O ressentimento pode ser uma emoção que começa com a consciência da sua impotência, mas, por meio de compensação, forjou a arma perfeita — uma língua ácida e uma consciência estratégica do mundo, que proporciona paridade, se não vitória, na maioria dos conflitos sociais.
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Surge, assim, a ironia, a dramática inversão de fortunas, à medida que o ressentimento defensivo subjuga a autoconfiança indefesa e o sentimento de inferioridade esmaga os seus superiores.
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Os estereótipos neo-nietzschianos são frequentemente retratados em termos do senhor nobre e culto versus o escravo miserável e iletrado, e as descrições na Genealogia de Nietzsche certamente encorajam tal leitura.
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Contudo, a tipologia que realmente conta na genealogia do ressentimento e da moral é o escravo articulado e o senhor de língua presa, até mesmo o ingênuo.
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É o escravo que é suficientemente engenhoso para fazer o que Nietzsche deseja: ele ou ela inventa novos valores.
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E é o senhor, e não o escravo, que se torna decadente e dependente e permite ser enganado pelas estratégias do ressentimento.
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Hegel acertou na
Fenomenologia do Espírito: a linguagem pode ser a invenção política do “rebanho” (como Nietzsche sugere em
A Gaia Ciência), mas é também o meio no qual o poder real é expresso e trocado.
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A ironia é a arma derradeira do ressentimento e, como
Sócrates demonstrou habilmente, transforma a ignorância em poder, a fraqueza pessoal em força filosófica.
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Não é de admirar que Nietzsche tivesse sentimentos mistos em relação ao seu predecessor no arsenal do ressentimento, que criou a “tirania da razão” como a expressão bem-sucedida da sua própria vontade de poder.
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Nietzsche usou a ironia e a “genealogia” tal como Sócrates usou a dialética, para minar e, em última instância, dominar os outros e as suas opiniões.
PS: SOLOMON, Robert C. What Nietzsche Really Said. Westminster: Knopf Doubleday Publishing Group, 2012.