heideggeriano dos anos 1940 e que se ligará a noções como pobreza, nobreza e dignidade.

30. A seção 65, “Seer e Poder”, é onde Heidegger fala do sem-poder mais marcadamente, aparecendo a palavra no contexto de sua crítica a uma compreensão dos entes como sendo reais ou efetivos e eficazes.

31. É porque o seer permanece fora do domínio do poder que permanece abrigado da maquinação, tendo, contudo, por outro lado, a maquinação, isto é, o abandono dos entes pelo ser, suas raízes na verdade do seer (raízes das quais, na consumação da metafísica, começa a se desarraigar na vontade de vontade autocircundante).

32. Em Contribuições, Heidegger pensa o primeiro início, no qual a verdade do seer permanece infundamentada, em termos da “Entmachtung der φύσις”, isto é, o despoderamento da φύσις, e em conexão com o colapso (Einsturz) da ἀλήθεια, perdendo a φύσις seu poder em relação à τέχνη, na medida em que, através da τέχνη, os humanos ganham uma postura (de fato, encontram-se compelidos a tomar uma postura) em meio ao poder avassalador do ser (φύσις).

33. A expressão que Heidegger usa para descrever o início do declínio da história ocidental, “despoderamento da φύσις”, trai uma afirmação da noção de poder como algo “positivo”, podendo ver-se, ao olhar para seus cadernos de 1932, que fala de uma necessidade de empoderar o ser (Seinsermächtigung), falando também, em Contribuições à Filosofia, de poder de modos afirmativos.

34. Uma leitura generosa de Heidegger exigiria distinguir diferentes significados de poder, distinguir o poder dos entes do “poder” do ser que, no primeiro início, é tão “poderoso” que compele uma postura contra ele, conduzindo assim o ser como φύσις à maquinação, sendo a fonte da maquinação, fonte, contudo, que de algum modo se desengaja daquilo a que dá origem.

35. Já se apontou que, embora o seer seja sem poder, para Heidegger, possui, ainda assim, “soberania”, tendo-se também anunciado que essa noção se liga às noções de pobreza e dignidade, escrevendo, na seção 65a: “a soberania no sentido inceptivo não precisa de poder; reina a partir da dignidade, aquela simples superioridade da pobreza essencial que, para ser, não precisa de nada abaixo ou contra si.”

36. Todas essas novas palavras aqui destacadas carregam disposições que começam a emergir em Besinnung e ocuparão cada vez mais espaço nos escritos poiéticos de Heidegger.

37. É digno de nota que, em Besinnung, as novas disposições aparecem ao mesmo tempo em que Heidegger leva sua leitura de Nietzsche ao extremo, combinando sua interpretação da vontade de poder como vontade de vontade com relatos do desdobramento da maquinação em violência e com críticas aos acontecimentos correntes, parecendo que seu pensamento encontra refúgio das escaladas da maquinação na pobreza e na dignidade do seer.

38. Um olhar sobre A História do Seer (GA69) pode ajudar a ver como se desenvolvem os agrupamentos de palavras aqui examinados, não sendo a noção de “sem-poder” tão proeminente, mas falando Heidegger mais frequentemente de pobreza (Armut), levando duas seções (99 e 100) esse termo como título.

39. Essa ênfase nas novas disposições não deve levar erroneamente a pensar que o tom decisional desaparece nos escritos heideggerianos de 1938–1940, continuando Heidegger suas meditações sobre maquinação, devastação e poder, e mais frequentemente em clara referência a acontecimentos correntes.

O Acontecimento apropriador: A Realização (Austrag) do Encontro (Entgegnung) entre Deuses e Humanos e a Contenda (Streit) de Mundo e Terra

40. A primeira mudança marcante com relação a Contribuições é que, tanto em Besinnung quanto em A História do Seer, Heidegger abandona a noção de Kehre, a “reviravolta” no acontecimento apropriador (não aparecendo nenhuma vez em nenhum desses volumes, mas voltando a desempenhar papel importante em O Acontecimento apropriador).

41. Em Contribuições, Heidegger fala da reviravolta no acontecimento apropriador de diferentes modos, falando com mais frequência dela como a reviravolta entre chamado e pertencimento (Zugehörigkeit contém a palavra hören, “ouvir”) do Da-sein (e, com o Da-sein, dos humanos) ao seer; ou fala da relação de reviravolta entre o lançamento do seer e o projeto-lançado do Da-sein.

42. Em Besinnung, a ocorrência essencial da verdade do seer (Wesung der Wahrheit des Seyns) é articulada repetidamente como a realização (Austrag) do encontro de deuses e humanos e a contenda de terra e mundo, sendo o deslocamento da articulação do acontecimento apropriador primariamente em termos da relação entre o lançar ou chamado do acontecimento apropriador e a resposta ou lançamento dos humanos consistente com um esforço crescente de pensar o seer não primariamente em relação aos humanos, isto é, nem a partir de seres humanos que se relacionam com o ser, nem a partir da relação do seer em direção aos humanos.

43. Na seção 16 de Besinnung, Heidegger escreve: “acontecimento apropriador apropriador — que mutuamente designa para a realização [zum Aus-trag] o encontro e aqueles que en-contram, a contenda e aqueles que estão na contenda, e que — como a apropriação dessa designação apropriadora — clareia o fundamento abissal [ Ab-grund ] de tal modo que na própria clareira sua essência — e isso significa a verdade mais inceptiva — se funda. Seer — nada divino, nada humano, nada mundano, nada terreno — e ainda assim, para tudo, num só, o entremeio — inexplicável, sem efeito, fora do poder e da impotência, o seer ocorre essencialmente.”

44. Um pouco depois, na seção 13 de Besinnung, Heidegger destacará que tal realização precisa ser “combatida” ou decidida, falando novamente do acontecimento apropriador como conflito (Kampf) (a distinguir de guerra e paz) entre encontro e contenda, escrevendo sobre o encontro como uma decisão sobre a ocorrência essencial entre deuses e humanos, e como na contenda a essência de mundo e terra são designados.

45. O pensamento precisa situar-se nesse conflito e pensar a partir dele, sendo a tarefa do questionar pensante pensar o seer como acontecimento apropriador “a partir do 'mundo' e da 'terra', a partir do humano e do deus — mas sempre ao mesmo tempo a partir da contenda e de seu encontro e, sobretudo, a partir de seu conflito”.

A Clareira

46. A ênfase no modo como Heidegger pensa o acontecimento apropriador desloca-se, então, em Besinnung, da estrutura talvez mais preparatória de chamado-resposta para o pensar adiante (num saltar adiante e para dentro da clareira do seer) rumo à realização do acontecimento apropriador no encontro de deuses e humanos e na contenda de mundo e terra.

47. Na seção 36 de Besinnung, intitulada “A Clareira”, Heidegger fala de uma “dupla ocorrência essencial de clareira: como brasa escura (Glut) da atitude atonalizante a partir do abismo do seer e como simples clareza (Helle significa o estado de estar brilhantemente iluminado) da compreensão cognitiva (Inbegriff) para a constância no entremeio. Ambas ainda não são alcançadas em sua unidade originária. Ambas necessitam a transformação da essência dos seres humanos em Da-sein.”

48. Embora a clareira aborde a abertura da verdade abissal do seer tanto em Contribuições quanto em Besinnung, ao atentar-se ao modo como Heidegger fala da clareira em Besinnung, podem-se notar mais diferenças.

49. Em Besinnung e A História do Seer, Heidegger fala da clareira em vários contextos e formulações, incluindo a enfatizada em Contribuições, falando, porém, com mais frequência da clareira do seer (Lichtung des Seyns), permanecendo essencial a relação com a ocultação e o abismo (falando Heidegger, em várias passagens, da clareira do abismo), mas vendo-se acima como agora pensa o seer mais marcadamente como a realização de encontro e contenda.

50. Transportar e abrir-espaço são o temporalizar e o espacializar que constituem a clareira de encontro e contenda, vindo tal clareira a ser na medida em que ocorre a partir da realização, não sendo essa realização apenas vazia, mas, diz Heidegger, sempre determinada e disposta (bestimmt significa ambos), sendo o que escreve aqui reminiscente da análise, na seção 242 de Contribuições, do tempo-espaço como o qual o abismo ocorre: uma clareira sem fundamento que carrega disposição e determinação anteriores a qualquer ente (coisa) específico.

A Clareira dos Entes e o Erro

51. A determinação da clareira do seer não surge de entes específicos que se mostram na clareira, mas da apropriação do encontro de deuses e humanos e da contenda de mundo e terra, vindo os entes primeiro a aparecer na clareira, prestando Heidegger atenção a destacar isso: “e apenas muito além, ali fora [sehr weit draußen], onde o 'mundo' está em contenda com os entes intramundanos, ocorre a essência da clareira como o automostrar-se dos entes; o automostrar-se reivindica [beansprucht] a essência inceptiva da clareira. Partindo do automostrar-se, a essência da verdade jamais pode ser questionada.”

52. Vê-se, então, como ainda há uma diferenciação em jogo entre seer e entes, de modo que a clareira do ser de algum modo precede os entes, requerendo, contudo, a história (também a história do outro início) o vir a aparecer dos entes, que Heidegger já abordava em Contribuições como um “estar-postado na clareira” (Hereinstand in die Lichtung).

53. Aqui, também, encontra-se uma diferença decisiva entre Besinnung e Contribuições, tendo sempre Heidegger, em Contribuições, enfatizado como a clareira precisa ser abrigada (geborgen) nos entes, sendo somente através dos entes que a clareira da verdade encontra um sítio concreto.

54. A ocorrência essencial do seer parece ocorrer independentemente dos entes, ao mesmo tempo em que o seer, em seu acontecer, se clareia e assim permite o surgir e o declinar dos entes, sendo a diferença entre seer e entes fortemente enfatizada também na seção 66a: “nos entes, contudo, o seer jamais deixa traço. O seer é aquilo que é sem traço, nunca um ente e nunca a ser encontrado entre eles, no máximo em sua aparência inicial [Schein] — no ser como eidade.”

55. Em Contribuições, encontra-se Heidegger dizendo: “o seer ocorre essencialmente; os entes são”, encontrando, contudo, na última parte de Contribuições, a escrita mais tarde, mais próxima de Besinnung, uma nomeação que considera mais originária e que diz: “só o seer é” e os entes não são.

56. E, ainda assim, no outro início da história, os entes vêm à clareira, não havendo história alguma se isso não acontecesse, escrevendo Heidegger às vezes mesmo da clareira dos entes, apenas que o “de” significa aqui algo diferente do que significa na frase “a clareira do seer”: no último caso, a clareira pertence ao seer; no primeiro, os entes são aquilo que é clareado.

57. Talvez a seção 68 possa aproximar de alguma compreensão disso, falando aqui Heidegger da clareira dos entes no contexto do esquecimento do seer: “os humanos jamais podem livrar-se do esquecimento do ser; mesmo que honrem o que é mais digno de questionamento na questão da verdade, e precisamente então confirmam que precisam ser apropriados por uma apropriação; a recusa permanece e o voltar-se para os entes e a constância neles é requerida, e com isso novamente um esquecer do ser que não é diminuído pelo questionamento do seer, mas apenas tornado manifesto em sua estranheza inquietante.”

58. Não há passagem em Contribuições em que Heidegger enfatize, do modo como faz acima (em Besinnung), que o esquecimento do seer não pode ser removido e que é constitutivo da própria experiência do caráter abissal da verdade.

59. O erro é essencialmente constitutivo da verdade do seer, percepção que Heidegger já tinha em Ser e Tempo e que desenvolveu em seu ensaio “A Essência da Verdade”, em 1930, aparecendo essa percepção em Besinnung com renovada ênfase.

60. Embora Heidegger abrace o erro como parte do que ocorre na clareira e como parte daquilo com que o pensamento do seer deve conviver e de que não pode escapar, na seção 7 de Besinnung distingue o erro da distorção (Verkehrung), enraizada no erro e que aborda um cair nos entes e sua predominância exclusiva.

61. Essa passagem sugere que o pensamento seer-histórico experiencia o erro, o voltar-se para os entes, sua ambiguidade entre estar-postado na clareira e ocultar a clareira, mas que, por conhecer o erro, pode manter a distorção à distância, desde que ocorra em ser-aí constante.

A Morada Humana na Clareira contra a “Animalidade Humana”

62. A clareira do seer vem a se contrapor à “animalidade humana”, sendo Heidegger bastante explícito quanto a isso na seção 74, escrevendo que só ao questionar o que é mais digno de questionamento “a clareira nos entes, o próprio seer, é guardada contra ser arrastada para a estupidez e a cegueira do mero animal; só que — com o remanescente residual e o roubo dessa clareira e meditação — os humanos podem confessar 'conscientemente' a cegueira de um impulso e lançar definitivamente a dignidade de sua essência no desconhecimento.”

63. Heidegger não diz simplesmente que os humanos se tornam animais, mantendo sempre uma diferença essencial entre o humano e o animal, diferença que reside na clareira do ser que, considera, não é concedida aos animais.

64. As reflexões críticas heideggerianas sobre o “animal humano” surgem também em confronto com a noção de Oswald Spengler do humano como “predador” e com o livro O Trabalhador, de Ernst Jünger, referindo-se Heidegger a eles na seção 10 de Besinnung, encontrando-se mais referências a Jünger em A História do Seer.

65. As referências aos humanos como animais (“o animal histórico”, “o animal pensante”, “o predador humano”) estão muito mais presentes em Besinnung do que em Contribuições, testemunhando um confronto crítico intensificado com a época que Heidegger identifica como a consumação da metafísica.

66. Na clareira do seer (no Da- do Da-sein), o ser humano permanece no erro, de tal modo que o pensamento pode manter-se vigilante contra o voltar-se para os entes, vigilante contra o poder dos entes sobre o ser, e contra um cálculo com as coisas segundo impulsos, inclinações, prazeres e deleites.

67. Isso traz de volta a discussão de Besinnung à questão da decisão e ao contexto histórico desse volume, com que se iniciou a exposição de seus textos, encerrando-se este capítulo expositivo de Besinnung com três possibilidades de história que Heidegger contempla na seção 70, dizendo essas decisões respeito também à diferença entre seer e entes que veio à tona em vários contextos acima.

A Decisão entre Seer e Entes e Três Possibilidades da História do Seer

68. No capítulo 2, expôs-se como, em Contribuições à Filosofia, Heidegger tenta superar a diferença ontológica e o enquadramento transcendental da questão do ser em Ser e Tempo ao pensar na simultaneidade de ser e entes e a partir daquilo que anteriormente concebia como o horizonte temporal do ser e que agora chama a verdade do ser.

69. No capítulo 3, notou-se também como Heidegger distancia o seer dos entes ao diferenciar a contenda originária da verdade do seer da contenda de terra e mundo, e ao situar ainda o encontro de deuses e humanos como “anterior” à contenda de terra e mundo.

70. E, no entanto, Heidegger frequentemente articula uma diferenciação entre seer e entes de várias maneiras, tendo-se visto, na discussão do erro acima, como o pensamento na clareira do seer, se é constante nessa clareira, mantém à distância um voltar-se para os entes de tal modo que estes se tornem dominantes e distorçam a clareira do ser.

71. Em cada um desses casos em que Heidegger enfatiza a diferença entre seer e entes, a história está em jogo, estando a questão da simultaneidade e da diferença entre seer e entes, então, intrinsecamente ligada à questão da história do seer.

72. Na seção 70 de Besinnung, Heidegger fala de três possibilidades de história, “através das quais, de modos diferentes, a diferenciação de entes e seer é mantida aberta como a decisão”, abordando essa seção, então, precisamente a questão da decisão da história em relação à diferença entre seer e ser, sendo a ordem em que apresenta as três possibilidades, como enfatiza, sem importância:

73. Heidegger fala dessas possibilidades numa seção intitulada “Deuses. O Conhecer Essencial”, vendo-se como, para Heidegger, o conhecer essencial (wesentliches Wissen) nomeia mais uma disposição do que uma apreensão cognitiva de algo.

74. Quando Heidegger diz que “o conhecer essencial não tolera uma perturbação por aquilo que é apenas um ente”, acentua novamente um distanciamento dos entes em direção ao seer, sendo, quando o pensamento questiona mais longe em direção aos deuses e à possibilidade da ocorrência do acontecimento apropriador, mais pronunciado esse distanciamento do que são “apenas entes”.

75. Ao mesmo tempo em que Heidegger questiona a possibilidade de uma fundação histórica, esse questionamento precisa permanecer aberto à segunda possibilidade, a da ausência de fundação, acabando por dar a essa segunda possibilidade muito mais espaço em suas reflexões (em Besinnung) do que às demais, escrevendo que essa segunda possibilidade é a mais difícil de sustentar ao realizar o questionamento inceptivo na postura do conhecer essencial, deslizando-se sempre pontos de vista historiográficos (die historische Blickstellung schiebt sich dazwischen).

76. Diria-se que aqui o pensamento heideggeriano está sempre em perigo de permanecer determinado por aquilo que busca superar, escrevendo, precisamente ao pensar sobre a maquinação e a vivência, no modo de repelir o pensamento metafísico, de diferenciar-se dele, permanecendo, contudo, desse modo, ligado àquilo de que se diferencia, o que inclui os entes em sua ocorrência maquinacional efetiva.

77. Recorde-se o que Heidegger escreve antes de falar das três possibilidades de história, dizendo que, através delas, “a diferenciação de entes e seer é mantida aberta como a decisão” — mas como se mantém aberta?

78. Poder-se-ia ler os escritos poiéticos de Heidegger orientando-se em relação a qual dessas possibilidades de história pesa mais, parecendo que Heidegger enfatiza extensamente a segunda possibilidade (a de que a história do ser termina na dominação total da maquinação) tanto em Contribuições quanto em Besinnung e A História do Seer, acreditando-se também que, naquela época, considerava isso importante para manter aberta a primeira possibilidade, a da fundação de época.

79. A postura heideggeriana começará a se deslocar nos volumes poiéticos posteriores, Sobre o Início e O Acontecimento apropriador, sugerindo-se que isso está ligado ao fato de que seu pensamento se moverá mais para a terceira possibilidade, a híbrida, em que a história do seer ocorre em ocultação, oculta à maioria, sem qualquer fundação revolucionária da verdade do seer no Da-sein para um povo.


Um Engajamento Crítico com Besinnung (GA66), A História do Seer (GA67), e os Cadernos Negros de Heidegger

Os Escritos Poiéticos de Heidegger e os Cadernos Negros

1. Besinnung e A História do Seer estão em proximidade mais estreita com os Cadernos Negros de Heidegger do que os demais escritos poiéticos, sendo os anos 1938–1939 de fato aqueles em que mais escreveu em seus cadernos, havendo, além de várias referências aos Cadernos Negros (chamados por ele Überlegungen) nos escritos poiéticos daquela época, também temas e estilo de escrita frequentemente bastante semelhantes.

2. Na própria compreensão heideggeriana, suas deliberações nos Cadernos Negros são “postos avançados discretos — e posições de retaguarda na totalidade de uma tentativa de meditação ainda indizível, a caminho de conquistar um caminho para um pensamento novamente inceptivo que se chama… pensamento seer-histórico.”

3. Num caderno anterior, escreve que a questão nos Cadernos Negros não é criticar estados de coisas ou ver tudo negativamente, mas apontar para o que é “mais próximo” a fim de “pensar adiante para dentro do próprio seer e seu movimento simples e básico”.

4. Escreveu-se, em conjunto com Contribuições, ver-se na disposição heideggeriana de contenção uma resistência à disseminação e à pluralização, e que isso o leva a ler toda a história ocidental em termos de uma única história do seer, acreditando-se que a mesma atitude também determinou sua interpretação do que acontecia ao seu redor.

5. O pensamento inceptivo (quando bem-sucedido) é, para Heidegger, um pensamento apropriado pelo acontecimento apropriador, um pensamento que responde a um “chamado do seer” e que tenta trazer à luz o seer ou desvelar um sentido de seer no dizer, sendo isso nitidamente diferenciado do pensamento representacional, dirigido aos entes.

6. O que é decisivo para o pensamento seer-histórico é que uma disposição fundamental precisa ser sustentada, surgindo, para Heidegger, as disposições fundamentais do seer, e não dos entes.

7. Reconhecer essa complexidade requereria levar em conta não apenas disposições fundamentais, mas também disposições ou atitudes afetivas relacionadas a coisas e acontecimentos específicos, sendo digno de nota que, ao passo que em Ser e Tempo e Conceitos Fundamentais da Metafísica Heidegger considera disposições não fundamentais, como o medo (de algo) ou o tédio relacionado a situação específica, em seus escritos poiéticos se limita a falar de disposições fundamentais.

8. Reconhecer a complexidade das disposições requereria também, aqui se acredita, levar em conta o corpo vivido (Leib) e o modo como é permeado e moldado por linhagens e experiências que em sua maioria escapam à nossa consciência.

9. Isso conduz a outro aspecto dos erros de Heidegger que se deveria questionar, a saber, aquele limiar delicado entre disposições e determinações delas surgidas, isto é, entre sentidos de ser e o que vem ao pensamento e à palavra.

A Estranheza da Guerra

10. Interessante a esse respeito é o texto intitulado “Koinon: A partir da História do Seer”, dos anos 1939 e 1940, podendo ver-se, nesse texto, um deslizamento acontecer, de uma disposição que surge em relação à guerra, e da interpretação dela decorrente.

11. Heidegger começa o texto escrevendo: “hoje todo mundo experiencia e nota assiduamente a 'estranheza' [das Seltsame] desta Segunda Guerra Mundial”, manifestando-se essa estranheza, prossegue, em como “tudo é incorporado à guerra que aparentemente ainda não está presente [noch gar nicht vorhanden]”.

12. Heidegger nota algo particular sobre “guerras mundiais”, indicando essa designação, “guerra mundial”, segundo ele, que o próprio mundo se torna belicoso, desaparecendo a distinção entre guerra e paz porque “a liberdade é agora o controle superpotencializador sobre todas as possibilidades de guerra, bem como a segurança dos meios para realizar a guerra”, sendo essa também uma frase que se poderia afirmar como verdadeira para nossos tempos.

13. O próximo movimento que faz é dizer que todas as formas de organização política, democracia e estados autoritários, são a mesma coisa; são as mesmas formas de implantação política do poder, sendo que o povo esteja no poder em estados democráticos apenas aparência (Schein).

14. Nesse ponto, já não se pode simplesmente seguir Heidegger, não porque não se veja algo verdadeiro em sua análise da prevalência do poder (Foucault analisa isso de outro modo), não porque não se veja certa onipresença da maquinação em todo tipo de instituições políticas (incluindo sindicatos e organizações de vida selvagem, que geralmente se tende a apoiar), mas porque, nesse ponto, perde todo senso de diferenciação.

15. Encontra-se um deslizamento acontecendo no movimento do pensamento heideggeriano aqui: primeiro, há uma disposição ou atitude (o sentimento de estranheza) em relação ao que é; então essa disposição é nutrida, suas ressonâncias se estendem cada vez mais… e quase imperceptivelmente o deslizamento acontece, o singular já não tem espaço, exceto para a singularidade de um sentido de ser.

Heidegger, a Alemanha e o Estrangeiro

16. Talvez seja porque Heidegger abriu tantos caminhos importantes para pensar, porque nos encorajou a repensar o que significa ser e nos ensinou a pensar com e através de experiências e disposições, que permanecemos perplexos e sem palavras quando escreve, em seus Cadernos Negros, coisas que agora nos parecem míopes, provincianas, embaraçosas, de mau gosto, ultrajantes ou inaceitáveis.

17. Certamente, dever-se-ia diferenciar o nacionalismo utópico heideggeriano do nacionalismo do partido nacional-socialista, mas o privilegiar dos alemães na narrativa heideggeriana da história do seer (embora ancorado na linhagem de grandes filósofos como Nietzsche, Schelling e Hegel, e no poeta favorito de Heidegger) trai cegueira total diante das muitas outras linhagens e histórias existentes.

18. Mais difíceis, se não impossíveis, de engolir para muitos são os pronunciamentos heideggerianos nos Cadernos Negros a respeito do judaísmo mundial, que interpreta — mais uma vez — como forma de maquinação, estando o judaísmo, para ele, claramente bem distante da essência ainda não encontrada do povo alemão.

19. O que leva Heidegger a tais observações? Disposições fundamentais? Ou antes disposições e atitudes enraizadas em linhagens e circunstâncias que não consegue ver, cegado pela tarefa que tudo consome de preparar o outro início da história ocidental?

O Silêncio de Heidegger: Exposição e Impotência

20. Frequentemente pergunta-se o que se teria sentido, pensado e feito se se tivesse vivido na Alemanha durante o regime nazista, sendo isso sempre acompanhado de forte senso de inquietação e quase repugnância.

21. Condenar Heidegger não ajuda; talvez se sinta culpa por associação; talvez seja a memória de momentos na vida em que se permitiu ser guiado por sentimentos e julgamentos de pessoas que prejudicaram outros que não se desejava prejudicar; talvez seja porque se sabe não se estar imune à pressão de opiniões alheias e propenso ao erro.

22. Heidegger sabia do erro: que jamais pode ser removido. Como é, então, que insiste num “conhecer” (Wissen) e numa constância (Inständigkeit) na clareira do seer que permitiriam não sucumbir ao erro (ainda que se permaneça exposto a ele) e estar decidido pelo “outro início”?

23. E se o erro ocorresse precisamente ali, nesse “conhecer”, nesse sentimento mais visceral de resolução em direção àquilo que se identifica como essencial ou verdadeiro? Não testemunham muitos dos pronunciamentos heideggerianos nos Cadernos Negros tal erro?

24. Talvez afastar Nietzsche tenha sido necessário para que Heidegger se atesse ao “conhecer” da verdade do seer, para manter salva e nutrir aquela semente de verdade que espera um dia venha a criar raízes e brotar.

25. Pensar em termos de valores é, claro, algo que Heidegger critica como excrescência da maquinação e da subjetividade (talvez outro modo de manter “sua” verdade do seer a salvo?).

26. O singular é decisivo para Heidegger porque, de outro modo, acabaríamos representando acontecimentos e não pensando a partir do Da-sein, mas parece haver mais em seu pensamento no singular do que uma tentativa de não falar em relação aos entes.

27. O que estrutura essa singularidade quando já não é a atração da retirada do seer? Refletir-se-á agora mais sobre as noções que começam a abordar essa mudança na disposição fundamental do pensamento heideggeriano: as noções são “o sem-poder” (das Machtlose) e o seer na medida em que não deixa traço nos entes, de tal modo que os entes “não são”.

28. Parece que, com esses pensamentos, Heidegger começa a se afastar do que Krell aborda como o “desejo heideggeriano de superar o niilismo”, que exibe “um anseio por resultados na história”.

29. Tenta-se também olhar para a data em que os primeiros sinais de um deslocamento no ânimo do pensamento começam a emergir nas meditações heideggerianas. Por volta de 1938–1939, as organizações nazistas já haviam “se estabelecido” e estruturado a vida social e política, sentando-se espiões nazistas nas aulas de Heidegger sobre Nietzsche para assegurar que cumprisse diretrizes.

30. Ao conversar com um amigo (poeta chileno) sobre o retraimento heideggeriano do domínio público, esse amigo olhou e perguntou: “e como isso é diferente de nossa situação atual? O que podemos fazer? Tentaremos fazer algo quando não há nada que possamos fazer? Ou ficamos em casa e escrevemos?” Olhamo-nos e não encontramos mais nada a dizer.

31. Assim “nós” seguimos; encontramos sentido no ensinar, escrever, na amizade, e nutrimos nossas sementes de verdade, colocando-se “nós” entre aspas porque, claro, há muitos mais que se engajam ativamente em organizações, muitos que talvez ainda consigam acreditar que a humanidade encontrará alguma solução para o avanço do desastre ecológico, para a exploração humana, animal e vegetal. Depois há muitos que simplesmente não se importam.

32. Guerra mundial, campos de concentração, exploração econômica e ecológica são consequências da maquinação, diz-nos Heidegger, não sendo o mal, mas apenas sintomas.

A Crítica Heideggeriana do Animal Humano e a Desumanização

33. Não se deveria dizer que também Heidegger era propenso ao impulso de expelir de seu “corpo” o que mais intimamente o perturbava? (Note-se que não se pretende implicar com isso que seja algo ruim, mas se esperaria que um pensador estivesse ciente de tal expulsão.)

34. Poder-se-ia trazer aqui o movimento derridiano de mostrar como Heidegger ainda está “infectado” pela tradição metafísica que mantém algo como “espírito” a salvo de ser contaminado pelo corpo.

35. Paixões destrutivas e catárticas não podem ser separadas categoricamente; pertencem à mesma família, sendo sua distinção antes algo que precisa ser realizado ao se passar pelas paixões.

36. Requer-se força para manter à distância e repelir as ameaças que permeiam o próprio ser, testemunhando essa força a ênfase heideggeriana na decisão e sua crítica à maquinação.

37. Uma das respostas de Heidegger é: “desumanizar”. “Desumanização” (Entmenschung) é palavra fundamental em Besinnung, sendo a tentativa de se afastar da centralidade dos humanos característica de todo seu caminho de pensamento, refletindo-se isso no modo como o Da-sein passa a designar cada vez menos o humano e cada vez mais a clareira do seer na qual os humanos participam como “custódios” e como “os criadores”, que tomam a direção para seu criar precisamente não a partir de nada humano.

38. O pensamento heideggeriano encontrará cada vez mais uma morada para seu pensar no tempo-espaço do ser onde os entes são privados de seer, na “pobreza” e “dignidade” do sem-poder, sendo isso, estranhamente, possibilitado pelos entrincheiramentos últimos da maquinação.